Região do Alto da XV concentra casas ícones do modernismo curitibano; entenda por quê

Exemplares marcam o processo de expansão da cidade e uma das principais correntes arquitetônicas da capital paranaense

Casa João Luiz Bettega, de Vilanova Artigas, é um dos exemplares de casas modernistas no Alto da XV. Foto: Fernando Zequinão / Gazeta do Povo

por Sharon Abdalla

29/10/2018

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Quem circula pela região do Alto da XV e tem o olhar apurado para os detalhes do trajeto identifica no concreto e nas formas puras das construções elementos comuns à paisagem local. Mais do que uma mera coincidência, isso se deve ao fato de os bairros que compõem o perímetro guardarem alguns dos principais e mais emblemáticos exemplares da arquitetura moderna curitibana, assinados por nomes igualmente reconhecidos no âmbito local e nacional.

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Só para se ter uma ideia, mais de um terço de todas as residências modernistas listadas como Unidades de Interesse de Preservação (UIPs) pela Prefeitura de Curitiba tem a região como endereço. Outra concentração dos exemplares modernos está na região do Batel, outro ‘reduto’ modernista da capital.

“Estas casas eram implantadas nos bairros que estavam sendo criados [por volta dos] anos 1960, quando a cidade vai deixando o modelo concêntrico e adotando o modelo linear [de planejamento urbano]. O processo de expansão da cidade coincide com a consolidação desta nova arquitetura”, explica a arquiteta Maria da Graça Rodrigues Santos, doutora em Estruturas Ambientais Urbanas pela Universidade de São Paulo (USP).

Símbolos de um tempo

Símbolo modernista, a casa Mário de Mari foi tombada pelo patrimônio municipal. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

‘Flutuando’ sobre um terreno localizado na esquina da Avenida Nossa Senhora da Luz com a Rua Professor Brandão, a casa Mário de Mari é um desses exemplares. Primeiro imóvel tombado dentro da nova fase do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC), no último mês de abril, a casa foi construída em meados da década de 1960 para servir de residência do engenheiro que a batiza e que assina seu projeto e execução.

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Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Ao contrário de suas irmãs de estilo, ela traz a madeira, vidro e pedras, e não o concreto, como suas principais matérias-primas. A implantação em forma de “U” volta todos os cômodos da residência para um pátio central, garantindo privacidade à área de lazer, e aproveita o desnível do terreno, o que faz com que ela pareça estar ‘solta’ do chão. Atualmente, o imóvel é sede do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU-PR).

Vizinhas com nome e sobrenome

A cerca de 2,5 km dele, trajeto que pode ser percorrido em aproximadamente meia hora a pé, outras duas casas que trazem o tom vermelho em suas fachadas guardam e preservam a história da arquitetura moderna da capital.

Bloco elevado e recortes em vidro caracterizam a casa João Luiz Bettega. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Assinada por ninguém menos do que Vilanova Artigas, a casa João Luiz Bettega foi projetada para o médico homônimo e amigo do arquiteto, expoente da Escola Paulista de Arquitetura. Com 496 m², a residência tem quatro quartos e salas de estar e jantar integradas, uma novidade nos anos 1950.

Fotos: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Grandes recortes em vidro, responsáveis por garantir iluminação natural e conforto térmico, rampas de acesso aos pavimentos superiores e o bloco elevado sobre os pilotis, que marcam a arquitetura moderna, em especial a assinada por Artigas, também estão presentes no projeto. De propriedade da arquiteta Giceli Portela, o imóvel foi restaurado para abrigar seu escritório.

A poucas quadras dali, na Rua Dr. Faivre, 621, é a residência b quem rouba a cena. Projetada pelo arquiteto curitibano Lolô Cornelsen para o casal Nine e Medoro Belotti, a casa foi construída em 1953 e tira partido da elevação do terreno como forma de destacar sua estrutura retangular.

As janelas ritmadas e a fachada vermelha são destaques na residência Medoro Belotti. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

No térreo, os pilotis recuados em relação aos limites da construção evidenciam ainda mais a fachada, ritmada pela repetição das 15 janelas contínuas, que parecem compor uma única estrutura. Hoje, no local, funciona o restaurante Marbô Bakery.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

“O Lolô terminou o curso de Arquitetura no Rio de Janeiro, e esse exemplar é inspiradíssimo no modernismo carioca. A casa do Artigas é mais corbusiana, mais [ligada] ao modernismo paulista. Já a Mário de Mari traz uma arquitetura inspirada na feita por Frank Lloyd Wright, mais voltada para as questões naturalistas, como o uso da madeira e do tijolo”, resume Salvador Gnoato, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

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