Morre Mário de Mari, o engenheiro que ajudou a verticalizar Curitiba

A ousadia em empregar materiais simples de maneira inusitada era uma das características do profissional, que fez de sua casa um dos ícones arquitetônicos da cidade

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

por Sharon Abdalla

27/03/2019

compartilhe

Faleceu nesta quarta-feira (27), aos 96 anos, o engenheiro Mário de Mari, autor do projeto da “casa flutuante”, ícone arquitetônico do Alto da XV tombado pelo patrimônio municipal, ex-presidente do Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) e um dos construtores que ajudou a criar a Curitiba dos grandes arranha-céus.

Foto: Ivonaldo Alexandre/Arquivo/Gazeta do Povo

O velório será realizado no Campus da Indústria da Fiep e tem início previsto para as 17h desta quarta-feira. O enterro está marcado para esta quinta-feira (28), às 11 horas, no Cemitério Municipal de Curitiba.

“Ele era uma pessoa extremamente atuante e muito importante para a história da arquitetura de Curitiba propriamente dita. Além de um profissional de renome, também era uma pessoa muito doce”, lembra Elizabeth Amorim de Castro, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC) ao lamentar a morte de Mário de Mari.

“Grande empreendedor curitibano, do Paraná e do Brasil, [ele] nos deixa não apenas um legado de trabalho nos setores público e privado, como também a sua marca na cidade em que nasceu. Um dos pioneiros dos departamentos de Urbanismo e Pavimentação da Prefeitura de Curitiba, Mário de Mari participou ativamente, depois na área privada, do processo de linearização da cidade visível nos prédios mais altos dos corredores estruturais. Um líder nato que contribuiu muito na formação de novos talentos e na consolidação do Sistema Fiep como um dos melhores do país. Foi um grande exemplo e uma grande referência que já faz parte da nossa história”, acrescenta Luiz Fernando Jamur, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc).

Um ícone

Formado em 1946 pela Universidade Federal do Paraná, na época sob o nome de Universidade do Paraná, Mário de Mari presidiu por mais de 40 anos a construtora Técnica de Mari S.A., responsável por empreendimentos em todo o Brasil e por contribuir com a verticalização de Curitiba. São da Técnica e Industrial de Mari Ltda., por exemplo, os edifícios Jeanine, Comendador, Eldorado e Brasílio de Araújo, construídos entre 1950 e 1960, para citar algumas das edificações verticais que perpetuam o nome do engenheiro pela cidade.

>>> “É urgente nos reconectarmos à cidade”, defende um dos criadores da Curitiba moderna

Uma de suas obras mais conhecidas, no entanto, é uma construção de pavimento térreo localizado no Alto da XV. Batizada Mário de Mari, mas mais conhecida como ‘casa flutuante’, a residência foi construída em meados dos anos 1960 para a família do engenheiro, após uma de suas incontáveis viagens aos Estados Unidos.

“Eu me encantei pela Casa da Cascata [desenhada pelo expoente modernista Frank Lloyd Wright (1867-1959)]. E decidi que queria uma casa na mesma linha, com materiais naturais e simples”, explicou De Mari à reportagem de HAUS em setembro de 2015.

Casa Mário de Mari. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O engenheiro não só atingiu seu objetivo como fez do imóvel um dos ícones arquitetônicos da cidade e o primeiro tombado pelo patrimônio municipal dentro da nova fase do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba, há cerca de um ano.

“Este imóvel tem uma qualidade plástica, construtiva, ambiental e paisagística que é o registro de um período em que se produziu muita arquitetura de qualidade em Curitiba”, destacou à época da decisão a arquiteta Maria da Graça Rodrigues Santos, doutora em Estruturas Ambientais Urbanas pela Universidade de São Paulo (USP) e relatora do processo de tombamento.

Entre tais qualidades destacam-se a planta em forma de U, que faz com que todos os ambientes estejam voltados ao pátio central, os beirais avantajados (de 2m) e sua implantação que, ao aproveitar o desnível natural do terreno, faz com que a casa pareça flutuar.

“A casa é onde atualmente funciona a sede do CAU/PR [Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná], um exemplar modernista que é referência em Curitiba. Mário de Mari morou nesta casa e, além do projeto, foi o responsável pela execução da obra. Lamentamos muito a morte deste reconhecido profissional e prestamos as nossas condolências à família, especialmente à esposa dele, Maria Helena De Mari”, disse por meio de nota a presidente do conselho, Margareth Menezes.

LEIA TAMBÉM

Casa “flutuante” do Alto da XV é tombada pelo patrimônio municipal

Receba nossas notícias por e-mail

Inscreva-se em nossas newsletters e leia em
seu e-mail os conteúdos de que você mais
gosta. É fácil e grátis.

Quero receber

8 recomendações para você