Um mês após incêndio, Museu Nacional recebe obras emergenciais e pleiteia orçamento de até R$ 100 milhões

Após tragédia que destruiu boa parte do edifício e quase a integralidade do acervo da instituição, direção trabalha para abrir museu já nos próximos três anos

O que sobrou do prédio do Museu Nacional após o incêndio. Foto: Mauro Pimentel/AFP

por Sharon Abdalla*

02/10/2018

compartilhe

Há um mês, o Brasil perdia um de seus patrimônios mais antigos e representativos. Destruído por um incêndio que apagou mais de 200 anos da história arquitetônica do Paço de São Cristóvão, edifício que serviu de residência da família real, e reduziu a pó milhares de itens do seu acervo (muitos dos quais únicos no mundo), o Museu Nacional tenta se reerguer após a tragédia.

Diversas instituições têm se manifestado e iniciativas sido realizadas neste sentido, mas o início das obras emergenciais para contenção, limpeza e proteção da estrutura remanescente no último dia 21 de setembro é, sem dúvida, uma das mais emblemáticas neste sentido – até mesmo pela agilidade com que foi realizada, diferentemente do que ocorreu com outras edificações históricas que já passaram por sinistros pelo país.

Pesquisadores e técnicos “abraçam” o Museu Nacional para marcar um mês da tragédia. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Contratada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para executar esta primeira etapa das obras de reconstrução do museu após seleção pública, possível a partir da liberação de R$ 8,9 milhões pelo Ministério da Educação (MEC), a Concrejato Engenharia trabalha no local desde aquela data e conta que os trabalhos devem ser concluídos dentro de seis meses, conforme prevê a legislação.

>>> Após incêndio, prefeitura licita restauro do Belvedere; obras devem começar ainda em 2018

“Será um trabalho muito criterioso e atuaremos em conjunto com a equipe de arqueologia da UFRJ e com a Polícia Federal [PF]. Antes de serem retirados do local, todos os materiais obrigatoriamente passarão por uma inspeção prévia dos arqueólogos para se ter a certeza do que é possível ou não resgatar. Paredes ruídas, telhas, elementos expositivos e outros materiais serão submetidos a análises acerca da sua importância e valor histórico”, destaca em entrevista exclusiva a HAUS Maria Aparecida Soukef Nasser, diretora de Operações da Concrejato Engenharia, empresa que também é a responsável pelas obras emergenciais, de restauro e reconstrução do Museu da Língua Portuguesa (MLP), em São Paulo, que teve sua estrutura destruída por um incêndio, em 2015.

A obra

Além da limpeza do local, estão previstas para esta primeira etapa a proteção e o escoramento da estrutura remanescente e a instalação de uma cobertura provisória (com estrutura e telhas metálicas)  com fixação independente em relação ao remanescente do Museu Nacional.

Fogo destruiu o acervo e as estruturas internas do museu. Foto: Mauro Pimentel/AFP

“Os elementos da edificação serão separados e catalogados, de forma a possibilitar o resgate futuro da volumetria e dos elementos decorativos. Essa primeira etapa da obra é fundamental para viabilizar os estudos técnicos no local voltados à reconstrução do museu, e os critérios que serão adotados para os projetos”, avalia a diretora de Operações.

>>> Por que a UFRJ recusou R$ 300 milhões para reforma do Museu Nacional

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, o Paço de São Cristóvão foi construído no início do século 19 pelo comerciante luso-libanês Elie Antun Lubbus (Elias Antônio Lopes, nome aportuguesado) e, em 1º de janeiro de 1809, passou a ser a residência oficial de D. João.

Erguido em arquitetura eclética, contava com três pavimentos e área útil de 13,6 mil m², que contemplava 122 salas. Cerca de 80% desta estrutura foi destruída pelo fogo, como avaliou à reportagem de HAUS o engenheiro Luís André Moreira Alves, coordenador técnico da Defesa Civil do município do Rio de Janeiro, que vistoriou o imóvel na manhã seguinte à da data do incêndio.

Reconstrução

Logo após a tragédia, a vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo, chegou a estimar em R$ 15 milhões o orçamento necessário para a reconstrução da edificação. Agora, no entanto, a direção do museu trabalha para incluir no Orçamento da União de 2019 uma previsão de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões para dar início à reconstrução do Paço de São Cristóvão.

Em entrevista coletiva na manhã desta terça-feira (2), o diretor do museu, Alexander Kellner, disse que os recursos seriam o primeiro passo para que o museu possa ser reaberto em no mínimo três anos. Em entrevista ao “O Globo”, ele acrescentou ainda que a fachada e a parte externa do Museu Nacional serão mantidos na reconstrução, mas que o interior do prédio será outro, baseado em materiais com baixa emissão de carbono, que demandem menos energia e “sejam mais amigáveis ao meio ambiente”.

Tal orçamento, no entanto, refere-se somente a parte estrutural da edificação, uma vez que as peças do acervo perdidas no incêndio dificilmente poderão ser recuperadas ou repostas.

Reconstrução não é descartada e UFRJ trabalha para conseguir os recursos para executá-la. Foto: Alexandre Macieira/Riotur

>>> Construção de grande castelo medieval se destaca em área rural do interior do PR

Para apoiar o Brasil neste sentido, o governo de Portugal manifestou intenção de realizar um levantamento do acervo disponível no país que possa, no futuro, ser transferidos para o Museu Nacional. O anúncio foi realizado por Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura de Portugal, durante reunião com o ministro da Educação, Rossieli Soares, no último dia 14 de setembro, conforme nota divulgada pelo Ministério da Educação (MEC).

Ainda segundo a pasta, na ocasião a diretora-geral do Patrimônio Cultural de Portugal, Paula Araújo da Silva, comentou que já vinha mantendo contato com a direção do Iphan para alinhamento de ações conjuntas entre os dois países.

Procurado pela reportagem, o Iphan confirmou por meio de nota que, desde 2017, “firmou acordo de cooperação bilateral com a Direção-Geral do Património Cultural de Portugal, com o propósito de promover o intercâmbio de especialistas e desenvolver projetos de promoção da herança cultural comum entre os países”. O texto destaca, no entanto, que até o momento a instituição não recebeu nenhum contato do governo de Portugal para tratar especificamente sobre a reconstrução do Museu Nacional.

*Com Agência Brasil

LEIA TAMBÉM

Receba nossas notícias por e-mail

Inscreva-se em nossas newsletters e leia em
seu e-mail os conteúdos de que você mais
gosta. É fácil e grátis.

Quero receber

8 recomendações para você