Projeto propõe preservação de 12% da antiga fábrica da Ambev na nova Cidade da Polícia

Plano elaborado pela Prefeitura de Curitiba e apresentado ao governo do Paraná aponta as edificações que deverão ser mantidas e os espaços passíveis de demolição na área

Registro aéreo de parte do complexo fabril da antigas cervejarias Glória, Atlântica e da Ambev. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

por Sharon Abdalla

14/10/2019

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No último dia 2 de outubro, a Prefeitura de Curitiba apresentou ao governo do estado um estudo sobre a preservação da área da antiga fábrica da Ambev, no Rebouças, que irá receber o projeto da Cidade da Polícia — novo centro administrativo de planejamento e inteligência do estado, polícias militar e civil, guardas municipais, polícias Federal e Rodoviária Federal e Exército.

A avaliação do município propõe que 12% das edificações existentes no lote, que ocupa toda uma quadra da Avenida Getúlio Vargas, sejam mantidos no novo projeto. Este porcentual corresponde a 4.122 m² do total da área construída — que soma mais de 45 mil m² — e contempla as seguintes estruturas: edifício da diretoria, silos de mantimentos, áreas das antigas unidades de fabricação e laboratórios, espaços da caldeira e geradores, e a chaminé.

Detalhes das diversas construções que formam a antiga fábrica da Ambev no Vale do Pinhão. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

O estudo está baseado no fato de, além de compor a chamada paisagem fabril do Rebouças, juntamente com o Engenho da Inovação e as instalações da antiga Mate Leão, por exemplo, a área estar cadastrada como Unidade de Interesse de Preservação (UIP) do município – o que ocorre com outros cerca de 650 imóveis na cidade.

“Dá para manter o patrimônio e fazer uma praça evocando o primeiro plano urbanístico de Curitiba e, ao mesmo tempo, fazer a Cidade da Polícia”, disse o prefeito Rafael Greca, em nota divulgada pela prefeitura de Curitiba. Neste sentido, a proposta é a de que o conjunto das estruturas a serem preservadas funcione como um espaço de convivência, além de uma homenagem ao arquiteto e urbanista Alfred Agache, responsável pelo primeiro Plano Diretor de Curitiba, que delimitou o distrito industrial do Rebouças.

“O mais importante é saber o que a gente pode fazer na área e o que nos atende dentro das necessidades da Cidade da Polícia”, destacou, na mesma nota divulgada pela prefeitura, o governador Ratinho Junior.

Antigo complexo fabril da Ambev é um dos marcos da paisagem do Rebouças. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Mesmo com acordo, preservação ainda gera dúvida

Segundo a prefeitura, no encontro entre o prefeito Rafael Greca e o governador Ratinho Junior ficou definido que os órgãos técnicos do município e do Estado darão sequência ao processo de forma que o governo possa avançar com a elaboração do projeto, seguindo os trâmites legais — ou seja, a preservação das áreas apresentadas no plano massa desenvolvido pela prefeitura.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp-PR), responsável pela implantação do projeto, não confirmou, no entanto, que a proposta do município será aceita em sua integralidade. Por meio de nota, a pasta limitou-se a dizer que “o projeto da Cidade da Polícia está em fase de estruturação” e que a”sugestão levada ao Estado será avaliada a partir de uma discussão entre técnicos do governo e do município.”

Especialistas em patrimônio ouvidos pela reportagem apontam que o fato de o imóvel que abrigava a antiga fábrica da Ambev — que originalmente foi a sede das cervejarias Gloria e Atlântica, adquiridas posteriormente pela Brahma — estar cadastrado como UIP não garante, efetivamente, a preservação de suas estruturas.

Prédio industrial vai se tornar nova Cidade da Polícia. Gestão anterior previa Centro de Artes e Cultura Rebouças. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

“O que dá a garantia de que os edifícios perdurem, o que garante o que chamamos de transmissibilidade desses bens, é o tombamento. O estado vai ter que sentar, discutir, ouvir algumas instâncias, mas não há garantia sobre isso”, avalia Iaskara Florenzano, coordenadora de pesquisa do grupo Arquivo/Arquivo Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). “Juridicamente, não há nada que defenda [a manutenção] de uma UIP”, acrescenta Orlando Ribeiro, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e presidente da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Reurbanizar.

O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), por sua vez, afirma que a elaboração do plano de massa — apontando as áreas que devem ser mantidas e os espaços passíveis de demolição, a partir do qual o Estado deverá elaborar o projeto de implantação da Cidade da Polícia — já garante a preservação. Um fato que vai de encontro a isto é a inserção na guia amarela do imóvel de que se trata de uma UIP e que para a realização de “qualquer intervenção no imóvel”, “em especial nos pedidos de demolição”, o Ippuc e a Comissão de Análise do Patrimônio Cultural (CAPC) da Secretaria Municipal do Urbanismo deverão ser consultados.

Ainda não existe segurança jurídica para a preservação do complexo fabril, segundo especialistas. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Preservar parte é preservar?

Mesmo que os 12% das edificações da área da antiga fábrica da Ambev sejam preservados no projeto a ser desenvolvido pela Sesp-PR, os especialistas ouvidos pela reportagem discutem até que ponto isto representa, efetivamente, a preservação não apenas da história arquitetônica do imóvel, mas também de sua participação na composição da paisagem fabril do Rebouças.

“O ideal seria que todo o quarteirão fosse mantido, preservando suas características e [recebendo] adequações voltadas à acessibilidade e iluminação, [por exemplo, para a adequação ao novo uso]. Preservar 12% [é criar algo] como a casa David Carneiro, na qual mantiveram a fachada, mas é preciso explicar o que é aquilo [dentro do contexto ao qual ela ficou inserida]”, avalia Rosina Parchen, ex-chefe da Coordenação do Patrimônio Cultural (CPC) do Paraná.

Iaskara concorda e acrescenta que, em se tratando de paisagem fabril, é preciso ter em conta que os elementos estão interconectados em diversos níveis e na linguagem, o que faz com que a retira de algum deles comprometa e prejudique o entendimento do todo.

“Todas essas estruturas [contempladas pelos 12% categorizados como UIPs] têm porte relativamente grande e podem ser distinguidas à distância na paisagem. A preservação delas faria muito sentido se tiverem algum destaque no projeto [a ser desenvolvido pela Sesp-PR], não estando envoltas por outros edifícios muito próximos que dificultem sua visualização”, opina Ribeiro, que vê com bons olhos o movimento da prefeitura no sentido de contribuir com os estudos de preservação da área.

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