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Um dos grandes nomes do urbanismo brasileiro e mundial, o arquiteto Jaime Lerner faleceu nesta quinta-feira (27), aos 83 anos, vítima de uma complicação renal. O corpo do ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná será velado a partir das 10h30 no Cemitério Israelita do Água Verde. O sepultamento está previsto para as 15h desta quinta no Cemitério Israelita do Santa Cândida.

À frente da revolução urbana que levou o nome da capital paranaense para os quatros cantos do mundo a partir dos anos 1970, Lerner foi o responsável pelo fechamento da Rua XV de Novembro, criou os parques urbanos que deram a cara da Curitiba moderna e o sistema de transporte por canaletas exclusivas (o BRT), copiado em mais de 250 cidades.

| Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

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Tais fatos, inclusive, fizeram com que seu nome fosse reverenciado e requisitado por onde passasse (são muitas as cidades que contam com projetos assinados por Lerner) e figurasse como o do segundo maior urbanista do mundo, de acordo com a revista norte-americana de planejamento urbano Planetizen, que em 2018 listou os 100 profissionais do setor mais influentes de todos os tempos - sendo Lerner o único brasileiro.

A publicação não foi a primeira a exaltar o trabalho realizado pelo ex-prefeito e ex-governador que, afastado da vida política há mais de uma década, teve na capital paranaense seu maior legado. Anos antes a revista "Time" já havia destacado Jaime Lerner entre os 25 pensadores mais influentes do mundo. “[Curitiba] É uma resposta para uma pergunta que de outra forma seria hipotética: como as cidades seriam se urbanistas, e não políticos, estivessem no poder?”, completou o “The New York Times”, em 2007.

O urbanista 

Filho de imigrantes judaico-poloneses e graduado em Arquitetura e Engenharia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lerner conheceu na academia muitos dos profissionais que estiveram ao seu lado na estruturação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), em 1965, e que trabalharam ao seu lado nas soluções urbanas e de transporte que colocaram Curitiba no mapa. Estão nesta lista figuras como Lubomir Ficinski Dunin (falecido em 2017), Domingos Bongestabs, Abrão Assad e Osvaldo Navaro.

Jaime Lerner
Jaime Lerner em encontro com a reportagem de HAUS, na ocasião da celebração de seus 80 anos, em 2017.| Albari Rosa/ Arquivo/ Gazeta do Povo

No início dos anos 1970, a indicação do seu nome à prefeitura deu ao arquiteto a oportunidade de colocar todas elas em prática. E para os críticos de plantão, a resposta vinha em tom de bom humor, como quando colocou as crianças para pintarem no calçadão recém-inaugurado na Rua XV de Novembro e assim conteve o protesto de um clube de automóveis que era contrário ao fechamento da via para os veículos.

Foi assim também com as canaletas para a circulação exclusiva dos ônibus ‘expressos’, que trouxeram para a superfície o conceito do metrô, modal tido como “caro” na avaliação do urbanista.

A segunda revolução 

Nos anos 1990, os olhos de Lerner se voltaram ao meio ambiente e à sustentabilidade, tão em voga nos dias atuais, em um movimento que muitos podem avaliar como de vanguarda. Em sua terceira gestão como prefeito de Curitiba, ele ensinou a cidade a separar o lixo orgânico do reciclável ao criar o programa “Lixo que não é lixo”, e fez da Família Folha a cara da então “Capital Ecológica”.

Lerner e suas eternas tarturagas, animal que simbolizava o que o urbanista acreditava ser o ideal para uma cidade: trabalho, moradia e lazer localizados perto um dos dos outros.
Lerner e suas eternas tarturagas, animal que simbolizava o que o urbanista acreditava ser o ideal para uma cidade: trabalho, moradia e lazer localizados perto um dos dos outros. | Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

São desta época, também, parques como a Ópera de Arame, o Jardim Botânico e a Rua 24 Horas que, erguidos em metal e vidro, inauguraram uma nova linguagem arquitetônica para a cidade e até hoje mantêm sua soberania quando se fala dos cartões-postais curitibanos.

“[Esta linguagem foi uma] boa coincidência. Estas eram obras que precisavam ser construídas rapidamente, e o material metálico foi o escolhido pela agilidade [que proporciona]. Elas estão incluídas na escola da boa arquitetura, que é a arquitetura simples, marcante e rápida em sua execução”, detalhou Lerner em entrevista à HAUS, em 2017.

Para o arquiteto e urbanista, como gostava de ser reconhecido e lembrado, e que trabalhou até os últimos dias em seu escritório, localizado no Cabral, faltou apenas uma coisa: “mais vida”, como Lerner mesmo destacou em seu último encontro presencial com a reportagem de HAUS, em dezembro daquele ano, quando celebrou seu 80º aniversário.

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