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Ícones da arquitetura e do urbanismo brasileiros, Paulo Mendes da Rocha e Jaime Lerner são lembrados pelo cunho político de suas produções.
Ícones da arquitetura e do urbanismo brasileiros, Paulo Mendes da Rocha e Jaime Lerner são lembrados pelo cunho político de suas produções.| Foto: Fotos: Fernando Zequinão e Albari Rosa/Gazeta do Povo/Arquivo

Dois dos grandes expoentes da arquitetura e do urbanismo brasileiros e que integram a constelação internacional da área, Jaime Lerner e Paulo Mendes da Rocha foram referenciados na mesa "Diálogo Brasil Portugal", evento da programação de abertura do UIA2021RIO (27º Congresso Mundial de Arquitetos), que segue até a próxima quinta-feira (22).

A mesa, realizada em homenagem a Paulo Mendes da Rocha, presidente do Comitê de Honra do UIA2021RIO falecido no último mês de maio, assim como Lerner, reuniu os arquitetos Eduardo Souto de Moura (Portugal) e Carla Juaçaba (Brasil), com mediação de Nuno Sampaio (Portugal), para discutir as dificuldades, os caminhos e a dimensão política do fazer arquitetônico.

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Dimensão esta fortemente presente nos trabalhos realizados por Lerner (que além de urbanista foi prefeito de Curitiba por três oportunidades, nas quais promoveu a revolução urbana que marcou a capital paranaense com soluções reproduzidas nos quatro cantos do globo) e por Rocha (que tinha no compromisso social uma das premissas de seu trabalho), e referenciada pelo mediador ao levantar a discussão sobre a responsabilidade do arquiteto em atuar na realidade onde está.

Pinacoteca de São Paulo, um dos trabalhos assinados por Paulo Mendes da Rocha na capital paulista.
Pinacoteca de São Paulo, um dos trabalhos assinados por Paulo Mendes da Rocha na capital paulista. | Wikimedia Commons

"'Tudo é político', esta frase não é novidade. Mas acredito que a arquitetura não é política. O frontão e a coluna são usados em todos os regimes políticos. Quando desenho uma janela, um banheiro, não estou fazendo política ou arte. Isso vai ter consequências políticas, mas eu não tenho que pensar nisso", defendeu Eduardo Souto de Moura. "Tudo o que vai existir tem uma questão política, mas eu não posso me preocupar [com ela], senão isso irá inibir [a criação]. A arquitetura não é política, os arquitetos é que podem confundir", continuou o arquiteto português, ao que acrescentou: "Nós temos uma responsabilidade de cidadania, igual a um médico. Quando um médico vê uma doença, ele tem que tratá-la. A arquitetura [serve] à resolução de um problema, esse é o nosso dever social. Somos chamados para resolver um problema, e isso tem consequências intrínsecas, pois este problema está interligado a outros cujo objetivo [de resolução] é melhorar a sociedade, a comunidade".

Sistema de transporte por canaletas exclusivas para ônibus em Curitiba (BRT), criadas por Jaime Lerner.
Sistema de transporte por canaletas exclusivas para ônibus em Curitiba (BRT), criadas por Jaime Lerner. | Albari Rosa/Gazeta do Povo/Arquivo

Carla seguiu o exposto pelo colega de profissão e amigo e complementou dizendo que consegue "identificar não uma arquitetura política, mas sim um desenho democrático". Para ilustrar o pensamento, ela citou o vão livre sob o Museu de Arte de São Paulo (Masp), assinado por Lina Bo Bardi na Avenida Paulista, e que se tornou um dos marcos dos eventos e movimentos políticos e sociais na capital paulista. "Talvez [nem a Lina] soubesse que ele teria um sucesso tão absurdo".

Desafios

Cerca de 65% dos projetos desenvolvidos por profissionais de arquitetura em todo o mundo não chegam a ser construídos. A constatação coloca as formas de manutenção e de acesso aos acervos e a todo conhecimento proveniente deles como um dos grandes desafios enfrentados pela área em nível mundial, seja do ponto de vista do registro histórico ou da evolução das pesquisas e do potencial dos projetos desenvolvidos pelos profissionais a partir daqueles trabalhos.

Junto deles, a inflação e o aumento dos preços dos materiais e a pressão do tempo sobre o projeto arquitetônico, aqui referenciado pelas questões que envolvem prazos e juros de financiamentos, especificamente, também despontam como os principais obstáculos a serem enfrentados pela área, e também ponderados no momento de estudo e elaboração dos projetos.

"É um momento muito difícil. Eu venho de uma geração mais nova e tenho contato com gerações ainda mais novas, que têm um potencial maravilhoso. Então, queria terminar dessa maneira otimista, dizendo que mesmo com todas as dificuldades, temos que continuar sonhando", finalizou Carla.

O UIA2021RIO segue até a próxima quinta-feira (22) em formato 100% digital. As inscrições estão abertas. Mais informações podem ser obtidas no site oficial do evento.

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