Casas antigas com novos usos: uma saída para a conservação do patrimônio

Key Imaguire Jr. discute o fenômeno das casas preservadas com novas funções nas cidades de hoje

Foto: Key Imaguire Jr.

por Key Imaguire Jr.

22/06/2019

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As casas refuncionalizadas

Por essas particularidades que a gente adquire e cultiva ao longo da vida, sempre freqüentei, a trabalho, casas que sobreviveram graças a uma troca de função – e a nova, que lhes foi atribuída, não era residencial.

Orham Pamuk conta, ao mesmo tempo em que organiza o que chama “Museu da Inocência” – memorial ao seu amor perdido – ter visitado pela Europa, casas onde se preservaram as características de vida de personagens culturalmente representativos. Está bem, evidente que o carisma do habitante facilita a ação de conservação. Mas ele é, por definição, um ser carismático, incomum – e é interessante que se preserve, também, a vida de seres, digamos, normais – porque são eles que mostram a vida vivida pela maioria da população.

Assim: um personagem, notável ou não, permeia a vida e a cultura de seu tempo e é possível, na sua casa preservada, fazer essa leitura. Para que o documento que é a Arquitetura possa ser lido, é preciso mais do que os espaços: a mudança de função implica em alterar significados e perturba a compreensão. Quem conhece a casa de Santos Dumont em Petrópolis, entende isso: é a morada de alguém com uma individualidade muito forte, criativa.

Não se pode dizer que essa tarefa esteja sendo negligenciada: alguns testemunhos de casas rurais e populares estão sendo transladados para grandes parques urbanos. Como é evidente, com as coisas da cultura, é com lentidão, sem continuidade apreciável e com insuficiente intensidade. Alguns parques romenos são exemplares nas coleções que abrigam e incluem também arquiteturas de produção, como moinhos de vento. A implantação, em grande parque, favorece o monumento com cenário, ambiente e moldura: em resumo, menos interferências do que em área urbana.

Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

A mesma atenção dada das paredes para fora, deve ser dada para dentro. Entende-se que nem sempre é fácil: na medida em que houve refuncionalização, tem que haver reequipamento. A menos que a nova função seja museu de época, o que nem sempre ocorre e nem sempre é desejável.

Aqui surge mais uma questão: ao longo dos anos, a casa foi sendo alterada. Mesmo os moradores introduziram modificações de uso e conteúdo, com novas necessidades de vida surgidas. É preciso ter critérios – e para isso há normas internacionais bem desenvolvidas – para que a preservação transmita um recado culturalmente válido.

Nesse aspecto, não se pode deixar de admirar a Casa Domingos Nascimento, sede regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A construção do anexo – compativelmente discreta – é quase imperceptível, e nos espaços antigos foram mantidas, de forma impecável, suas características de implantação, translado e manutenção.

A casa de madeira em si é uma das melhores conhecidas, e o uso desgastante como instituição pública, foi amenizado mantendo nela apenas as funções de recepção e distribuição, sala para exposições e pequenas reuniões de trabalho. Ao redor, horta de temperos e canteiros, um amável cão, árvores entre as quais araucárias – que deixam cair, na rampa de acesso, restos de pinhas. Na sala vazia, os painéis de uma exposição fotográfica sobre casas de madeira e, a um canto, a cadeira de balanço de alguma vovó, com a cestinha de tricô ao lado.

É de um refinamento conceitual muito raro de se encontrar. Melhor que isso, estraga…

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