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Proposta do escritório curitibano Sabóia + Ruiz para o Centro de Ensino Fundamental Parque do Riacho recebeu o primeiro lugar em concurso da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB-DF) Foto: Reprodução ArchDaily
Proposta do escritório curitibano Sabóia + Ruiz para o Centro de Ensino Fundamental Parque do Riacho recebeu o primeiro lugar em concurso da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB-DF) Foto: Reprodução ArchDaily| Foto:

Há muitas definições do que é arquitetura, pois as coisas simples geralmente são as mais difíceis de explicar. Isso não significa que arquitetura seja uma coisa simples de fazer, mas é algo que todos entendem quando vivenciam um bom edifício. Separar um bom edifício de um mau também não é tarefa simples.

Dessa forma, o mais aconselhável é recorrer a algumas obras do passado ou aos grandes mestres. Sabemos que as sociedades do passado materializaram edificações notáveis, como o Parthenon de Atenas, o Coliseu de Roma, as catedrais góticas, a Cidade Proibida de Pequim, Machu Picchu no Peru, as igrejas barrocas de Minas Gerais, entre tantos outros monumentos espalhados pelo mundo.

Os antigos nos ensinaram que um bom edifício deveria ser construído com materiais apropriados e em um terreno seguro. Seus espaços deveriam ser úteis e condizentes com as funções que ali seriam realizadas. As leis naturais deveriam ser respeitadas, de forma que se buscasse o sol nos dias frios, os ventos nos dias quentes e uma boa iluminação. E ensinaram que os edifícios deveriam ser belos.

Os mestres da arquitetura também buscaram seus conhecimentos no passado, mas sempre se preocuparam em produzir edificações contemporâneas ao seu tempo. Le Corbusier (1887-1965), o grande arquiteto franco-suíço, definiu que a arquitetura, além de ser funcional, bem construída e bela, também deveria nos trazer emoção. Em seu livro “Por uma arquitetura” ele afirmou que a diferença entre a arquitetura e uma mera construção é emoção que a edificação pode proporcionar. Seria algo mais ou menos assim: quando você entra em um edifício e há algo nele, como um jogo de luz sob alguns planos e volumes, e isso faz com que você se emocione, você acabou de experienciar uma obra arquitetônica. O mesmo não aconteceria em uma simples construção.

Convento de La Tourette, na França, de Le Corbusier: construção em declive e estrutura em concreto armado aparente e vidro. Fotos: Fernando Schapochnik/ArchDaily
Convento de La Tourette, na França, de Le Corbusier: construção em declive e estrutura em concreto armado aparente e vidro. Fotos: Fernando Schapochnik/ArchDaily

A partir destas definições podemos afirmar que somos carentes de arquitetura. Independentemente da classe social, região ou cidade, nós, brasileiros, conhecemos e experienciamos muito pouco as boas obras arquitetônicas. A grande maioria de nós está condenada a experimentar maus edifícios, que não são funcionais, adequadamente construídos e sequer belos. Essa grande porcentagem da população brasileira nasce, vive e morre em edifícios de má qualidade, que não respeitam questões básicas como uma boa iluminação, ventilação ou insolação.

São muito frios no inverno e quentes demais no verão, são mal construídos, pouco ventilados, escuros, e, sobretudo, não são belos. Esses edifícios não refletem a arquitetura contemporânea que é produzida no Brasil e no restante do mundo. Muitos deles buscam uma relação fantasiosa com elementos do passado, como colunas, frontões, entre outros detalhes decorativos desnecessários. E isso ocorre mesmo existindo bons arquitetos no Brasil, no Paraná e em Curitiba.

Museu Oscar Niemeyer
Museu Oscar Niemeyer| Daniel Castellano/Arquivo/Gazeta do Povo

Há bons exemplos arquitetônicos em nossas cidades, mas que na maioria das vezes se encontram isolados, desconhecidos e até mal compreendidos. Mas como mudar essa realidade? A minha proposta é simples. Primeiro, deveríamos experenciar um maior número de edifícios com boa arquitetura existentes no Brasil e em Curitiba, como a Catedral, o Sesc Paço da Liberdade, o Teatro Guaíra, a Biblioteca Pública do Paraná, o Palácio Iguaçu, o Conjunto da Reitoria da UFPR, o MON, a Capela da PUC, o Memorial de Curitiba, o Edifício 1232, entre outros.

E, se tiver oportunidade, conheça alguma das casas do arquiteto Vilanova Artigas, do Lolô Cornelsen, algum edifício do Elgson Ribeiro Gomes, a atual sede do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (do engenheiro Mário de Mari), ou alguma obra entre tantas outras que foram publicadas em livros ou revistas especializadas no tema.

Dessa forma, será possível ficarmos mais exigentes, questionadores e críticos sobre a arquitetura que é construída todos os dias em Curitiba. Isso, com certeza, iria contribuir para a melhoria da qualidade de vida das nossas ruas, bairros e de toda a cidade.

Fotos: Fernando Schapochnik/ArchDaily
Fotos: Fernando Schapochnik/ArchDaily

O segundo ponto é que deveríamos conhecer e valorizar a produção dos jovens arquitetos e arquitetas brasileiros. Curitiba também contribui muito para essa produção, pois os nossos jovens escritórios vêm há tempos se destacando nos concursos públicos de arquitetura em todo o país. Edifícios como a Estação Antártica Comandante Ferraz, a Sede do Ministério Público Federal e a Fecomércio-RS, em Porto Alegre; o Centro de Ensino Fundamental e a Unidade Básica de Saúde do Parque do Riacho e alguns conjuntos habitacionais e planos urbanísticos no Distrito Federal são de autoria de escritórios curitibanos. Nossos arquitetos também se consagraram como segundo e terceiro colocados em diversos concursos, como a Sede do CAU-BR e a revitalização da Arena de Brasília, mais conhecida como Estádio Mané Garrincha.

"… somos carentes de arquitetura. Independentemente da classe social, região ou cidade, nós, brasileiros, conhecemos e experienciamos muito pouco as boas obras arquitetônicas. A grande maioria de nós está condenada a experimentar maus edifícios, que não são funcionais, adequadamente construídos e sequer belos.”

Por último, o mais importante de todos: exigir de nossos administradores (prefeitos, vereadores, secretários de governo e institutos de pesquisa) que todas as obras sejam contratadas através de concurso público. Os concursos são julgados por uma comissão de especialistas de forma anônima, isenta e transparente, possibilitando escolher o melhor projeto e não contratar o mais barato, como geralmente ocorre em licitações.

Isso evita também subjugar os edifícios construídos com dinheiro público às vontades de um prefeito ou de seus técnicos, sem nenhum diálogo com a população, com as universidades e com qualquer interessado no tema. Acredito que somente assim os nossos edifícios poderão ser funcionais, bem construídos e belos, além de nos trazer emoção.

*Fábio Domingos Batista é arquiteto e urbanista, sócio fundador da Grifo Arquitetura, autor de livros sobre patrimônio cultural e cidade e professor de teoria e história da FAE Centro Universitário.

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