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Porto Alegre já teve um “Museu do Olho”; conheça esta história

  • PorSharon Abdalla
  • 03/06/2019 04:57
Porto Alegre já teve um “Museu do Olho”; conheça esta história
| Foto: Hamilton Bruschz

Formas elípticas, que lembram um olho humano, fechamento em pele de vidro e uso como espaço para exposições. Tais características, que descrevem com perfeição o “olho” do Museu Oscar Niemeyer (MON), um dos principais pontos turísticos de Curitiba, já apareciam muito antes de sua inauguração em uma edificação gaúcha, localizada em Porto Alegre.

Trata-se do Pavilhão de Exposições do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, mais conhecido pelos porto-alegrenses como Mata-Borrão. Datado da década de 1960, o projeto assinado pelo arquiteto Marcos David Heckman foi erguido com objetivo de expor as obras públicas do então governador Leonel Brizola na fase conhecida como “Escolarização”, ou seja, da construção das chamadas “Brizoletas” — escolas construídas em madeira em cidades do interior do Rio Grande do Sul. A alcunha, por sua vez, fazia referência à forma do edifício, que lembrava a do objeto utilizado para absorver o excesso de tinta de textos escritos à pena ou caneta tinteiro, já há muito em desuso.

Foto: Acervo João Alberto/FAU UniRitter
Foto: Acervo João Alberto/FAU UniRitter

“Esta construção era como um olho que flutuava no centro da cidade. Ela foi concebida com o propósito de ter vida curta, pois já se previa sua demolição [ocorrida ainda na década de 1960]”, explica a doutora em Arquitetura Anna Paula Canez, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao justificar o curto período pelo qual o edifício integrou a paisagem urbana da capital gaúcha.

O pavilhão

Este fato, aliado à urgência em erguer a edificação, fez da madeira o material escolhido por Heckman para a construção do prédio, diferentemente do que ocorre com seu primo curitibano, que prioriza o concreto.

Porto Alegre já teve um “Museu do Olho”; conheça esta história
| Hamilton Bruschz

Outra diferença entre o “olho” gaúcho e o assinado por Niemeyer em Curitiba é o fato de o primeiro estar a nível do solo, ancorado em pilares de madeira, enquanto o segundo repousa sobre um alto e robusto pilar, que o eleva em relação às construções vizinhas.

Mesmo construído cerca de quatro décadas mais tarde, não se pode dizer que o “olho” do MON foi inspirado ou faz referência à construção gaúcha. O inverso, porém, é em parte verdadeiro. Em parte porque Heckman, ao projetar o Pavilhão de Exposições do Governo do Rio Grande do Sul, fez alusão às formas de outra obra de Niemeyer, a do auditório que integra o conjunto da Escola Estadual Professor Milton Campos, em Belo Horizonte (MG), e que também remete ao olho humano, como aponta Anna no artigo “Mata-borrão: um grande olho de madeira no centro de Porto Alegre da década de 60”. “É uma referência, mas não uma cópia [da obra de] Niemeyer, pois o material é totalmente diferente”, pontua a doutora.

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A preferência deste, que é tido como um dos mestres da arquitetura brasileira, pelas formas elípticas, por sua vez, deve-se a sua constante busca por linhas mais puras, minimalistas (e um pouco futuristas), como descreve Luís Eduardo Borda, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutor em Artes Plásticas com a tese “O Nexo da forma”, que trata da produção arquitetônica de Oscar Niemeyer.

Foto: Hamilton Bruschz/Arquivo pessoal
Foto: Hamilton Bruschz/Arquivo pessoal| Hamilton Bruschz

“(…) as formas de Niemeyer são definidas frequentemente a partir de uma linha sinuosa, linha que empresta um caráter particular a sua arquitetura. Elemento marcante de sua poética, a curva define volumes que tendem para uma pureza clássica, e também elementos biomórficos, cujo contorno sinuoso, caráter denso e ao mesmo tempo depurado os aproximam, a meu ver, da escultura abstrata”, resume.

Tais características são presentes no “olho” do MON, no auditório mineiro e em outras obras assinadas por Niemeyer e ainda “vivas” pelo Brasil. Do “olho” de Heckman, por sua vez, o que restam são registros fotográficos esparsos e a lembrança de quem conviveu ou visitou a estrutura temporária em uma Porto Alegre de outros tempos.

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