Primeiro prédio com área de lazer trouxe jeito escandinavo de morar para a Curitiba dos anos 1960

Primeiro condomínio vertical que oferecia espaço externo amplo, Parque Residencial Pinheiros, no Juvevê, pretendia ser “o maior conjunto habitacional do Paraná”

Construído no final da década de 1960, o Parque Residencial Pinheiros trouxe um novo conceito de moradia, com espaços de convivência compartilhados. Foto: Letícia Akemi/ Gazeta do Povo

por Vivian Faria*

19/08/2019

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“Uma cidade está nascendo”. Foi com essas palavras que a edição de nº 201 da revista Panorama, publicada em 1969, definiu a construção do Parque Residencial Pinheiros, localizado na rua Manoel Eufrásio, no Juvevê.

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

A frase pode parecer um tanto exagerada para quem passa em frente ao condomínio hoje e constata que, mesmo composto por vários blocos e uma espaçosa área externa, ele está longe de ser o maior da cidade –ou mesmo do bairro. Porém, no fim dos anos 1960, quando Curitiba crescia, mas ainda desconhecia o conceito de condomínio com áreas de lazer, a intenção era que ele ocupasse toda a quadra na qual está localizado e abrigasse até 5 mil habitantes.

Residencial visto de cima na década de 1970. Os prédios destacavam-se em um Juvevê totalmente horizontal.

Residencial visto de cima na década de 1970. Os prédios destacavam-se em um Juvevê totalmente horizontal. Foto: Strocchero/Fundação Cultural de Curitiba.

“Quando o projeto foi concebido, ele realmente era o maior conjunto habitacional do Paraná, porque abrangia toda a área do terreno. Mas, posteriormente, ela foi subdividida em lotes e o Parque Pinheiros foi reduzido”, conta um dos arquitetos responsáveis pelo projeto, Luiz Forte Netto. De acordo com uma placa situada até hoje próxima à entrada do condomínio, também assinaram o projeto José Maria Gandolfi, Lubomir Ficinski Dunin e Roberto Gandolfi. Nela consta ainda que a Galvão S/A foi responsável pela incorporação do empreendimento, e a Thá, pela construção.

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Conforme Netto, a intenção inicial era permitir que as pessoas morassem “praticamente no centro da cidade” e em meio a uma floresta de pinheiros, unindo o útil ao agradável. Mas, de acordo com Tânia Galvão, filha do proprietário da incorporadora, Nelson Torres Galvão, havia o objetivo de proporcionar um estilo de vida diferente para quem optasse morar em apartamentos. A ideia veio de uma visita feita pelo casal Nelson e Maria Batista Galvão à Finlândia em 1962. “Meu pai voltou encantado com algumas coisas que ele viu lá, com os espaços para as pessoas circularem, para as crianças”, lembra.

Muita área verde faz parte do condomínio. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Assim, o Parque Residencial Pinheiros foi idealizado para oferecer esse conceito diferente de moradia. A primeira medida para isso foi mantê-lo aberto, sem grades ou portões, para que qualquer pessoa pudesse circular por ali e estar em contato com a floresta de mata nativa preservada no terreno. O local era chamado de Bosque do Juvevê justamente porque ali nasce o rio Juvevê, afluente do rio Belém que hoje é canalizado.

Além disso, próximo aos cinco blocos de apartamentos – um com 15 andares e os outros com sete, foram construídos churrasqueira e parquinho, para que adultos e crianças tivessem opções de lazer. “No prédio mais alto ainda funcionava um jardim de infância e em um dos menores tinha um berçário, para que as famílias pudessem ir trabalhar e deixar os filhos atendidos”, frisa Tânia. Mas poucas famílias se utilizaram disso e os espaços foram fechados.

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Homenagem

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Antes de ser comprado pela Galvão, o terreno no qual foi construído o Parque Residencial Pinheiros pertencia à família Groetzner, proprietária da antiga fábrica de biscoitos Lucinda. Na placa de inauguração do condomínio há um agradecimento à família pela preservação da área.

Adaptações ao longo do tempo

Após sua inauguração, em novembro de 1970, o Parque Residencial Pinheiros começou a ser adaptado às necessidades dos moradores, às exigências da cidade e também às demandas dos incorporadores. Assim, o terreno acabou dividido – embora nenhuma das fontes consultadas saiba precisar o período em que isso aconteceu – e outros condomínios foram construídos naquele espaço.

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Mais tarde, por questões de segurança, o condomínio foi cercado e, ao longo dos anos, passou por diversas modificações, como a retirada das estruturas de lazer originais e a instalação de canchas, parquinho, academia, espaço para compostagem e para separação do lixo reciclável, além da implantação de passeios, rampas e outros elementos para facilitar a locomoção e a acessibilidade, de itens que passaram a fazer parte das exigências dos bombeiros e de câmeras de segurança.

Detalhes da arquitetura também foram alterados. “No início, o condomínio tinha como acabamento da fachada um conjunto de pestanas. Era bonito, mas virou abrigo de morcegos e teve que ser retirado”, exemplifica o atual síndico – e morador do local há cerca de 40 anos – Emílio Boschilia. Outra mudança foi a colocação de pastilhas na fachada externa dos blocos.

“O condomínio não é um conjunto de prédios, de edificações. É uma coisa viva, sabe? Ele evolui com o tempo, tem que se adaptar”, avalia o síndico. Entre as próximas mudanças previstas estão a implantação de outros itens para garantir a segurança dos moradores e o adensamento do bosque. “Nos últimos seis anos, já plantamos aqui mais de 250 árvores – e algumas já estão dando fruto”, diz.

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* especial para Gazeta do Povo

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