Projeto Caçamba do Bem reaproveita restos de obras para revitalizar instituição beneficente

Grupo de arquitetas e designers criou iniciativa para dar uma nova destinação a componentes que costumeiramente acabam no lixo

Foto: Bigstock

por Luciane Belin

04/09/2018

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O cliente compra um apartamento e contrata um profissional para fazer a decoração do seu novo lar. Para isso, no entanto, é comum que os profissionais optem por se livrar de alguns elementos que já são entregues junto com o imóvel pelas construtoras. Pisos, esquadrias, louças, granitos e itens do tipo são comumente descartados durante obras do gênero e terminam na caçamba do lixo.

Repensar o destino dos materiais que compõem o saldo da obra é o objetivo central do projeto Caçamba do Bem, lançado em agosto pelas arquitetas Camila Picoli, Carolina Beckert e Fernanda Heller, e pela designer Marília Bender Almeida.

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Ao invés de rumarem para o lixão e se transformarem em entulho, esses itens serão vendidos em um bazar a preços bem abaixo dos valores de mercado, com descontos de até 60%, e o montante arrecadado com a comercialização será destinado à obra de uma instituição beneficente, conforme explica Fernanda. “Depois do bazar, que deve acontecer no final de novembro, vamos selecionar uma instituição – que pode ser uma escola, uma creche ou um hospital que necessite de reforma – e vamos utilizar os recursos do projeto para executar esta revitalização”.

Em fase de captação, o Caçamba do Bem já recebeu itens de alguns doadores, que entram em contato com as organizadoras informando que tipo de materiais serão entregues. A coleta é feita uma vez por semana e, para isso, é preciso que o profissional tenha uma autorização por escrito do proprietário do imóvel, garantindo a conformidade da doação. São aceitos desde louças, metais, vasos sanitários e cubas de banheiro, até portas, spots, luminárias, porcelanato, sobras de piso, tinta, esquadrias, entre outros.

Fotos: Caçamba do Bem/Divulgação

“Na vivência das obras dos escritórios, percebemos que muita coisa estava sendo descartada sem ser utilizada. Nem sempre esse produto descartado servia diretamente para uma doação, porque quem recebe pode não ter uso para ele”, ressalta Fernanda.

De acordo com a designer Marília Bender Almeida, outra das criadoras do projeto, muitos dos materiais que são descartados não foram utilizados nem uma única vez. “Nem sempre o que a gente recebe tem uso para as instituições que precisam. Às vezes, o que uma escola precisa é de uma pintura, mas o que sobra em uma reforma é uma esquadria. Então tem muito mais sentido que eles recebam o apoio com a reforma em si”.

A arquiteta Camila Ramasine é uma das profissionais que já contribuiu com o Caçamba do Bem. Ela trabalha com execução de obras de interiores e também enxerga grandes desperdícios no seu dia a dia. Em um de seus projetos, ela entrou em contato com o cliente, contou sobre o projeto e ele concordou em prosseguir com a doação. “Tínhamos uma grande quantidade de peças de porcelanato que estavam em ótimo estado e conseguimos extrair tudo sem dano nenhum. Então por que não redirecionar?”, questiona.

Foto: Reprodução

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Ela reforça que, depois que vai para a caçamba de entulhos, é muito difícil que um material seja reaproveitado, pois fica exposto à chuva, à umidade e ao sol. “Esse projeto faz a gente abrir os olhos para enxergar quanto material é desperdiçado nas obras, não somente em acabamento, mas material de obra mais grosso. Muitas vezes, os profissionais acabam quantificando errado e isso gera sobra de material. A gente vê muita argamassa, areia e brita sobrando aos montes, e isso também é desperdício”, opina.

Pensar a arquitetura sob uma perspectiva sustentável inclui não somente criar alternativas ecológicas para o projeto, mas também para a sua execução, de acordo com Ramasine. “Essa visão de desperdício é uma coisa muito importante a se pensar, principalmente agora que estamos falando tanto em consumo consciente e sustentabilidade. Pensar até que ponto é necessário fazer uma troca de vários itens, e, caso o cliente queira trocar, porque não destinar adequadamente? Ter solidariedade também é pensar consciente e ter sustentabilidade”, alerta.

O projeto Caçamba do Bem recebe doações tanto de obras residenciais e comerciais, como de empresas de decoração, materiais de construções e lojas que queiram se desfazer de peças de mostruário, por exemplo. Para saber mais sobre a iniciativa e fazer doação, basta entrar em contato pelo email oi@cacambadobem.com.br.

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