Memória de imigrantes alemães, ‘a casa atrás da moita’ dá adeus a Curitiba

Desaparecimento de uma das últimas casas de madeira do Juvevê traz reflexão sobre a perda de identificação com a história dos imigrantes que as construíram

Uma casa atrás da moita representa centenas de residências em madeira que foram deixando a paisagem de Curitiba. Foto: Washington Takeuchi.

por Bruno Gabriel*

18/07/2019

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Com o passar dos anos, as tradicionais casas de madeira são encontradas com menos facilidade nas grandes cidades. Construções comuns no início do século passado, elas têm sido derrubadas em prol da verticalização. Tal processo é encarado como natural e não é diferente em Curitiba. Entretanto, um fato decorrente deste processo chama a atenção: o possível apagamento das memórias que essas construções trazem, em especial ao que se refere aos primeiros imigrantes que as habitaram.

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O engenheiro civil e arquiteto Gabriel Ruiz de Oliveira, que já se debruçou sobre o patrimônio de madeira da capital paranaense durante um mestrado na Universidade de São Paulo (USP), explica que o desenvolvimento e a ocupação de Curitiba só foram possíveis por causa dessas casas. De acordo com ele, bairros enormes e populosos, como Boqueirão, Sítio Cercado e Uberaba, foram todos construídos com madeira. Para o estudioso, ela foi fundamental para o crescimento da cidade, pois incentivou o desenvolvimento de diversas áreas do município, além de permitir que pessoas com menos condições se estabelecessem em regiões antes não habitadas. “A mata de Araucária era vista como uma praga. Em um terreno, havia muitas árvores, que precisavam ser retiradas para construir a casa e plantar alguma coisa. Era, portanto, o material mais barato”, diz Oliveira.

A casa em 2016, ainda habitada. Foto: Washington Cesar Takeuchi

É justamente esse o caso de uma casa verde, ao fundo de um grande terreno no bairro Juvevê, que está prestes a ser derrubada. Ela chamou a atenção do fotógrafo Washington Takeuchi, que se considera um caçador de casas de madeira em Curitiba. Ele já registrou a imagem de mais de 100 delas, reunindo-as no livro Saudade do Ninho”, publicado em 2018. Em uma de suas andanças, ele ficou intrigado com a tal casinha: “Ela é muito bonita e está em uma região nobre da cidade. Fotografei e publiquei no meu site. Foi quando uma pessoa entrou em contato comigo”.

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Era Ingo Dittmar, neto do primeiro morador da casa. Ao conversar com o fotógrafo, ele explicou que a casa sempre pertenceu a sua família e que, na época, estava sendo habitada por uma de suas tias. “O Ingo me contou o percurso de seus avós, e um dos pontos mais interessantes foi descobrir que a moradia foi testemunha de uma bela história de imigração, como acontece com tantas outras casas que construíram a história da cidade”, diz Takeuchi. O fotógrafo organizou a história que lhe foi contada e a relatou em série de posts em seu blog Circulando por Curitiba.

Imigração e perda de identidade

O arquiteto Gabriel Ruiz de Oliveira explica que um ponto importante a ser considerado quando se fala sobre a importância que a população dá às construções de madeira é o status que elas têm. “A gente só permite que essas casas sejam demolidas porque não enxergamos nelas a nossa identidade”, diz. Um dos motivos para esse afastamento, segundo ele, está ligado ao material mais simples e barato, o que faz com que algumas pessoas considerem as construções “mais pobres”.

“O telhado da maior parte das casas de Curitiba é feito de madeira. E a técnica veio da influência que os imigrantes trouxeram. Aí se derruba a casa que era um exemplar do início do desenvolvimento da carpintaria em Curitiba para a construção de um conjunto de quatro sobrados que vai adotar a mesma técnica do telhado”, indica. Para Oliveira, há uma dificuldade em se entender o valor das técnicas e das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento da cidade. Qual a importância dessas famílias para a construção do bairro, quais foram as contribuições para o desenvolvimento da região e até mesmo de técnicas construtivas.

Casa ainda habitada e paiol. Foto: Washington Takeuchi

O caçador de casas de madeira Washington Takeuchi concorda com o ponto de vista de Oliveira. “As novas gerações tendem a se distanciar cada vez mais de suas raízes. Saímos de habitações unifamiliares em prol da verticalização da cidade. A expansão cria esse processo natural, mas precisamos pensar também em evitar a perda de identidade”. Takeuchi acredita que ações do poder público seriam bem vindas para preservar ao menos parte da história, principalmente por meio de registros mais eficientes.

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Nesse sentido, Oliveira indica a existência de estudiosos sobre as casas de madeira, mas admite que ainda não há levantamento suficiente acerca do assunto. O arquiteto ainda fala sobre a necessidade de a população começar a enxergar o próprio valor enquanto cidadão, construindo uma identidade mais ampla pra tentar defender a preservação do patrimônio. “É preciso valorizar alguns exemplares das casas para que sejam identificadas como parte da identidade popular”, sugere.

Para indicar a viabilidade prática da sugestão, Oliveira cita o caso do Paço Municipal de Curitiba. Antes renegado pela população da cidade, o edifício passou por uma requalificação, sendo inserido no contexto social das pessoas.  “Antes a obra era pouco considerada até mesmo pelo turismo, hoje é fotografada pelos próprios curitibanos que passam por ali”, afirma.

A “casa atrás da moita”

A casa na época de sua construção. Foto: Acervo pessoal Ingo Dittmar

A ‘casa verde’ do Juvevê já chamou a atenção da imprensa local em outro momento. Apelidada de “casa atrás da moita”, tinha destaque por estar escondida atrás da vegetação do terreno na rua Almirante Tamandaré.  Ela foi a primeira habitação a aparecer na região, quando o alemão Guilherme Rudolph iniciou a construção do lugar para onde se mudaria com seu pai e suas três filhas.

A história de Rudolph no Brasil teve início em 1924, quando deixou sua terra natal para tentar a vida no Brasil. Instalou-se em uma colônia de alemães com seus pais, em Cândido de Abreu. Cinco anos depois, com Guilherme já casado, mudaram-se todos para Curitiba. Morando de aluguel, a família ganhou novos membros e passou por diferentes regiões até que a esposa de Guilherme, Anna, precisou voltar à Alemanha. A mãe do rapaz faleceria pouco tempo depois.

Tendo de criar três filhas, Guilherme passou a contar apenas com a ajuda do pai. Foi trabalhar na Móveis Ritzmann, onde vislumbrou a ideia de comprar madeira mais barata para a construção de uma casa. Comprou o terreno no Juvevê e lá foi estocando a madeira para a construção de sua moradia.  Na Páscoa de 1948, a casa estava pronta. “Ela foi habitada no domingo da Páscoa de 1948, simbolizando a vida nova”, conta o neto de Guilherme, Ingo Dittmar.

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Simultaneamente à construção da casa, foi também elaborado uma espécie de “paiol”. Era muito comum nas casas antigas uma área aos fundos para guardar itens e ter uma oficina, por exemplo. “Meu avô tinha uma estrutura com bancada para fazer manutenções e como era ferramenteiro e ferreiro de formação, fazia alguns trabalhos e bicos diversos”, relata o neto. Guilherme se interessava tanto pelos trabalhos manuais que consertava a própria motocicleta. Além disso, desenvolveu uma garagem adaptada com um fosso, para que pudesse fazer a manutenção embaixo do carro.

A casa é grande: tem dois andares, cinco quartos, sendo três em cima e dois embaixo. Conta com cozinha, copa, sala, sótão e banheiro. “Nada sofisticado, tudo muito simples”, indica Ingo. Com um espaço tão amplo, foi palco para o crescimento da família. “Minha mãe, quando casou com meu pai, morou ali por 12 anos. Dos meus cinco irmãos, três nasceram naquela casa, incluindo minhas irmãs gêmeas”, diz Ingo.

Foram muitos natais, almoços e encontros até que em 1996, aos 94 anos de idade, Guilherme faleceu em casa. O local permaneceu habitado até 2016, por Adelaide, a filha do meio. Atualmente, a casa encontra-se desocupada, com a vegetação alta e com uma placa indicando que foi vendida a uma construtora da cidade. O empreendimento que ocupará o espaço não foi informado.

A casa prestes a ser demolida. Fonte: Washington Takeuchi

Apesar do apego que tem ao local, Ingo indica que o alto custo da manutenção do terreno e a burocracia envolvida dificultaram qualquer interesse que teve pela compra da casa. “Entendo a demolição como o ciclo natural da vida. Tudo tem sua etapa. Meus avós deixaram moradias também na Alemanha e aqui se estabeleceram”, pondera.

O neto do primeiro morador da “casa atrás da moita” ainda reconhece a importância da moradia de seu avô em sua vida. Para ele, o local remete às suas origens. E é a partir desse conhecimento que consegue responder a perguntas cruciais de sua existência. Ele complementa: “Quem tem a possibilidade de saber as suas origens, tem que correr atrás. Buscar esse tipo de informação ajuda a entender quem somos”, garante.

Casa e “paiol” construído atrás. Foto: Acervo Ingo Dittmar

Situação atual da casa, prestes a ser demolida. Foto: Bruno Gabriel / Gazeta do Povo

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