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Na manhã desta quarta-feira (26), HAUS esteve presente na coletiva de imprensa do evento em Milão e entrevistou com exclusividade o arquiteto Stefano Boeri, responsável pela curadoria deste ano.
Na manhã desta quarta-feira (26), HAUS esteve presente na coletiva de imprensa do evento em Milão e entrevistou com exclusividade o arquiteto Stefano Boeri, responsável pela curadoria deste ano.| Foto: Salone del Mobile Milano

"Super Salone". Assim será o próximo Salão Internacional do Móvel de Milão, que acontece de 5 a 10 de setembro, segundo o seu curador, o arquiteto italiano Stefano Boeri. A confirmação da realização de um dos mais importantes eventos de Milão significa a retomada da vida normal e da economia do país. Quando no último dia 11 de maio o nome de Stefano Boeri foi anunciado como curador da manifestação, o mundo do design foi pego de surpresa.

A incerteza que pairava desde o dia 21 de abril sobre a realização do mais importante evento do setor do design e mobiliário do mundo havia deixado não só o público, mas também o prefeito de Milão Giuseppe Sala preocupado. Pressões à parte, a edição número 59 da manifestação, que comemora os 60 anos este ano, será mais do que especial.

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Coletiva de imprensa aconteceu nos jardins da Triennale de Milão.
Coletiva de imprensa aconteceu nos jardins da Triennale de Milão.| Salone del Mobile Milano

"Um Salão [do Móvel de Milão] que ficará para a história não só pelos seus 60 anos, mas por apresentar uma nova fórmula. Não podíamos perder um outro ano e precisávamos mostrar que estamos prontos", revela o arquiteto e presidente da Triennale de Milão, durante a coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (26) pela manhã, e que dedicou a HAUS alguns minutos.

Uma curiosidade: o senhor hesitou em aceitar o convite? E por que o aceitou? 

À parte a perplexidade e o pouco tempo, o que mais me motivou foi o desafio. Claro, aceitei somente depois de conversar com uma equipe extraordinária. O que posso dizer é que o Salão faz parte da história e da cultura dessa cidade, onde nasci e cresci. Achei que valia a pena correr o risco. Posso adiantar que teremos uma edição especial até porque não terá a dimensão dos anos anteriores. Mas será um Super Salone como anunciei. O nome foi escolhido a dedo, pois nasce da nossa força e vontade de viver. Uma edição que traz consigo algumas características importantes como coragem, otimismo e fé.

Super Salone é o nome do evento que acontecerá este ano de forma presencial em Milão.
Super Salone é o nome do evento que acontecerá este ano de forma presencial em Milão.| Salone del Mobile Milano

Como será o "seu" salão? Podemos dizer que o próximo Salone del Mobile representa a retomada econômica de Milão após a pandemia?

Com certeza. E mais do que nunca a tão sonhada volta à normalidade. O evento será obviamente redimensionado em matéria de público e expositores. Ressalto que esse não é meu Salone. É o Salone de todos. Da cidade e de quem ama o design. Além dos espaços da feira de exposições em Rho [Fiera], parte das atividades também serão realizadas aqui na Triennale, da qual sou presidente. No centro de exposições criaremos uma cidade. Isso mesmo, além das empresas que estarão expondo seus produtos, teremos espaços para shows, talks, mostras de design e até mesmo uma área dedicada à gastronomia. Nos pavilhões, ao invés de stands teremos paredes paralelas, cada uma delas concebida e idealizada para acomodar uma tipologia de produto, produtos estes que estarão suspensos.

É um novo modo das empresas "contarem" ao público um pouco da sua própria identidade de maneira inusitada. Irá agradar, com certeza, quem adora postar no Instagram (risos). Entre as paredes teremos passagens que irão permitir ao público percorrer os corredores. Uma das grandes novidades será a criação de um verdadeiro bosque na entrada principal da [Rho] Fiera onde iremos colocar 200 árvores que depois serão plantadas ao redor do centro de exposições. Resumindo: será um Super Salone único!

Render mostra como será a nova fórmula de exposição do evento de design, decoração e arquitetura.
Render mostra como será a nova fórmula de exposição do evento de design, decoração e arquitetura.| Salone del Mobile Milano

O senhor será o curador de um Salone del Mobile inédito em setembro. E ao seu lado, uma equipe de arquitetos internacionais. Poderia nos antecipar os nomes desses profissionais e o que eles farão?

Tenho o privilégio de trabalhar com profissionais talentosos do mundo todo. E nessa aventura conto com a participação de Andrea Caputo, que deu vida às paredes expositivas, e Giorgio Donà, co-fundador e diretor da Stefano Boeri Interiors, que idealizou percursos inovadores que irão valorizar os projetos e produtos expostos.

Não posso deixar de citar o alemão Lukas Wegwerth, que elaborou um projeto exclusivo para que todo o material usado durante o Salão seja reutilizado depois. Nada irá para o lixo. Anniina Koivu será responsável pela inclusão de escolas de design do mundo todo que trarão protótipos de seus estudantes que, com a pandemia, não puderam mostrar seus trabalhos de conclusão de curso. Marco Ferrari e Elisa Pasqual, do Studio Folder, são os pais do maravilhoso logo e da identidade visual do Super Salone, e a querida Maria Cristina Didero, irá cuidar de toda a programação destinada ao público.

Boeri juntou um grande time multidisciplinar de profissionais para transformar a edição do Salão do Móvel de Milão 2021.
Boeri juntou um grande time multidisciplinar de profissionais para transformar a edição do Salão do Móvel de Milão 2021.| Salone del Mobile Milano

O Salone na feira será aberto não só para os operadores do setor, mas também ao público em geral, que inclusive poderá adquirir objetos e peças de empresas a preços exclusivos. Por que essa iniciativa inédita? 

Esse é um Super Salone, um salão especial como o próprio nome diz. E depois de tanto tempo era preciso pensar em um modo de dar às pessoas o prazer de poder tocar e reviver emoções que ficaram "presas" por mais de um ano. E por isso mesmo, o Salão de 2021 será aberto ao público todos os dias e com horários flexíveis. Isso quer dizer, que muito provavelmente será também um pouco noturno todos os dias. Os ingressos terão um preço acessível e as empresas poderão comercializar no varejo. O cliente irá comprar  o produto por meio de um QR code e receberá em casa. Estamos passando do B2B (Business to Business) para o B2C (Business to Consumer).

Curador do Super Salone, Stefano Boeri é um dos grandes nomes contemporâneos da arquitetura mundial.
Curador do Super Salone, Stefano Boeri é um dos grandes nomes contemporâneos da arquitetura mundial.| Salone del Mobile Milano

O Salão do Móvel é conhecido por trazer milhares de turistas do mundo inteiro, bem como empresas internacionais. Em relação ao público sabemos que haverá restrição para a entrada de visitantes de alguns países como, muito provavelmente, o Brasil. Qual a alternativa para os brasileiros? 

Infelizmente, sabemos que as fronteiras não estarão completamente abertas e por isso mesmo os organizadores do Salão estão elaborando uma plataforma digital que irá suprir esse 'gap'. Não é a mesma coisa, mas pelo menos os brasileiros que não puderem vir poderão acompanhar digitalmente o evento não só de 5 a 10 de setembro, mas durante 365 dias.

Visitantes poderão comprar peças em exposição por preços promocionais.
Visitantes poderão comprar peças em exposição por preços promocionais.| Salone del Mobile Milano

O senhor pegou o Covid-19. Como foi viver esse momento? 

Acredito ter contraído o vírus por volta do dia 24 de fevereiro e quatro dias depois fiz o teste que deu positivo. Fiquei em casa em isolamento por quatro ou cinco dias. Quando a situação piorou - estava com pneumonia -  fui aconselhado a ir ao hospital. Fiquei vários dias recebendo oxigênio e posso descrever os dez dias de internação como uma experiência dura e angustiante. Por outro lado, percebi quão eficiente é o sistema sanitário público italiano e a dedicação dos médicos e enfermeiros do hospital Niguarda, de Milão.

Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, é um arquiteto renomado e transformou a cidade durante sua gestão. Não seria hora de ter um arquiteto no comando de Milão? 

Sou arquiteto há muito tempo e por algum tempo me iludi achando que poderia dar minha contribuição ao mundo da política. Em 2010, disputei as prévias do PD (Partido Democrático) para a prefeitura de Milão [Boeri perdeu para Giuliano Pisapia, que posteriormente foi eleito]. Um dos meus projetos era, por exemplo, transformar todos os imóveis vazios de Milão em espaços para serem alugados a preços módicos. Uma das razões pelas quais os jovens acabavam indo embora da cidade.

Não descarto porém que, em um determinado momento da minha vida, eu possa encarar esse desafio: afinal, a única maneira de poder 'fazer' arquitetura é 'fazendo' política. A política frequentemente, e principalmente nos últimos anos, usou de modo instrumental a arquitetura para satisfazer seus interesses. Vale lembrar, porém, que a política também gera, produz e constrói espaços. Neste sentido, a relação entre esse mundo e a arquitetura é frutífera. Quem sabe?

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