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Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação| Foto:

Os olhos do Brasil (e porque não dizer, do mundo) estão voltados para o polo sul, onde foi inaugurada (às 20h30, no horário de Brasília) do último dia 15 a nova base brasileira na Antártida. E o interesse vai além das questões científicas e diplomáticas relacionadas ao evento – importantíssimas, é fato -, chegando também ao projeto do local que será a nova casa de pesquisadores e oficiais da Marinha após o incêndio que destruiu as instalações da Estação Comandante Ferraz, ocorrido em 2012.

Com projeto assinado pelo escritório de arquitetura curitibano Estúdio 41, vencedor do concurso organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em 2013, ainda no governo Dilma Rousseff, a instalação faz da estação uma das mais avançadas do continente entre as 29 mantidas no local, trazendo soluções, materiais e conceitos que poderão inspirar a atualização ou construção de novas bases no continente gelado.

“Brincávamos que éramos um escritório virtual, só com renderes. Agora, teremos nosso primeiro projeto executado, que é o da Antártida”, lembra Martin Kaufer Goic, que assina o projeto juntamente com os sócios Emerson Vidigal, Eron Costin, Fabio Henrique Faria e João Gabriel Rosa. Eles que, inclusive, visitaram o continente e a estação pela primeira vez no último mês de novembro, a bordo do navio da Marinha brasileira e enfrentando a turbulenta passagem de Drake, situada entre a extremidade da América do Sul e a Antártica, no encontro dos oceanos Atlântico e Pacífico, considerada a zona com as piores condições meteorológicas marítimas do mundo.

Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação

“Aventura é uma forma gentil de colocar”, brinca João ao destacar o mal estar que as ondas de cerca de 8 m que atingiam a embarcação causavam aos marinheiros e tripulantes, e que fez com que alguns deles precisassem passar o dia todo deitados ou de atendimento médico. “É quase como passar dois dias dentro de uma máquina de lavar, sendo lançado para os lados”, brinca Eron. “Mas você é a todo tempo recompensado pela paisagem”, acrescenta João.

O projeto

Pensar em um projeto para ser construído em condições inóspitas e completamente desconhecidas poderia ser considerado uma loucura ou uma oportunidade para se desafiar a ir além. E foi este segundo caminho o escolhido pelos arquitetos do Estúdio 41, que tiveram no projeto da nova Estação Comandante Ferraz o segundo desenvolvido dentro da formação atual do escritório. O primeiro deles foi outro vencedor de concurso, o do prédio da Fecomércio em Porto Alegre, em 2011, que inclusive motivou a união dos sócios (o complexo segue em obras).

“Foi uma grande surpresa o resultado do concurso para a estação. Não que achássemos que não [teríamos chances] de ganhar, do contrário nem nos inscreveríamos, mas havia muitos escritórios estrangeiros, alguns que já tinham projetado outras estações, competindo. E, como escritório jovem, era mais difícil percebermos até onde poderíamos chegar”, lembra Emerson.

Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação

O destino, então, foi a Antártida, com um projeto desenvolvido em tempo recorde, cerca de cinco meses, se considerado o ineditismo da proposta, e implantação na área que coincide com a da antiga estação, destruída pelo fogo.

A opção pelos dois volumes da construção, por sua vez, foi uma solução para que a área de 5 mil m² não ultrapassasse o limite relacionado às restrições ambientes destacadas pelo edital. “Buscamos resolver um problema complexo com soluções o mais simples possível. O edifício repete uma seção construtiva [modular] constante em sua maior parte como uma forma de descomplicar o formato para focar nas demais [questões a serem resolvidas]”, conta Eron. Entre elas estavam, por exemplo, uma estrutura capaz de resistir estrutural e termicamente a rajadas de vento que passam facilmente dos 100 Km/h, à alta salinidade e à variação térmica da região, com temperaturas que ultrapassam os 50°C negativos.

Nova base de pesquisa do Brasil na Antártida é inaugurada com projeto de escritório curitibano

A divisão do programa linearmente possibilitou ainda que os módulos tivessem largura que permitisse o transporte deles em navio e a implantação em dois níveis de altura. Desta forma, todos os ambientes dispõem de janelas com vista para o exterior, o que promove conforto psicológico aos pesquisadores e marinheiros que passam temporadas na estação.

Soluções e materiais

Como é de se imaginar, as soluções e materiais utilizados na construção da estação diferem das utilizadas em edifícios comuns. Assim, para compreender as características do local e especificar os mais eficientes para garantir a segurança, conforto e eficiência da edificação, os arquitetos do Estúdio 41 contaram com a participação de consultores especializados e informações compartilhadas por pesquisadores, empresas e integrantes da Marinha que conheciam a área ou regiões com características climáticas extremas, assim como os materiais capazes de resistir a elas. Isso fez com que portugueses, argentinos, chilenos, italianos, espanhóis, alemães e canadenses contribuíssem, direta ou indiretamente, com a proposta.

A envoltória dos módulos (fachada, cobertura e parte inferior), por exemplo, é feita a partir de um painel sanduíche de poliuretano, material isolante térmico comumente utilizado pela indústria frigorífica. “A espessura dele, no entanto, foi feita sob medida, superior a utilizada pelo mercado. A composição do aço também é específica, para que resista à salinidade altíssima do local. Com exceção da envoltória, todos os demais são materiais de mercado, mas não do mercado brasileiro. Fomos atrás de materiais disponíveis, e não desenvolvidos para o projeto, para que tivéssemos segurança técnica para especificá-los“, destaca João.

Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação

As esquadrias foram outro ponto que receberam destaque no projeto. Para que se garantisse a eficiência térmica a partir da redução das trocas de calor entre os ambientes interno e externo pelas aberturas, elas são compostas por uma camada quíntupla de vidro: duas internas e três externas, entre as quais há, ainda, uma camada de ar (excelente isolante térmico).

A montagem da estação foi toda realizada em solo Antártico a partir da conexão dos módulos pré-fabricados, que já traziam revestimentos, esquadrias, pontos hidráulicos e elétricos instalados, recebendo apenas ajustes de acabamentos. Assim, os 5 mil m² da construção foram capazes de comportar os 17 laboratórios da estação brasileira, alojamentos, áreas técnicas, cozinha e espaços sociais – como biblioteca, academia, sala de vídeo e área para refeições -, além de uma ala médica, um depósito de alimentos e da garagem. Nela, além dos veículos, estão acondicionados caldeiras, geradores e estação para incineração do lixo orgânico e separação, compactação e depósito do material reciclado (que é enviado de navio para o Brasil, uma vez que não se pode deixar resíduos em solo Antártico).

Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação

Sustentabilidade

Com 70% das reservas de água doce do planeta e devido ao impacto que as alterações em sua composição podem causar ao restante do globo, seria natural imaginar que soluções de sustentabilidade fossem contempladas em um projeto que tem a Antártida como local de implantação. Entre elas estão, por exemplo, fontes eólicas e solares de energia. Uma curiosidade é que lá, ao contrário do que ocorre em outros lugares do globo, as placas são instaladas com uma inclinação de 90° (e não dos habituais 45°) pelo fato de o sol correr no horizonte. A estimativa é a de que, uma vez em operação, as estruturas sejam capazes de gerar 30% da energia necessária às operações da base.

À chaminé do gerador foi enrolada uma serpentina para aquecer a água, uma forma de não desperdiçar a fonte de calor. O mesmo ocorre com a água do banho que, ao escorrer pela tubulação do ralo, também contribui para aquecer a água limpa que sobe para o chuveiro.

Foto: Estúdio 41/Divulgação
Foto: Estúdio 41/Divulgação

“A estação também conta com soluções passivas que reduzem a demanda de energia ou de esforço humano. O formato aerodinâmico dos módulos e o fato de eles não terem contato com o chão fazem com que o vento acelere e circule livre, varrendo a neve para que ela não se acumule [na estrutura, contribuindo para a eficiência térmica do edifício]”, explica Eron. A garagem, único dos blocos que toca o solo, foi pintada com uma tonalidade escura propositalmente. Desta forma, ela aquece ao receber radiação solar e auxilia no derretimento do gelo com o mesmo propósito.

“A estrutura principal dos módulos é feita em aço, material reciclável. Além disso, eles podem ser desmontados e ter seu material reaproveitado em outra obra”, acrescenta Emerson. “Este projeto é sobre isso, sobre até aonde a arquitetura pode nos levar e a gente não sabe, mas descobre”, acrescenta.

Questionados pela reportagem sobre qual seria este próximo passo, os arquitetos dizem estar à disposição dos projetos audaciosos do empreendedor e visionário Elon Musk, sem conter o riso. “Temos um desafio maior, que é o de ter um projeto executado em Curitiba”, provoca Fábio, em uma referência à ausência de concursos de projetos para obras públicas e privadas na cidade, ao contrário do que ocorre em outras regiões do país.

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