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Um churrasquinho na sacada
| Foto: Bigstock

Dentre os estranhos hábitos do homo apartamentus – a espécie que vive em ambientes verticais e pega elevador duas vezes ao dia – poucos são mais inabaláveis que o churrasquinho na sacada.

O churrasquinho: aquela mistura de carvão, fogo intenso, sal grosso, facas, carnes, linguiças, batidas, cerveja, som alto, fumaça, sujeira, copos e muita confusão. Ao fim de um churrasco não sobra muita coisa além daquele ar desolado de campo de batalha. É por isso que o churrasqueiro, exausto após a refrega, desaparece assim que termina o serviço – e vai se deitar em algum canto – enquanto as brasas do carvão ainda ardem, esperando pela limpeza.

Mas a churrasqueira tem que ser a carvão? Tem, sim senhor, porque segundo os corretores – aqueles especialistas em imóveis e, quero crer, em churrasco – nem pense em fazer um apartamento sem sacada e sem churrasqueira a carvão. Duplo pecado. É condição de venda, segundo eles. E quem vai querer pagar pra ver?

A verdade é que, pesquisa após pesquisa, a tal da churrasqueira na sacada aparece como um item de desejo. Em todas as rendas. Incrível. Consumidores aqui do Sul, e não apenas, gostam de fazer churrasco. Na sacada. A carvão.

Pobre, pois, dos incorporadores e arquitetos, desolados, tentando encontrar uma saída para a sacada. Eles timidamente procuram avaliar, e várias vezes perguntam-se: mas realmente precisa colocar uma churrasqueira na sacada? Por medo de não vender, e segundo o que todas as pesquisas atestam, a tal da churrasqueira na sacada acabou se impondo e somente um e outro construtor dissidente, por economia ou coragem mesmo, arrisca um aparelho à gás ou elétrico, quem sabe uma coifa na cozinha, fazendo as vezes de churrasqueira.

Mas nem sempre foi assim. Nos apartamentos antigos (até anos 1980/1990 do século passado; eu sei, faz muito tempo), muito raramente se encontraria uma churrasqueira na sacada como item de série. A sacada ou a varanda era o que sempre foi: um respiro externo, um local de contemplação e de jardinagem. Uma rede aqui e ali. Até que alguém algum dia descobriu que dava para colocar uma churrasqueira na sacada. A carvão. E assim a revolução da fumaça começou.

Alguém pode afirmar que esse hábito não se sustenta: carne, carvão, aquecimento global, para não falar em veganismo e conselhos médicos. Além do preço que, você sabe. Pode ser. Mas enquanto tais hábitos perdurarem, teremos que resolver alguns problemas.

É comum defumar-se mais o vizinho do que a carne; e incensa-se os demais andares que não foram convidados. Se há uma técnica para o churrasco (ninguém diria vendo certos pais de família), há mais ainda uma técnica para a construção e manutenção desses equipamentos domiciliares. Há ciência na fumaça.

O fato é que da churrasqueira na sacada evoluiu-se (?) para a varanda gourmet e para a integração com a cozinha. Carnes pingando sangue no tapete, no caminho até o prato, nunca mais.

É cada vez mais é comum a integração entre sala e sacada. Os apartamentos novos usualmente procuram gerar um nivelamento entre os ambientes, incorporando a sacada como uma sala estendida. Se o apartamento diminuiu, a sacada aumentou. O churrasquinho foi o pai da varanda gourmet.

É claro que nem todos são adeptos desse hábito. Há aqueles que só lembram da churrasqueira quando estão muito animados e inspirados. E há aqueles que aproveitam o espaço da churrasqueira para colocar plantas ou qualquer outra coisa. Para outros, iconoclastas, a churrasqueira nem devia estar ali, nem devia existir. Mas já que veio no apartamento, deixa ficar – como um canal a cabo que ninguém assiste, mas está incluso no pacote.

Sobre os outros hábitos do homo apartamentus, fica para a próxima coluna. Hora de virar o espeto, antes que a carne queime de vez.

*Marcos Kahtalian é sócio fundador da Brain Inteligência Estratégica

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