Por que a Irlanda é um dos dez lugares mais caros do mundo para alugar uma casa?

Crise habitacional na Irlanda: alugueis não param de subir, moradores de rua se multiplicam e famílias não dão conta das dificuldades

Visão da capital irlandesa a partir da Ponte Grattan. Foto: Bigstock

por New York Times

03/09/2019

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Durante gerações, os irlandeses tomaram como certo que a oferta abundante e acessível de imóveis era a base de sua segurança econômica e da política do governo. Pouco tempo atrás, a Irlanda tinha uma das maiores taxas mundiais de propriedades residenciais.

Os últimos anos acabaram com essas suposições, deixando o país à mercê de uma crise habitacional que vai se agravando. A propriedade residencial diminuiu, despejos e moradores de rua aumentaram acentuadamente, o crescimento da demanda dos aluguéis gerou escassez, e os altos preços das locações fazem parte das conversas diárias, das campanhas políticas e de protestos nas ruas.

Região central de Dublin onde pessoas passam a noite. Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

Nos últimos anos, Dublin se tornou um dos dez lugares mais caros do mundo para alugar uma residência, à frente de cidades como Tóquio, Sydney e Singapura. O Deutsche Bank informou em maio que o aluguel típico de um apartamento médio de dois quartos em Dublin era de US$ 2.018 por mês, 23 por cento a mais que em 2014 – o maior aumento entre as maiores cidades.

“Quase todos os meus conhecidos que pagam aluguel receberam aviso de despejo em algum momento. Acontece tantas vezes que é assustador”, disse Carly Bailey, que já tinha sido sem-teto duas vezes antes de ser eleita para o Conselho Municipal de Dublin este ano. “Não sei em que escola colocar minha filha. Pessoas como nós simplesmente não sabem onde vão estar em poucos meses.”

Carly Bailey, que já tinha sido sem-teto duas vezes antes de ser eleita para o Conselho Municipal de Dublin este ano. Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

A crise é particularmente grave para os jovens que têm pouca escolha a não ser gastar grande parte de sua renda em aluguel, além da pouca perspectiva de conseguir economizar para comprar uma casa mais tarde.

“Você tem uma geração excluída do contrato social irlandês“, disse Rory Hearne, professor de sociologia da habitação na Universidade de Maynooth. “Muitos jovens agora estão percebendo que nunca terão casa própria, e essa é uma perspectiva particularmente terrível quando você vive em um país onde um imóvel é geralmente seu principal trunfo para a aposentadoria.”

O executivo-chefe da Ires Reit, a maior locadora privada da Irlanda, disse no fim de 2016: “Nunca vimos aumentos de aluguéis como estes em qualquer jurisdição. Realmente, eu me sinto mal pelos irlandeses.” Nos dois anos que se seguiram, o valor da locação em todo o país subiu cerca de 14 por cento, informou o governo.

Moradora de rua pede esmola na região central de Dublin. Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

A divisão irlandesa da Savills, uma imobiliária internacional, prevê que os aluguéis vão aumentar mais 17 por cento nos próximos três anos.

“Os riscos sociais e políticos são muito altos”, disse Orla Hegarty, professora de arquitetura da Universidade College Dublin. “O alto custo da habitação é agora uma barreira para o investimento interno, para os emigrantes que retornam com habilidades, para as pessoas que esperam começar uma família e que querem se mudar. Veremos isso em breve na perda do crescimento e na queda da taxa de natalidade.”

Para aqueles que lutam para pagar aluguel ou que não conseguem encontrar uma casa para viver, o risco não é futuro, mas atual.

Sabrina Farrell vive com os três filhos em um único quarto de hotel pago pelo governo local, sem lugar para cozinhar. Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

Depois de nove anos alugando uma casa no norte do Condado de Dublin, Sabrina Farrell e seus três filhos, com idades entre 4 e 16 anos, foram despejados em abril, quando o proprietário decidiu vender o imóvel. Incapazes de encontrar uma casa com preço viável, mesmo com a assistência pública para o aluguel, eles agora compartilham um único quarto de hotel pago pelo governo local, sem lugar para cozinhar ou brincar.

“As crianças estão vivendo de McDonald’s”, disse Farrell. “Algumas semanas atrás, meu filho mais velho começou a se automutilar por causa da situação em que estamos.”

“Tenho de ser forte por eles e dar meu melhor, mas, quando você vê seus filhos sofrendo, é difícil. Comecei a ter ataques de pânico. Estou tomando remédios agora.”

Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

A falta de moradia na Irlanda quase quadruplicou nos últimos cinco anos, de acordo com o governo. Os números oficiais de maio mostraram 10.253 moradores de rua, incluindo 1.700 famílias com 3.749 crianças. Muitos mais, que emigraram ou que vivem com pais ou amigos, não foram computados.

Mesmo os que podem pagar aluguel não se sentem seguros em um mercado cujos preços sempre sobem. O período de aluguel pode ser bem curto, seis meses, e a lei irlandesa permite que os proprietários despejem seus inquilinos se quiserem vender a propriedade, reformá-la ou nela instalar um membro da família.

Grande parte da revolta na Irlanda se concentra nas empresas estrangeiras como a Ires Reit, cujo maior acionista é uma empresa canadense, ou na Kennedy Wilson, uma empresa da Califórnia, que compraram ou construíram milhares de unidades em poucos anos e estão expandindo suas participações, pagando pouco ou quase nada de impostos.

Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

Essas empresas, muitas vezes apoiadas por bancos, firmas imobiliárias e fundos de pensão estrangeiros, foram apelidadas de “fundos cuco”, por causa das aves que põem ovos nos ninhos de outras espécies, expulsando seus filhotes. Mas eles possuem menos de cinco por cento das casas para alugar no país, a maior parte delas de luxo.

Ter uma casa sempre foi uma obsessão nacional na Irlanda, onde a lembrança dos inquilinos do século XIX que sofriam nas mãos de proprietários, muitos deles britânicos, ainda faz parte da cultura. Depois que o país se tornou independente nos anos 1920, seu governo promoveu uma campanha de construção e mais tarde vendeu muitas residências públicas a seus locatários.

Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

Mas, na última década, a Irlanda, como os Estados Unidos, tinha uma bolha de propriedade baseada em dívidas, alimentada por empréstimos imprudentes e incentivos fiscais. Quando a bolha estourou em 2008, dando início a uma recessão profunda, o preço dos imóveis caiu, as pessoas deixaram de pagar os financiamentos, as construções pararam e os bancos irlandeses, com grandes dívidas com bancos estrangeiros, chegaram perto da insolvência.

O número de famílias com uma propriedade caiu de cerca de 80 por cento para menos de 70 por cento – ainda à frente de países como Grã-Bretanha, França e Alemanha, mas o menor na Irlanda em quatro décadas.

O governo foi forçado a tomar US$ 77 bilhões emprestados do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia e a impor medidas de austeridade à população. Os bancos de investimento dos EUA compraram empréstimos hipotecários com descontos, lucrando com a recuperação do mercado.

Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

O número de famílias que alugam casas particulares dobrou, para quase 20 por cento, de acordo com a Focus Ireland, um grupo de defesa que trabalha com habitação e pessoas sem-teto. Além da crescente demanda, a Irlanda se tornou um ímã de grandes empresas internacionais, trazendo milhares de locatários estrangeiros para o mercado.

Hoje, o custo do aluguel é muito maior que o do financiamento. O site imobiliário daft.ie relatou recentemente que a mensalidade de um financiamento de uma casa de dois quartos em Cork seria de cerca de US$ 700, mas o aluguel da mesma casa custaria quase US$ 1.300.

Os preços das casas se recuperaram desde a recessão, mas não o número de proprietários, em parte porque quem paga um aluguel elevado frequentemente não consegue poupar para dar entrada em um financiamento. Em 2015, para evitar empréstimos perigosos, o Banco Central da Irlanda limitou o valor dos financiamentos em cerca de 3,5 vezes a renda anual do comprador, mas o custo médio é de cerca de 5,6 vezes a renda.

John-Mark McCafferty, executivo-chefe da Threshold, um grupo de defesa dos inquilinos. Foto: Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

“Estamos vendo cada vez mais pessoas no mercado de locação que não querem estar nele, mas que não podem se dar ao luxo de comprar”, diz John-Mark McCafferty, executivo-chefe da Threshold, um grupo de defesa dos inquilinos.

Apesar da demanda elevada, as novas construções ainda são poucas, graças ao limite apertado do financiamento, aos custos elevados e à posse de terra por especuladores.

Para resolver a situação, há um clamor crescente para que o governo de centro-direita do primeiro-ministro Leo Varadkar construa habitações públicas. Os críticos também questionam políticas como incentivos fiscais para grandes proprietários corporativos e a grande dependência de subsídios de aluguel pagos aos proprietários.

O governo iniciou o programa “Reconstruindo a Irlanda” há três anos, com o objetivo de, em última análise, adicionar 25 mil unidades por ano à oferta imobiliária. Esse objetivo não está sendo cumprido e, mesmo que estivesse, os críticos dizem que não é suficiente, e os aluguéis continuam a subir. Varadkar pediu regras de empréstimo mais flexíveis, mas alertou que uma campanha mais agressiva de construções poderia repetir a bolha que produziu o crash de 2008.

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