Seis tendências mostram como será o morar do futuro

Tecnologia, sustentabilidade e compartilhamento são algumas das palavras-chave para descobrir como serão as casas e cidades dos próximos anos

A Ecocápsula é uma microcasa de 6,3 m² que utiliza energia solar, eólica e ainda filtra a água da chuva. Você viveria em um espaço tão pequeno? Foto: Divulgação

por Monique Portela*

27/08/2019

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Projetar o futuro é muito mais do que um exercício criativo. A urgência em solucionar problemas econômicos e ambientais somada a profundas mudanças de comportamento nas últimas décadas coloca arquitetos, urbanistas, engenheiros e designers na linha de frente dos agentes de mudança. Pensar cidades inteligentes, com espaços que atendam às novas necessidades — das pessoas e do planeta — traz para primeiro plano a função social destas profissões e nos obriga a refletir: como será o morar do futuro?

Tecnológico, certamente. Seja com novos softwares para projetar edificações ou com gadgets que centralizam o controle de cada aparelho da casa, o futuro passa por uma automatização crescente de objetos e tarefas. Sustentável, também. Com a tomada de consciência de uma crise ambiental na qual as construções têm papel central, a sustentabilidade deixou de ser um método aplicado para solucionar problemas pontuais para virar um mindset que é base para o projeto, construção e operação das edificações.

A Smart City Laguna tem iluminação inteligente, que reduz o consumo de energia, pavimentação drenante e mais uma série de tecnologias, como a conexão dos moradores com a cidade a partir de um aplicativo no smartphone. Foto: Divulgação/Smart City Laguna

Já a questão econômica se reflete na busca por espaços menores, mais baratos, com ambientes híbridos que se adaptem às novas relações entre pessoas, trabalho e espaço, onde a casa é ao mesmo tempo lugar de descanso, bem-estar e home office. Mas não apenas. Cada vez mais somos consumidores de espaços: cafés, livrarias, shoppings centers e outros lugares fazem do morar uma experiência expandida e efêmera. Diante de tantas mudanças, a interdisciplinaridade do trato urbano fica em evidência e exige equipes com profissionais de diversas áreas para dar conta de todas as demandas tecnológicas, sustentáveis e humanas — então o futuro também é multidisciplinar.

Quer saber mais? A HAUS entrevistou seis especialistas das áreas de arquitetura, urbanismo, mercado imobiliário e inovação para apontar as tendências mais pungentes para os próximos anos.

Tecnológico

São sete da manhã, hora de ir trabalhar. Ao invés do despertador tocar, sua cortina se abrirá suavemente, a televisão ligará com o noticiário enquanto o cheirinho de café entrará pela fresta da porta. Internet das Coisas, aparelhos inteligentes e robôs domésticos — é nisso que pensamos quando o termo tecnologia é evocado no contexto habitacional. Com razão. Hoje já é possível ter uma casa completamente conectada a partir de assistentes virtuais como a Alexa, da Amazon, ou o Google Assistent, o problema é que o preço do arsenal de gadgets necessários para fazer isso acontecer ainda não é muito competitivo no Brasil. Mas a tendência é que eles se popularizem e cada vez mais possamos contar com os comandos de voz ou aplicativos para automatizar nossa casa e rotina.

“A gente já observa um movimento mais tech friendly. Conforme as pessoas têm gadgets para tudo, é natural que eles venham também para dentro de casa”, comenta Luiza Loyola, especialista em tendências da Worth Global Style Network (WGSN).

A tendência é que, cada vez mais, as casas sejam automatizadas a partir de controles de voz ou aplicativos de celular. Foto: Bigstock

Mas pensar a tecnologia dentro de casa é também falar sobre o desenvolvimento de novos materiais e estratégias para solucionar problemas que às vezes não são tão óbvios, como a poluição, o conforto térmico e os barulhos dos grandes centros urbanos.

“Tem muita coisa acontecendo na área de tratamento de superfícies, o que chamamos de smart surfaces. São superfícies antibactericidas, que podem emitir calor, que não arranham…”, explica Mauricio Affonso, desenvolvedor de produtos na área de inovação da Ikea, na Suécia. “Também tem muito trabalho na área de tecidos. Nós mesmos estamos desenvolvendo uma cortina que é capaz de limpar o ar, mas também tecidos que podem absorver e emitir calor ou absorver o som, para criar um ambiente acústico mais agradável”, completa.

A tecnologia também está na pesquisa de novos materiais, como é o caso da cortina autolimpante e antipoluição em desenvolvimento na Ikea, na Suécia. Foto: Divulgação/Ikea

Para além das janelas, a tecnologia também deverá pulsar na construção das smart cities, cidades que usam a coleta de dados a partir de sensores, câmeras e dos próprios cidadãos para otimizar diversos serviços. Da identificação das rotas mais usadas pelos usuários do transporte público até alertas para a troca de lâmpadas nas ruas, as cidades inteligentes estão surgindo do zero, a exemplo da Smart City Laguna, primeira cidade inteligente social do mundo, construída no Ceará, mas também se adaptando conforme o ritmo (e o preço) das novas tecnologias.

Paramétrico

Já na área da modelagem de edificações, a tecnologia contribuiu com uma série de softwares que fez com que novas possibilidades se abrissem aos arquitetos. A partir do final dos anos 1980, aquilo que hoje denominamos arquitetura paramétrica já era uma realidade. Baseado na inserção de variáveis, programas de computador usavam algoritmos para gerar diferentes possibilidades de construções.

Ao longo dos anos, os programas ganharam interfaces mais amigáveis, mas passaram a demandar novas competências dos arquitetos. “A partir daí o arquiteto se torna extremamente mais relevante no processo, porque ele tem que aprender a também ser programador”, aponta Emílio Bertholdo, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Mackenzie na área de planejamento urbano para cidades inteligentes e produção de tecnologias urbanas.

O Centro Heydar Aliyev e o Complexo Galaxy SOHO têm uma linguagem contemporânea, mas que apontam para métodos e formas do futuro. Foto: Iwan Baan/Zaha Hadid Architects

Hoje, este tipo de arquitetura é conhecida principalmente por conta de escritórios renomados como o Zaha Hadid Architects, que assina grandes obras como o Centro Heydar Aliyev, no Azerbaijão, e o Complexo Galaxy SOHO, em Beijing, na China. O estilo pode ser facilmente identificado pela complexidade e magnitude das construções, geralmente curvilíneas, brancas e repletas de detalhes.

Mas quando especialistas apontam que o futuro é paramétrico, não se fala no parametrismo apenas como estética, mas sim como método de modelagem que consegue explorar melhor os limites da arquitetura e também como um marco de ruptura a partir de linhas contínuas.

O Centro Heydar Aliyev e o Complexo Galaxy SOHO têm uma linguagem contemporânea, mas que apontam para métodos e formas do futuro. Foto: Iwan Baan/Zaha Hadid Architects

“Ela é uma tecnologia de hoje, mas no futuro ela pode ser uma tecnologia de todos”, explica Emílio, apontando que atualmente ela demanda material e mão de obra especializada. “Acho que ela traz as possibilidades de experimentação na arquitetura que nós perdemos por um tempo. Tivemos a arquitetura catálogo por muitos anos, a caixinha. Com a arquitetura paramétrica você consegue testar novas formas, entender um conjunto de dados, e ela traz também a ideia de construção pré-moldada”, completa.

Sustentável

A ideia de construção pré-moldada se encaixa com outro ponto que vai definir o morar do futuro: na base do planejamento de casas e cidades, a integração entre comunidade e natureza será essencial. Como prioridade surge a preocupação com materiais que sejam duráveis, acessíveis e tenham um menor impacto ambiental. Nisso despontam como solução as casas pré-moldadas, que já incluem uma série de facilidades ecológicas. Modulares, contam com peças feitas em massa que permitem fácil rearranjo, personalização e aumento de área útil sem envolver grandes reformas, diminuindo a produção de lixo e podendo incluir a própria comunidade na construção.

Dentre os projetos que ganham destaque internacional, destacam-se os que pensam em estruturas para a coleta e reuso da água da chuva, sistemas de temperatura desenvolvidos de acordo com as necessidades de cada região e a otimização da iluminação solar com grandes janelas em locais estratégicos. O uso de placas fotovoltaicas, apesar de não ser novidade no mercado, ainda encarece o projeto — mas a tendência é que os preços abaixem e, em países como o Brasil, onde a luz solar é abundante, sejam indispensáveis.

O escritório Spark Architects projetou um prédio sustentável para Singapura com foco em jardins e fazendas urbanas, pensando na segurança alimentar. Imagem: Divulgação/Spark Architects

Dentre as prioridades, surge também a busca por soluções para o consumo nos grandes centros. “O morar do futuro vai exigir de nós, pensadores do espaço urbano, a adoção de práticas que nos faça produzir mais do que consumir”, comenta o professor de arquitetura e urbanismo da PUC-PR, Andrei Cestani.

Neste sentido, a criação de hortas, fazendas e jardins urbanos, assim como o aproveitamento de lajes, varandas e terraços para o cultivo de hortaliças comestíveis cresce como solução alimentar e arquitetônica. Uma análise rigorosa da localização em que se constrói é premissa para o bom aproveitamento da luz natural e correntes de ar, diminuindo a necessidade de luzes e ar-condicionado. A ideia de que cada construção tem o compromisso de ser autossuficiente é o que deverá nortear os projetos, na perspectiva de que os recursos naturais não mais darão conta de abastecer cidades que não conseguem cuidar de si mesmas.

Minimalista

O inchaço dos centros urbanos, a crise financeira e a redução do tamanho das famílias criou o contexto perfeito para ascensão de moradias cada vez mais enxutas e compactas, das casas populares às mansões de luxo. Assim, acompanhamos a popularização das tiny houses e a construção de microapartamentos que prometem, em menos de 10 m², trazer todo o conforto que alguém precisa parar viver, com apelo à mobilidade, localizações privilegiadas ou facilidades no próprio condomínio.

No extremo das iniciativas relacionadas à inovação e espaço estão projetos como a Ecocápsula que, como sugere o nome, é uma microcasa de 6,3 m² que utiliza energia solar, eólica e ainda filtra a água da chuva para ser usada na ducha e no banheiro. Mas o preço de uma moradia completamente autossustentável, ainda que minúscula, impede que o modelo futurístico seja replicado: a Ecocápsula custa a partir de 79 mil euros.

A Ecocápsula é uma microcasa de 6,3 m² que utiliza energia solar, eólica e ainda filtra a água da chuva. Você viveria em um espaço tão pequeno? Foto: Divulgação

Projetando futuros possíveis com um pé na realidade, estão mesmo as metragens reduzidas e majoritariamente horizontais. Em São Paulo, por exemplo, a venda de plantas com menos de 45 m² proporcionalmente mais que dobrou nos últimos quatro anos, de acordo com números do Sindicato da Habitação (Secovi). Uma das construtoras pioneiras no país a aderir à tendência é a Vitacon, que tem apartamentos que chegam a 10 m² de área privativa.

“Começamos a entender que tamanho não é necessariamente sinônimo de viver bem. Ele está muito mais atrelado à localização, à comodidade, ao conceito do lifestyle como um todo”, explica Alexandre Frankel, CEO da construtora. A redução do espaço interno faz com que seja necessário otimizá-los com o uso de móveis e objetos versáteis, mas também exige que a oferta de facilidades e serviços seja suficiente para suprir todas as necessidades de uma vida compacta. Objetos que em outros tempos foram fonte de desejo, como máquinas de lavar roupa e carros, hoje são vistos pelo seu verdadeiro potencial de uso — se você lava suas roupas apenas uma vez por semana, por que não dividir a máquina com os outros moradores do prédio? O morar minimalista implica, portanto, no fortalecimento dos espaços comuns, outra tendência que chega com força e promete reinventar as formas de viver.

Compartilhado

Depois da ideia de coworking ter sido bem assimilada, agora é a vez do coliving. Seja como resposta à crise habitacional ou pela busca por experiências colaborativas, o conceito tem se expandido mundo afora e consiste na possibilidade de alugar um quarto com áreas comuns, como cozinha, sala de estar, escritório, lavanderia, às vezes até restaurantes e outros serviços como compartilhamento de carros.

O grande diferencial em comparação a simplesmente alugar um apartamento em conjunto de forma tradicional é que a edificação já vem preparada para atender às necessidades de um público diverso. Mas a tendência é que, no futuro, a ideia de coliving vá além, colocando conceitos de sustentabilidade e práticas comunitárias no centro da proposta habitacional, transformando-se no conceito de community zone.

Na Urban Village, a proposta é ter uma vila sustentável que estimule a interação e integração entre os moradores. Foto: Divulgação/SPACE10

Um vislumbre do que ela pode vir a ser é o projeto Urban Village, fruto da parceria entre o laboratório de pesquisas da Ikea, o SPACE10, com o escritório de arquitetura dinamarquês EFFEKT, apresentado em maio deste ano. A proposta é criar vilas com pessoas de diversas idades e camadas sociais, que possam desfrutar de infraestruturas comuns que vão da captação local de água a iniciativas de agricultura urbana. As casas seriam feitas módulos pré-fabricados de madeira laminada, que permitem a expansão do espaço caso a família cresça. Outra inovação está no modelo de compra: com a ideia de ser realmente acessível, os moradores comprariam “ações” do imóvel comunitário a cada mês.

Mudanças mais tímidas também foram impulsionadas pela tendência compartilhada do morar. Em residências tradicionais, mas multigeracionais, a ideia que já vem sido aplicada por vários arquitetos e designers é a de inclusão. “As casas podem ser adaptadas para as diferentes necessidades desses grupos tão variados”, aponta Luiza Loyola, especialista em tendências da WGSN. “É a questão da criatividade, por exemplo, abraçar as crianças nesses ambientes compartilhados. Não ter mais o ‘quartinho da bagunça’, mas misturar tudo isso na decoração de casa”, completa.

Efêmero

Uma em cada três pessoas de todo o planeta se sentem mais em casa em outros lugares do que onde moram. O dado é do último relatório Life at Home (2018), guia de tendências publicado anualmente pela Ikea. A flexibilidade da vida pós-moderna cria uma ideia de morada expandida, onde cafés, livrarias e parques viram nossos escritórios, ponto de encontro e sala de estar. A casa não é mais um espaço no qual criamos raízes —  ela se adapta de acordo com o local de trabalho ou as fases da vida. Nisso ascendem as moradias de aluguel, que favorecem a vida do nômade urbano que a cada fase da vida tem novas necessidades: morar perto do centro, depois próximo à escola dos filhos ou à casa dos pais.

“Há 10 anos nós não tínhamos um mercado de locação por opção. Hoje isso está mudando”, aponta Fábio Tadeu Araújo, sócio-diretor da Brain, que faz pesquisas estratégicas para o mercado imobiliário. Mas ele afirma que a tendência não é majoritária. “Ele será importantíssimo para o mercado até 35 anos, porque até essa idade é onde a maior parte das pessoas, em especial com renda média ou alta, permanece solteira e sem filhos, não será majoritário”. Mas a mudança é incipiente e o futuro vai demandar um mercado apto a oferecer estes espaços, que são menores e diversos.

A Housi tem como proposta oferecer “casas on demand”, com a premissa de que hoje é possível morar onde quiser, por quanto tempo quiser e com uma série de serviços e facilidades, como um hotel. Fotos: Housi/Divulgação

Nessa onda, algumas empresas já passaram a atuar da construção à gestão dos condomínios, como é o caso da Housi. A startup paulistana surgiu no início deste ano, a partir da decisão da Vitacon de, até 2020, investir apenas em imóveis para aluguel. A empresa gerencia as unidades como uma espécie de Airbnb, onde é possível alugar um imóvel por dias ou meses.

A tendência do morar efêmero impacta também os ambientes internos das casas. A via de mão dupla, alugar e colocar para alugar, implica em ambientes que possam ser facilmente rearranjados. “A própria ideia do Airbnb impacta muito a noção do morar, porque isso muda a identidade das casas. As casas precisam de produções arquitetônicas feitas para receber diferentes perfis ao mesmo tempo”, explica o professor de arquitetura e urbanismo da PUC-PR, Andrei Cestani. “É uma arquitetura que precisa se rearranjar muito rapidamente, o que impacta no design, no tipo de mobília e nos tipos de atividade que eu desenvolvo naquele lugar”, completa. Móveis versáteis, modulares e decoração com base neutra focada em objetos com muita personalidade, mas que podem ser facilmente substituídos, são apontados como uma solução para a efemeridade do morar do futuro.

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