Edificio sede Copel
Sede da Copel, no Batel é um dos representantes da arquitetura modernista na cidade.| Foto: Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel

Foi um prazo exíguo: a dupla de arquitetos Lubomir Ficinski Dunin e Luiz Augusto Amora teve apenas oito meses de prazo estabelecido pela antiga Empresas Elétricas Brasileiras para a construção que foi, por décadas, o edifício-sede da Companhia Paranaense de Energia (Copel), na Rua Coronel Dulcídio, no Batel. A implementação em um terreno de três frentes em uma região limpa no entorno e com alguma área verde, as janelas em fita que percorrem toda a fachada e a ausência de ornamentos são algumas das marcas da arquitetura do prédio modernista que, agora, vai a leilão. O valor mínimo pretendido é de R$ 32 milhões.

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Segundo a Copel, a alienação do imóvel foi motivada pela mudança da sede da diretoria da companhia para o bairro Mossunguê. "O objetivo dessa mudança é aproximar a direção da empresa dos demais empregados e dos negócios da Companhia, aumentando a sinergia entre as equipes e conferindo maior eficiência e agilidade aos processos. Além disso, a mudança vai proporcionar economia significativa com os custos de manutenção do imóvel”, diz a companhia em resposta para HAUS. A intenção de venda foi formalizada no dia 25 de janeiro, e a abertura das propostas e lances está marcada para 25 de março. A mudança das 460 pessoas que trabalham na sede do Batel ocorrerá ao longo de 2021, de acordo com a empresa.

Assim como vários edifícios e casas modernistas de Curitiba, a sede da Copel não é tombada e nem Unidade de Interesse de Preservação (UIP). “Quando ele faleceu existia o início de uma conversa de o prédio ser uma UIP modernista, mas esse é um processo lento, e a análise não andou”, conta o filho de Ficinski, o também arquiteto João Guilherme Dunin, que começou a trabalhar com o pai em 1977.

Da construção da Copel, ele se recorda pouco: sua memória mais forte é de outro marco de Lubomir, o edifício sede da Telepar, de 1966. “Lembro de ter ido com ele e era um elevador rudimentar, com um vento muito forte”, rememora. Outros exemplares modernistas do arquiteto são alguns edifícios residenciais, como o Rio de Janeiro, próximo da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O arquiteto Lubomir Ficinski em outra de suas criações: a canaleta do expresso. Foto: Hugo Harada/Arquivo/Gazeta do Povo.
O arquiteto Lubomir Ficinski em outra de suas criações: a canaleta do expresso. Foto: Hugo Harada/Arquivo/Gazeta do Povo. | Hugo Harada/Arquivo/Gazeta do Povo

Essa geração de arquitetos, frisa o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR e coordenador do plano diretor da universidade, Paulo Pacheco, gerou um período muito fértil nas décadas de 1960 e 1970 em Curitiba. “Parte deles atuava no planejamento urbano, na universidade e tinham escritórios. Essa atuação nas três frentes coincidiu com uma arquitetura moderna muito bem trabalhada, calcada na clareza, em uma ideia social da arquitetura que tem a ver com a moral humana. São edifícios que souberam envelhecer com dignidade”.

No Paraná, o movimento modernista na arquitetura caminhou junto ao brasileiro, com a construção do Hospital São Lucas, em 1945, projetado por um de seus maiores expoentes, João Batista Vilanova Artigas. Se sucederam prédios como o Teatro Guaíra, de Rubens Meister, todo o Centro Cívico e outros prédios até a década de 1970, como a sede da Copel.

Planta e acabamentos 

De acordo com o livro “Arquitetura Moderna em Curitiba", de Alberto Xavier, o tempo curto para entregar a obra impôs o emprego intensivo de pré-fabricação. "Assim são fundidas no local as estruturas das bordas que abrigam sanitários e serviços, e a trama pilar-viga da fachada, ficando assentes sobre elas as lajes pré-fabricadas com perfil U em todo o vão”, discorre o autor.

Os materiais aparentes e a ausência de ornamentos são outras marcas do prédio, diz a arquiteta Ana Luísa Furquim, especialista em conservação e restauro pela Universidade de Ferrara, na Itália. “Cada elemento inserido num edifício modernista tem uma função, não existe decoração supérflua”.

Materiais aparentes, poucos ornamentos e acabamentos de qualidade são algumas marcas do edifício. Foto: Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel.
Materiais aparentes, poucos ornamentos e acabamentos de qualidade são algumas marcas do edifício. Foto: Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel.

A estrutura racional definida por uma malha de pilares e pelo vão livre que gera na planta e na fachada livre, a volumetria definida pelas áreas úmidas localizadas nas empenas laterais, cujas janelas são escondidas pelas empenas diagonais, e o revestimento com um acabamento cerâmico verde-musgo são outros detalhes destacados pela arquiteta. "Aliás, os revestimentos foram cuidadosamente escolhidos à época, visando a agilidade na obra e pouca manutenção para o edifício público. Tão bem especificados que o edifício não parece desatualizado. Os pisos são de granito e as janelas são duplas, com micropersianas embutidas – coisa muito refinada para os anos 1970”, conta Ana.

Parte interna da Copel: ambientes livres permitem modificação simples com divisórias leves. Foto: Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel
Parte interna da Copel: ambientes livres permitem modificação simples com divisórias leves. Foto: Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel

A planta flexível, que pode ser adaptada facilmente com o uso de divisórias leves, é outro atributo modernista da sede da Copel, lembra o arquiteto, professor da Universidade Positivo e pesquisador de arquitetura modernista, Roberto Tourinho Fontan. “O prédio com sistema construtivo misto, entre o concreto fundido in loco e com peças pré-fabricadas deram velocidade para a construção. A concentração das instalações sanitárias das extremidades, e as circulações verticais com elevadores e escadas dão muita flexibilidade para a planta, que podem ser arranjada com divisórias e adequada aos novos formatos de trabalhar ao longo do tempo.  Poderia virar até um edifício residencial com algumas adaptações”, sugere.

Circulações verticais da edificação ajudam a dar flexibilidade para a planta. Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel
Circulações verticais da edificação ajudam a dar flexibilidade para a planta. Daniel Cavalheiro/Divulgação Copel

Fontan enfatiza ainda a forma de edifício em lâmina, alongado, uma solução natural ao terreno. “Ele é semelhante às estratégias da Torre da Pirelli, em Milão, de Gio Ponti, que combina retângulos e trapézios na planta, uma tipologia de edifícios corporativos que se desenvolveu muito no pós-guerra.”

Memória 

A Copel fala que preservou a documentação histórica do prédio e que “possíveis ações para a preservação da história do edifício” estão sendo discutidas, mas ainda sem um projeto concreto.

Ana Luísa Furquim frisa que manter as características do edifício depende menos de ele ser tombado e mais de educação patrimonial e da vontade do comprador em preservar a memória modernista. "Se o edifício teve elementos inseridos em fase posterior que o levaram a descaracterização, estes podem e devem ser retirados. Se precisar de nova infraestrutura para adaptá-lo a um novo uso, estes elementos podem e devem ser inseridos, diferenciando-se do existente", explica a especialista.

A arquiteta esclarece que esses são os passos de um projeto de restauração caso ocorram adaptações. "Parece difícil, mas é assim que a gente faz. Tem que olhar, observar, conversar com o edifício para perceber o que ele tem de mais valioso. Já vi edifícios tombados em que o investidor até tem interesse em preservar, mas não havendo um inventário que deixe claro quais são as características a serem mantidas, acaba por descaracterizá-lo”.

O professor Paulo Pacheco destaca que Curitiba não conseguiu preservar bem o seu período arquitetônico neocolonial, mas manteve a preservação do eclético e neoclássico. “Seria uma pena que a gente não conseguisse preservar essa época da arquitetura moderna com prédios como a Reitoria, o Teatro Guaíra, o Centro Cívico e vários outros prédios, em nome de modismos que não duram uma semana”.

Conteúdo editado por:Luan Galani
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