A arquitetura modernista continua em movimento

Produção de escritórios contemporâneos tem como base a mais relevante escola da arquitetura brasileira e propõe uma releitura que explora novos contextos, experimenta combinações e amplia tecnologias

por Daliane Nogueira

22/07/2015

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Não há como falar em arquitetura brasileira sem fazer referência ao modernismo. A escola mais importante do século 20 produziu os principais nomes e projetou a produção nacional para o mundo. Conceitos como a estrutura que se resolve dentro de uma modulação, a construção em planos e o uso do concreto, continuam presentes na produção de diversos arquitetos contemporâneos.

Nomes como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Afonso Reidy, Sérgio Bernardes, Rino Levi, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha são selos da arquitetura brasileira e acompanham a formação das novas gerações. Mais de meio século se passou e as obras por eles assinadas continuam sendo referências importantes e marcos da nossa produção.

“Não dá para negar que dos anos 1990 para cá revisitamos o modernismo, reinterpretando a linguagem. Não é uma postura nostálgica, mas uma forma de retomar o impulso inovador”, aponta o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUCPR Luís Salvador Gnoato.

 

Casa Grelha, projeto do escritório paulista FGMF, foi construída em um grande terreno em forma de vale, dentro de uma fazenda, onde quase tudo é floresta. O grande trunfo do projeto é a grelha estrutural em madeira que serve de base e foi ocupada por varandas, deques, espaços fechados e outros totalmente abertos, por onde os jardins atravessam a casa. Fotos: Rafaela Netto/Divulgação

 

O movimento modernista ascendeu nos anos 1930, em um momento de busca pela afirmação da identidade nacional e em que havia uma ideologia da transformação social do país por meio da arquitetura. “O momento social e político é outro. Há um pensamento mais flexível, adaptado aos tempos modernos. Isso se reflete nos projetos”, analisa o arquiteto Gustavo Cedroni, sócio da Metro Arquitetos Associados.

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Neste processo, que pode ser chamado de neo-modernismo, a recuperação e o restauro de casas modernistas construídas décadas atrás aparece como experiência de valorização. “A intervenção nos espaços é feita para suprir as necessidades contemporâneas, mas respeitando-se a personalidade modernista do imóvel”, afirma o arquiteto Orlando Busarello, cujo escritório, Slomp&Busarello, assinou a reforma de uma casa construída nos anos 1970.

No livro Ainda Moderno? Arquitetura Brasileira Contemporânea, Lauro Cavalcanti e André Corrêa Lago analisam a produção contemporânea da arquitetura brasileira. Para eles, temos exemplares de um “modernismo em movimento”. A produção é dotada de sentido estético ajustada ao nosso tempo. Buscam-se soluções tecnológicas mais sustentáveis e perspectivas mais amplas.

“Como em outros movimentos artísticos, não há mais um único estilo possível para a arquitetura. O que é certo é que permanecerá quem interpretar a linguagem de seu tempo, como fizeram os modernistas heróicos”, conclui Gnoato.
Selecionamos projetos dos escritórios Marcos Bertoldi e Slomp&Busarello, que se destacam na cena paranaense com produções contemporâneas de inspiração modernista. Destacamos ainda a produção de dois escritórios paulistas comandados por jovens arquitetos, FGMF e Metro, ambos com soluções inovadoras para enfatizar conceitos-chave do movimento modernista.

Projeto de residência em Curitiba, assinado pelo escritório Slomp & Busarello. O concreto é o material chave, usado em sua forma bruta, bem no espírito modernista. No interior, os grandes panos de vidro, permitem que o olhar percorra os ambientes e chegue à praça interna. Destaque ainda para os móveis de design brasileiro. Fotos: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

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Estrutura e volumetria

Pela complexidade, o movimento modernista teve muitas vertentes, mas em todas elas a estrutura do edifício e a racionalização da construção são premissas importantes. Ao lançar as bases do movimento, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier via a casa como um objeto a ser construído em série e o indivíduo deveria ajustar-se a ela. Assim, a tarefa do projetista era identificar a solução correta. Esse pensamento hermético não cabe nos projetos contemporâneos onde admite-se que as condições locais e pessoais orientem a solução.

Nesta perspectiva, as decisões de estrutura e volumetria informam a intenção plástica do arquiteto, além das características de insolação e integração paisagística. Abre-se a possibilidade para um sem número de soluções, enriquecendo os projetos.

 

A casa modernista com projeto de Luiz Forte Netto, José e Roberto Gandolfi foi restaurada e ampliada pelo escritório Slomp & Busarello. O respeito e a valorização às linhas originais foram determinantes na ocupação do espaço. Entre os destaques, a recuperação dos muxarabis da fachada, em madeira imbuia. Foto: Ricardo Almeida e Daniela Busarello/Divulgação

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Protagonismo dos materiais

A força que os materiais têm na composição arquitetônica e na identidade do projeto é outra marca que o modernismo deixou para as construções. A grande referência nesse sentido é a exploração do concreto armado. Para Lourenço Gimenes, sócio do escritório FGMF Arquitetos, “lentamente a arquitetura brasileira alforria-se do concreto armado como solução universal.” Usa-se madeira, o aço corten e outros tipos de estrutura metálica.“Admite-se um mix de materiais em cada porção da obra, mas usados sem ‘maquiagem’. Cada produto é o que é”, completa.

 

Concreto armado na parte inferior, onde estão alocados todos os cômodos da residência, e estrutura metálica no bloco superior, que abriga o escritório, foram os eleitos do Metro Arquitetos para um projeto residencial em São Paulo. Revelar os materiais e não compartimentar demasiadamente a casa, além de proporcionar a integração com o espaço externo, nortearam as decisões. Foto: Leonardo Finotti/Divulgação

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Valorização do espaço

A construção por planos de composição ritmada é o que o arquiteto Orlando Busarello define como “fluidez do olhar”. Os vazios são tratados como parte da arquitetura e ajudam a compor os ambientes de forma leve. Neste contexto, em que poucos móveis são eleitos para compor interiores, aparecem, a partir do fim dos anos 1950, o mobiliário projetado por designers nacionais. Essas peças, ganham destaques também nas casas “modernistas contemporâneas.”

Integração com a natureza

O uso de vidro nas janelas em fita proporciona uma integração visual com o exterior. É a implantação da construção de forma orgânica no terreno. A ideia é realizar uma espécie de triângulo homem-casa-natureza, sem bloqueios. “As praças internas cumprem esse papel de convergência, proporcionando o convívio dos indivíduos”, afirma Orlando.

Ausência de ornamentos

Sem elementos que não tenham função arquitetônica, como colunas ou mesmo telhados, os projetos com inspiração modernista têm lajes impermeabilizadas como cobertura, o que faz sobressair a arquitetura. E a linguagem dos projetos contemporâneos é mais acessível. É o caso de um projeto do arquiteto Marcos Bertoldi. “A alvenaria branca e as paredes envidraçadas deixam elementos como obras de arte e mobiliários ganharem destaque.”

 

Nem só de concreto vivem as releituras do modernismo. O projeto de Marcos Bertoldi, para uma residência em um condomínio em Curitiba, usou a alvenaria branca e o vidro, além de alguns volumes em pedra, para compor a estrutura. A casa é cercada por um bosque, evidenciado nas decisões arquitetônicas do profissional. Fotos: Alessandra Okazaki/Divulgação

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Casa Vertical, em Curitiba. Projeto de Marcos Bertoldi com linguagem plástica que priorizou a volumetria dos blocos de concreto armado misturados à leveza do vidro. Completam a proposta, uma coleção vasta de obras de arte e peças de design brasileiro e mundial. Fotos: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

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Serviço | Slomp & Busarello, fone (41) 3253-1334. Marcos Bertoldi, fone (41) 3223-4522. FGMF Arquitetos, fone (11) 3032-2826. Metro Arquitetos Associados, fone (11) 3255-1221.

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