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Mateus e Letícia ganharam uma casa de brincadeiras no quintal para usar durante e depois da pandemia.
Mateus e Letícia ganharam uma casa de brincadeiras no quintal para usar durante e depois da pandemia.| Foto: Arquivo Pessoal

Quando as primeiras orientações de isolamento social começaram a aparecer, em 2020, a tesoureira Hevelin Fernandes e o controller Tiago Machado tinham acabado de se mudar para uma nova casa. A residência era mais ampla e com mais espaço para o filho Mateus (7), e a filha Letícia (1), que, na época, estava para nascer. Casa nova, muitos planos, e um gigantesco botão de pause quando a quarentena começou.

Com as mudanças geradas pela pandemia, as prioridades da família foram reorganizadas e os planos de reformar a casa precisaram se adaptar. O projeto para a ampliação da cozinha foi ajustado duas vezes até chegar à sua versão final. Nessa, Hevelin e Tiago preferiram garantir mais espaço no quintal para as crianças e uma melhor distribuição da área da cozinha e sala para receber amigos e familiares, aliando a isso o conforto essencial para a rotina dos moradores. “Integramos a antiga área da churrasqueira e da lavanderia à cozinha para criar mais espaço, colocar uma ilha e uma despensa, e usamos uma parte do quintal para fazer a churrasqueira. Gostamos de receber pessoas em casa, mas, para isso, precisamos que ela seja aconchegante”, explica ela.

Obra na casa do casal Hevelin e Tiago incluiu abrir espaço na cozinha para uma ilha.
Obra na casa do casal Hevelin e Tiago incluiu abrir espaço na cozinha para uma ilha. | Arquivo Pessoal

O espaço de 170 m² com sala, cozinha, lavabo e churrasqueira, no térreo, e um quarto, uma suíte e ático nos pisos superiores, ganhou mais espaço e alcançou os 200 m². A reforma, assinada pelo arquiteto João Adolfo Cabral Jr., permitiu ampliar o espaço interno sem reduzir tanto o quintal, onde o casal construiu uma casinha de brincadeiras para as crianças.

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Com a remodelação da casa, Tiago e Hevelin entraram para uma estatística interessante: a dos brasileiros que fizeram mudanças significativas na casa durante a pandemia. Segundo levantamento da AGP Pesquisas e da Casa do Construtor, que entrevistou 400 pessoas, 68% delas fizeram algum tipo de reforma nos últimos 12 meses. Delas, 38% o fizeram motivados pela pandemia.

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Antes, as reformas visavam transformar o apartamento inteiro. Agora, buscam trazer mais conforto para cômodos específicos, segundo a arquiteta Marina Carvalho. | Evelyn Müller

Transformações em escala

Boa parte das obras executadas entre 2020 e 2021 seguiram a mesma lógica. Primeiro, foi preciso improvisar. Depois, aceitar que muitas das mudanças que vieram com a pandemia seriam permanentes. Este movimento foi identificado na pesquisa realizada pelo Google, em parceria com a consultoria Consumoteca, para traçar um panorama da casa brasileira durante a pandemia.

A pesquisa cruza os dados de buscas no Google e no YouTube com os resultados de uma imersão em 20 lares que a Consumoteca fez por uma semana, período em que acompanhou a rotina das pessoas em São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza, entrevistando os moradores. O objetivo era entender quais comportamentos adquiridos neste período serão mantidos depois da pandemia e quais são os novos rituais e demandas de consumo na casa dos brasileiros.

O levantamento mostra que cerca de 40% dos entrevistados na pesquisa já compraram itens para renovar ou redecorar, e outros 38% pretendem fazê-lo; 18% reformaram e 13% ainda pretendem reformar. Em 43% dos casos, o motivo é a pandemia e a adaptação da casa para uma nova rotina. A relação com a casa mudou, definitivamente. É o que acreditam 42% dos entrevistados. Além disso, 57% afirmam que a casa seguirá sendo uma prioridade de investimento mesmo depois desta fase.

Outro fator que marcou as obras deste período e que é uma das características do momento atual é a busca por inspiração na televisão e na internet. O Pinterest, o Instagram e os reality shows que mostram antes e depois de reformas com transformações inacreditáveis inspiram a realidade. “Assistimos a tantos programas de arquitetura que até o Mateus, com sete anos, já sabe o que significa uma cozinha com conceito aberto!”, brinca Hevelin.

Redefinindo os cômodos

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Apartamento assinado pela arquiteta Marina Carvalho ilustra a busca por integração, aliada ao conforto e à praticidade na área social. | Evelyn Müller

Mais habitada pela família durante a pandemia, mas também espaço de convívio para os primeiros e tímidos encontros na retomada. A sala volta a ser protagonista nas casas brasileiras e será alvo de investimento e compras futuras de 41% dos entrevistados. Segundo o Google, a busca por sofás confortáveis e móveis modulares cresceu quase 100% em 2020 e segue em alta em 2021.

Para a arquiteta Marina Carvalho, o maior tempo em casa foi o responsável por essa mudança. “As pessoas começaram a observar melhor espaços da casa que antes tinham pouco tempo para prestar atenção e a se incomodar com aspectos que não eram prioritários. Antes, a casa era dormitório, hoje é abrigo e proteção, as pessoas querem ficar mais tempo nela, e este tempo precisa ser de qualidade.”

Conforto sensorial foi palavra-chave para os quartos reformados na pandemia.
Conforto sensorial foi palavra-chave para os quartos reformados na pandemia.

Na cozinha, por sua vez, a palavra de ordem é praticidade, mas ela não está sozinha. Agilidade, sustentabilidade e saúde também a acompanham, gerando um movimento de aumento nas buscas por eletrodomésticos como airfryer, torradeiras e sanduicheiras.

Tudo o que puder facilitar o preparo das refeições na hora de almoço, que agora também inclui o preparo dos alimentos, não apenas o deslocamento até o restaurante. “Fizemos muito mais compras online durante a pandemia, principalmente durante a reforma, e uma das nossas aquisições, a que não abro mão, foi a lava-louças”, exemplifica Tiago.

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Mais conforto na sala, mas também nas áreas externas, como a sacada.| Evelyn Müller

Por outro lado, conforto sensorial é o que dita as mudanças no quarto. Cresceu em 28% o número de pesquisas por termos associados a maciez e fios penteados em itens como fronhas e lençóis, somente em 2021. De 2019 para 2020, essas palavras-chaves tiveram um aumento de 145% nas pesquisas no Google. Itens de organização do espaço também aparecem, com um crescimento de produtos como as camas-baú.

Conforto também vale para a área externa: varandas e quintais passaram a ser itens de luxo na casa brasileira e objeto de desejo para quem vivia em apartamentos fechados e sem sacadas. As buscas por estes itens aumentaram significativamente em 2020 e seguem em ascendência em 2021. Jardim em casa e como cuidar de plantas também entram na lista dos termos mais digitados na barra de pesquisa do Google.

42% dos entrevistados acreditam que a relação com a casa mudou, definitivamente. E 57% deles afirmam que a casa seguirá sendo uma prioridade de investimento mesmo no pós-pandemia.

Home-office não tão “home” assim

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Conforme avançava a pandemia, cresceu a demanda por espaços exclusivos para o escritório em cômodos separados do resto da casa. Na foto, projeto Vila Ipojuca, da arquiteta Marina Carvalho.| Evelyn Müller

Já com relação ao escritório, muita gente percebeu que é preciso proximidade, mas menos integração, para que o espaço de trabalho seja exatamente isso: uma área para o desenvolvimento da atividade profissional, mas que não interfira nos seus momentos pessoais ou de lazer.

A rotina do Tiago e da Hevelin espelha, neste sentido, o levantamento do Google. Num momento inicial, foi improvisado um escritório no ático da casa. Agora, quando a empresa em que atua determinou que o modo remoto será mantido, ele pensa em reformar também essa área. “Antes da pandemia, eu não gostava de fazer home office, mas agora esse modelo funciona porque entendi que a separação é importante. Ter este espaço exclusivo para trabalhar faz com que, quando subo para o ático, esteja na empresa. Quando termino o expediente, desço a escada e estou em casa”, detalha Tiago.

Segundo a arquiteta, essa foi uma das principais demandas dos clientes em seu escritório. “Antes, o escritório podia ficar em qualquer lugar, hoje tem que ser um lugar específico e bem-preparado porque a pessoa vai ficar muito tempo lá. Tive clientes que precisaram trocar de apartamento para ter um cômodo só para isso.”

E, claro, o escritório também precisa ser confortável, o que se reflete no crescimento de 51% nas buscas por mesas ou cadeiras ergonômicas e/ou reguláveis, por exemplo. “A casa tem que ser mais confortável, as pessoas estão passando mais tempo nela, mesmo agora com um pouco mais de liberação, de acesso, com cinemas e restaurantes abertos. Então, é natural a maior preocupação com cadeiras de escritório e poltronas para leitura mais confortáveis”, diz.

Ao que tudo indica, o movimento de passar mais tempo em casa não vai a lugar algum, mesmo com o fim da pandemia.

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