Como a arquitetura pode diminuir a solidão e a violência nas cidades

Especialista em biomimética, o arquiteto croata residente no Brasil Marko Brajovic reflete sobre a relação com o espaço e o poder da arquitetura para diminuir a violência

Foto: Rodrigo Mathias/Divulgação

Foto: Rodrigo Mathias/Divulgação

por Mariana Domakoski*

16/02/2017

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Nascido na Croácia, o arquiteto Marko Brajovic reside há dez anos no Brasil e está à frente do Atelier Marko Brajovic, em São Paulo. Especialista em biomimética, desenvolve projetos inspirados pelos parâmetros da natureza, com foco na interação entre as pessoas e delas com o espaço ao redor. Ícone na arquitetura, cenografia, design de interiores e de produto, tem um estilo híbrido de criação, e já assinou exposições como as de David Bowie e Stanley Kubrick em São Paulo, além do pavilhão do Brasil na Expo Milano, em Milão, com o Studio Arthur Casas.

Sua cartela de clientes é variada: Nike, Google, Visa e Camper são alguns que fazem parte dela. E seus projetos estão presentes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Barcelona, Hong Kong, Melbourne e Dubai. A HAUS conversou com Brajovic depois de sua palestra sobre alguns de seus projetos durante o “New Concept Design – Criatividade para o Mundo”, seminário realizado  pelo Núcleo Paranaense de Decoração.

Como a biomimética (processo de criação inspirado pelos parâmetros da natureza) entrou na sua vida?
Quando estava em Barcelona fazendo uma pós-graduação em artes digitais, um cliente pediu para que fizéssemos uma casa na Costa Rica a partir de uma peça musical. Nessa época, eu trabalhava com um software paramétrico que permitia gerar formas a partir da música. Para produzir essa casa, eu precisava encontrar um material local. Foi aí que conheci o bambu e me apaixonei. A partir dali os mundos digital e natural começaram a caminhar em paralelo para mim. Ao voltar para Barcelona, busquei uma esfera da pesquisa em que o mundo da tecnologia se encontrasse com o da natureza. Achei um mestrado em arquitetura genética, que, a partir da natureza, pesquisava parâmetros a serem usados na construção de estruturas e formas. Uma das aulas mais importantes era sobre biomimética. E ali comecei a estudar a fundo. Para mim, a natureza é o maior designer e a maior inspiração tecnológica.

Brajovic assinou o pavilhão do Brasil na Expo Milão de 2015. Foto: Divulgação

Brajovic assinou o pavilhão do Brasil na Expo Milão de 2015. Foto: Divulgação

Você acredita que a biomimética ajuda na aproximação entre as pessoas e o espaço?
Sim. Claro que ela pode ser aplicada de formas muito mais sofisticadas, mas, no fim das contas, a biomimética tenta entender a biologia, o funcionamento da vida e aplicar isso no dia a dia. Não somente na arquitetura, mas também na economia, no uso de energia, na sua empresa, na forma como você se relaciona, otimiza seus recursos e seus gastos etc. O fato de ver a natureza como mentora, medida e mestre fundamental, sensibiliza totalmente as pessoas.

No seu trabalho, você prima pela interação entre as pessoas e delas com o ambiente. Você acredita que a arquitetura poderia ajudar a diminuir a solidão das pessoas e a violência?
Totalmente. Porque a arquitetura também cria muita violência, constrói paredes, divide as pessoas, segrega. A arquitetura tem um papel fundamental na dinâmica social. É um dos papéis mais importantes, porque trata da espacialidade. Ela pode ser uma grande facilitadora na questão da inclusão, do uso do espaço público, da relação com os rios e a água.

A exposição sobre Stanley Kubrick em São Paulo, em 2013 e 2014, teve concepção de Brajovic. Foto: Divulgação

A exposição sobre Stanley Kubrick em São Paulo, em 2013 e 2014, teve concepção de Brajovic. Foto: Divulgação

De que forma ela pode ajudar?
A arquitetura e os profissionais podem ajudar ao pensar de dentro para fora. Focar no pequeno cotidiano e transformar isso em um projeto, em vez de pensar em grandes concepções de arquitetura – que é o que geralmente as universidades apresentam. Elas ainda não ensinam a fazer essas miniações, de dentro para fora, que têm poder de contaminar o vizinho de forma positiva. É desta forma que São Paulo está mudando, por exemplo. O arquiteto deve ter a humildade, a inteligência e a sensibilidade de sentir e observar a cidade contemporânea e ir solucionando problemas e inspirando as pessoas no dia a dia.

E como você acha que as pessoas em geral podem contribuir? Que conselhos você daria?
Aproprie-se da cidade. Ela é sua. Você tem essa liberdade e responsabilidade. O maior problema é que as pessoas não consideram a cidade como sendo delas. Ao domesticá-la mentalmente, ao considerar que ela é a extensão da sua sala, você começa a respeitá-la mais. Cada um de nós pode cuidar do espaço público e também da própria calçada, pode plantar a própria árvore, ter a própria horta, andar de bicicleta. Desta forma, a cidade gera uma interface entre nós e as outras pessoas.

Instalação da Docol na ExpoRevestir, em São Paulo. Foto: Gui Morelli/Divulgação

Instalação da Docol na ExpoRevestir, em São Paulo.
Foto: Gui Morelli/Divulgação

Como você acha que está a questão da sustentabilidade no Brasil?
É curioso: temos aqui uma das maiores biodiversidades do mundo e não cuidamos dela. Mas também há uma consciência muito forte da nova geração sobre esse problema. Eu sou muito otimista nesse sentido. Está nascendo uma compreensão do entorno natural, da importância da natureza como grande mestre, como grande amiga. E de nós como parte dela, e não como seres superiores a ela. A arquitetura já sente isso: os projetos já não querem se impor ao entorno, já há uma relação mais sutil e delicada, de proximidade e permeabilidade. Há uma grande mudança de paradigma acontecendo.

O Brasil mudou a sua percepção da arquitetura? Como?
O Brasil mudou drasticamente a minha visão da arquitetura. Principalmente pela relação com a natureza que existe aqui. Poder viajar pela Amazônia, pela Mata Atlântica, e poder sentir a natureza próxima me inspira muito. Tanto os organismos quanto os fenômenos naturais. Aqui no Brasil essa proximidade começou a contaminar a minha visão. Além disso, as pessoas também mudaram a minha percepção. Elas são outro fator fundamental para eu ainda estar aqui. Há uma geração que tem energia para transformar o país. Isso me encanta e inspira muito.

Cenografia da exposição “David Bowie”, em 2014, em São Paulo. Foto: Museu da Imagem e do Som/Divulgação

Cenografia da exposição “David Bowie”, em 2014, em São Paulo. Foto: Museu da Imagem e do Som/Divulgação

* especial para a HAUS

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