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Um mestre: arquitetos, urbanistas e intelectuais repercutem o legado de Jaime Lerner
| Foto: Jaime Lerner Arquitetos Associados/Divulgação

Nesta quinta-feira (27) Curitiba se despede de seu grande maestro, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner, 83 anos, considerado internacionalmente um dos maiores pensadores do planejamento urbano contemporâneo. A alcunha não é exagero algum. O fechamento da Rua XV de Novembro foi reproduzido pelo mundo todo. Sua solução de sistema de transporte por canaletas exclusivas (o BRT) foi copiado em mais de 250 cidades.

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Apesar de seu legado estar vivo em diversos cantos de inúmeras cidades pelo mundo, Lerner vive principalmente no legado humano que construiu. Foi guru intelectual de diversas gerações de arquitetos e uma liderança transformadora.

Mestre de uma geração

Para Jonas Rabinovitch, arquiteto carioca que há 25 trabalha na ONU, "Lerner liderou uma nova forma de se pensar a cidade de forma integrada. Mas, acima de tudo, ele liderou o pensamento de toda uma geração de arquitetos e urbanistas e de futuras gerações de planejadores urbanos. Essa cartilha ainda está sendo escrita", avalia o profissional.

A arquiteta Samira Barakat, da marca de mobiliário Jaime Lerner Design, confirma. "Ele foi meu grande mestre. Foi quem me ensinou muita coisa. Entrei no escritório dele como estagiária, e me tornei sua sócia. Tudo que aprendi foi com ele", relata Samira.

Jaime Lerner durante sua última longa entrevista para a Gazeta do Povo em 2017.
Jaime Lerner durante sua última longa entrevista para a Gazeta do Povo em 2017.| Albari Rosa/Gazeta do Povo/Arquivo

Otimismo e vontade de aprender

O arquiteto Geraldo Pougy, que é presidente do Conselho do Centro Brasil Design, hub nacional de inovação criado durante o governo de Jaime Lerner, descreveu nas redes sociais o que mais lhe marcou no ex-prefeito de Curitiba.

"Que tristeza ver o Jaime partir. Especialmente nesses tempos de falta total de otimismo, de empatia e de capacidade de conversar. Jaime era pura empatia e otimismo: atraia criativos e pessoas interessantes. Gostava de conversar e de aprender. Acho que esse era um dos segredos do seu talento urbanístico: ouvir as pessoas. Buscava entender primeiro, ao invés de chegar com a solução pronta. Como ele mesmo disse: meu nome é Lerner, gosto de estudar", defende Pougy.

Prefeito Jaime Lerner (esq.), Hairton Romani (centro) e um diretor da Marcopolo, durante apresentação do protótipo do novo ônibus Expresso, na sala de reunião do IPPUC. O modelo foi projetado em conjunto pelo setor de planejamento e a encarroçadora de Caxias do Sul. Os veículos começaram a circular no eixo Norte/Sul, ligando Santa Cândida ao Capão Raso, a partir de 22 de setembro de 1974.
Prefeito Jaime Lerner (esq.), Hairton Romani (centro) e um diretor da Marcopolo, durante apresentação do protótipo do novo ônibus Expresso, na sala de reunião do IPPUC. O modelo foi projetado em conjunto pelo setor de planejamento e a encarroçadora de Caxias do Sul. Os veículos começaram a circular no eixo Norte/Sul, ligando Santa Cândida ao Capão Raso, a partir de 22 de setembro de 1974.| Arquivo/SMCS

Legado imortal

O arquiteto Felipe Guerra, sócio do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, despediu-se do 'professor' lembrando que seu legado jamais será esquecido. "Foram 20 anos dessa grande experiência, dividindo com ele a prancheta, os conhecimentos, os ensinamentos, tudo sempre com bom humor único. Algumas pessoas deveriam ser eternas, Lerner certamente seria uma delas. O que alivia a dor da perda é a certeza que o legado é imortal e que será só andar por Curitiba para sentir ele ainda vivo!", disse em publicação em uma rede social.

Outro sócio do escritório, o arquiteto Fernando Canalli, também prestou sua homenagem em forma de um breve poema: “Só consigo imaginar uma magna semana de Arquitetura e Urbanismo nos céus; JL abrindo os trabalhos num vasto, simples e brilhante cenário harmônico recheado de Verdade! Todos que lá se encontram têm semblante descontraído e interessado. O Jaime com seu sorriso único preenche os Corações e mentes de todos que lá se encontram”.

Lerner em sua casa no Cabral, uma das pérolas de sua produção arquitetônica, que mais tarde abrigou o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados.
Lerner em sua casa no Cabral, uma das pérolas de sua produção arquitetônica, que mais tarde abrigou o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados.| Daniel Castellano/Gazeta do Povo/Arquivo

"Eu trabalho com o lado bom lado das pessoas"

O arquiteto Pedro Sunyé, mestre pela FAUUSP, com oito anos de experiência trabalhando com o desenho de cidades no Jaime Lerner Arquitetos Associados, tem uma relação com o arquiteto desde a infância. "Nasci numa cidade que era Jaime Lerner. Pequeno, ia andar no calçadão da Rua XV e minha mãe falava que o Lerner tinha criado aquela rua para pessoas e não para carros - assim as crianças podiam desenhar deitadas no chão. Iria pegar um ônibus, era o Lerner que tinha criado o sistema de transporte, desde o biarticulado, a canaleta exclusiva, até estação em forma de tubo. Ia para o parque? Era do Lerner", brinca o arquiteto.

"Cresci querendo entender o que fazia afinal esse tal de Jaime Lerner que tinha dedo em tudo que eu tocava. Fiz vestibular para Arquitetura e após 4 anos estava sentado em frente a ele, olhando para os profundos olhos azuis, e pedindo um estágio. Conheci o Jaime com 74 anos, numa época dócil, já afastado da política, com todas as histórias do mundo e cheio de vontade para contá-las. Eu, aos 22, com todas as perguntas possíveis e ao lado uma fonte inesgotável de piadas e de conhecimento. Achando que ia aprender sobre “arquitetura”, me enganei, aprendi sobre pessoas e como o desenho do espaço é quem promove o encontro delas", confidencia Sunyé.

"Sua máxima, 'Eu trabalho com o lado bom das pessoas', nunca sairá da minha cabeça. Enquanto o mundo elogia Jaime Lerner, ele só falava bem de seus amigos e colegas, cada um deles com seu saber e responsável por uma pequena fração desta gigante figura que conhecemos. Se até ontem eu me perguntava qual era o “meu lado bom” - já que como arquiteto fiz tão pouco perto do que dele recebi - hoje não resta dúvida que é contar para vocês tudo que aprendi".

Jaime Lerner é um dos arquitetos e urbanistas mais importantes da história do mundo ao liderar a revolução urbana em Curitiba.
Jaime Lerner é um dos arquitetos e urbanistas mais importantes da história do mundo ao liderar a revolução urbana em Curitiba.| Albari Rosa/Gazeta do Povo/Arquivo

Arquitetura de luto

A arquiteta Sylvia Ficher, professora emérita da Universidade de Brasília (UnB), uma das sumidades em história do urbanismo e da arquitetura - que não é Paciornik no registro oficial, mas é com muito orgulho Paciornik nos genes -, escreveu com exclusividade para HAUS: "Como curitibana, estou de luto por perdermos Jaime Lerner. Foi ele quem nos legou não apenas uma Curitiba cidade maravilhosa. O Jaime nos legou o orgulho de sermos curitibanos", sentencia Sylvia.

"Como arquiteta e urbanista, é minha profissão que está de luto, tendo perdido em tão poucos dias duas de suas mais notáveis referências. Na arquitetura, Paulo Mendes da Rocha; no urbanismo, Jaime Lerner."

Equipe que fez toda a diferença

Jaime Lerner sempre reconheceu a importância da equipe que trabalhou com ele na revolução urbana que conduziu em Curitiba e no Paraná. Uma dessas figuras importantes é o arquiteto Abrão Assad, 78 anos.

"Tenho com o Lerner uma relação de amizade muito antes de ser prefeito. Fizemos concursos juntos. Era uma questão de identidade. A gente brincava que formávamos um dueto. Cada um fazia uma parte do trabalho e, depois, aquilo tudo se completava", afirma Assad. "Ele teve visão estratégica quando Curitiba, em 1971, tinha apenas 600 mil habitantes. Em vez de condenar a cidade a uma série de problemas com o planejamento concêntrico que se fazia na época, o Jaime viu uma cidade linear, que cresce junto com os eixos estruturais", comenta.

O arquiteto Abrão Assad integrou a equipe fantástica que Jaime Lerner liderou na revolução urbana, bem como Lubomir Ficinski, Domingos Bongestabs, Alan Cannell, Osvaldo Navaro, Lauro Tomizawa, entre outros.
O arquiteto Abrão Assad integrou a equipe fantástica que Jaime Lerner liderou na revolução urbana, bem como Lubomir Ficinski, Domingos Bongestabs, Alan Cannell, Osvaldo Navaro, Lauro Tomizawa, entre outros.| Giuliano Gomes/ Arquivo/ Gazeta do Povo

Entidades e prefeitura

A Prefeitura de Curitiba decretou luto oficial de três dias pelo falecimento de Lerner. O prefeito Rafael Greca (DEM) postou em suas redes sociais: "O notável urbanista curitibano [...] foi um dos mentores da valorosa equipe que moldou a história recente de Curitiba urbana. Seu admirável legado contempla do Teatro Paiol ao calçadão da rua das Flores. Do Parque Barigui à Ópera de Arame. Do Jardim Botânico de Curitiba ao Jardim Zoológico do parque do Iguaçu. Da Cidade Industrial de Curitiba ao sistema BRT".

Greca lembrou também que foi Lerner quem viabilizou o Parque Automotivo do Paraná, o Anel de Integração, os Jogos Mundiais da Natureza em Foz do Iguaçu e o Museu Oscar Niemeyer, orgulho de Curitiba.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU-PR) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PR) emitiram notas de pesar em nome de todos os arquitetos e urbanistas paranaenses, destacando que o arquiteto curitibano deixa uma forma inovadora de pensar as cidades, priorizando o ser humano na definição do planejamento urbano.

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