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Revelação mundial e o principal nome da arquitetura africana, Diébédo Francis Kéré deu uma palestra neste domingo (18) na UIA2021RIO.
Revelação mundial e o principal nome da arquitetura africana, Diébédo Francis Kéré deu uma palestra neste domingo (18) na UIA2021RIO.| Foto: Lars Borges

Uma das principais vozes da arquitetura do continente africano, Diébédo Francis Kéré, 56 anos, natural da minúscula Burkina Faso, tem recebido cada vez mais atenção do mundo por seus projetos neovernaculares (que utilizam materiais e técnicas do próprio local e suas comunidades), sustentáveis, inventivos e de uma estética contemporânea que não abandona a ética, como frisa a arquiteta Elisabete França. Ela conduziu o papo com o arquiteto africano na tarde deste domingo (18) durante a UIA2021RIO (27º Congresso Mundial de Arquitetos), que segue até a próxima quinta-feira (22).

Kéré é formado pela Universidade Técnica de Berlim e desde 2005 tem seu próprio escritório e fundação na cidade alemã, o Kéré Architecture. Tem projetos na África, na Europa e até nos Estados Unidos e na China, e recebeu prêmios importantes, como o Aga Khan Award for Architecture, em 2004, e o Global Holcim Award, de 2012. Em 2017 fez trabalhos com a lendária Serpentine Gallery, de Londres.

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Detalhe da Assembleia Nacional de Benin, projetada por Kéré, com especial destaque para a área de permanência pública criada pelo desenho do edifício.| Kéré Architecture

Na palestra para a UIA2021RIO o arquiteto apresentou os principais projetos de sua carreira, com destaque para a Escola Primária de Gando, a Lucée Schorge e o Burkina Institute of Technology, todos em Burkina Faso; o Startup Lions Campus, no Quênia; a Assembleia Nacional de Benin, em Benin; e o Tippet Rise Art Centre, nos Estados Unidos.

Em comum, sua forma de ouvir e incluir as comunidades no processo de projetar, e soluções inteligentes de ventilação, utilizando primariamente madeira, pedras, argila, palha e adobe (tijolos de barro com outros componentes). "Tudo é possível. Basta você saber usar suas habilidades para servir sua comunidade", ensina para os jovens arquitetos no início de sua fala.

Sala de aula do Lycee Schorge, criado por Kéré, com técnicas e materiais locais, em Burkina Faso.
Sala de aula do Lycee Schorge, criado por Kéré, com técnicas e materiais locais, em Burkina Faso.| Kéré Architecture

Por adotar uma arquitetura vernacular, o arquiteto africano concebe edifícios que exigem pouca manutenção e que se inserem na paisagem de forma quase natural. Em algumas escolas de Burkina Faso, por exemplo, o calor que chega a 60 graus centígrados chega a rachar canos de PVC. Isso levou Kéré a adotar torres de vento, com vasos de cerâmica com água em pontos estratégicos para conseguir baixar a temperatura do local em 30 graus.

No continente africano, em particular, o arquiteto vê seus projetos como uma oportunidade de empoderar as comunidades, treinando os jovens com diferentes técnicas, ensinando um ofício e criando o senso de pertencimento de toda a vila para cada construção levantada.

Detalhe das mesas e cadeiras criadas com materiais da região, e dos bancos de madeira que surgem das janelas.
Detalhe das mesas e cadeiras criadas com materiais da região, e dos bancos de madeira que surgem das janelas.| Kéré Architecture

"Você ganha a comunidade se você explicar cada parte do processo", ensina Kéré. "Porque saiba que a sua construção vai afetar todo mundo, o usuário, o vizinho, então é melhor envolver eles. Elas se sentem orgulhosas. Inclusive nos Estados Unidos é assim. A comunidade se torna parte do projeto."

Dessa forma, cria-se uma relação de confiança. Além disso, Kéré diz que a execução dos projetos se torna uma parte alegre, com toda a comunidade envolvida e todos ajudando no canteiro de obras.

Detalhe do pavilhão Xilema, em Montana, nos Estados Unidos, projetado por Francis Kéré.
Detalhe do pavilhão Xilema, em Montana, nos Estados Unidos, projetado por Francis Kéré.| Iwan Baan

Por sempre tentar fazer diferente, apesar de seguir sempre as mesmas diretrizes, Kéré gosta de experimentar. Para uma escola em Burkina Faso, ele testou concreto misturado com barro. Funcionou e criou tijolos com volumes mais homogêneos. Para um edifício comunitário no meio do Quênia, onde os turistas não chegam e o calor é absurdamente alto, o arquiteto optou por paredes de pedras cobertas por gesso, o que, junto com torres de vento, resolveu o conforto térmico e impediu que os espaços ficassem quentes demais.

Francis Kéré é um dos principais arquitetos da nova geração.
Francis Kéré é um dos principais arquitetos da nova geração.| Erik-Jan Ouwerkerk

Nos Estados Unidos, para o pavilhão Xilema, em Montana, para uso da comunidade, Kéré concebeu um espaço todo em madeira, a partir de uma engenharia bem inteligente, com pé-direito baixo para relaxar as pessoas e receber concertos de música.

Detalhe estrutural do pavilhão nos Estados Unidos, que explora ao mesmo tempo formas orgânicas e geométricas da madeira.
Detalhe estrutural do pavilhão nos Estados Unidos, que explora ao mesmo tempo formas orgânicas e geométricas da madeira.| Iwan Baan

Kéré conclui pedindo para que os arquitetos valorizem suas culturas e não copiem soluções prontas de outros países. E chama atenção para as mudanças climáticas. "É a questão mais urgente hoje. Mesmo as pessoas negligenciando isso, os recursos estão ficando mais limitados. Isso é um fato. E a construção é o lugar em que mais se gastar recursos, com uma pegada de carbono altíssima", alerta.

"Então a questão que temos que resolver é como construir sem destruir o meio ambiente. Olhe a Alemanha agora, por exemplo. Muitas pessoas estão morrendo por causa das chuvas. Não é fácil falar disso, mas precisamos enfrentar."

Visão externa do Lycee Schorge, em Burkina Faso.
Visão externa do Lycee Schorge, em Burkina Faso.| Iwan Baan

O UIA2021RIO segue até a próxima quinta-feira (22) em formato 100% digital. As inscrições estão abertas. Mais informações podem ser obtidas no site oficial do evento. A palestra de Kéré pode ser revista por quem já está inscrito na plataforma.

Veja mais fotos dos projetos citados por Kéré:

Pavilhão em Montana, nos EUA.
Pavilhão em Montana, nos EUA.| Iwan Baan
Estudantes na sombra da escola do Lycee Schorge, em Burkina Faso.
Estudantes na sombra da escola do Lycee Schorge, em Burkina Faso.| Kéré Architecture
Detalhe da varanda pública criada pela curvatura do prédio da Assembleia Nacional de Benin.
Detalhe da varanda pública criada pela curvatura do prédio da Assembleia Nacional de Benin.| Kéré Architecture
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