Opinião: incompreensíveis para os humanos, as cidades são aterrorizantes para os animais

Arquiteto e professor Key Imaguire Jr. fala sobre as privações e a angústia que a fauna passa em sua tentativa de adaptação aos centros urbanos

Foto: Divulgação

por Key Imaguire Jr.

17/01/2019

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Há mais de uma vintena de aves diferentes que sobrevoam o espaço aéreo do nosso quintal, e com freqüência pousam – são uma das alegrias das minhas tardes como jardineiro. Além deles, algumas vezes recebemos visitas inesperadas – surpreendentes, mas sempre bem vindas, é claro.

A primeira – havia então, ao lado de casa, um auspicioso terreno vazio. Foi numa madrugada, escutamos ruídos na sala – e desci a escada pé ante pé, esperando flagrar algum rato de duas ou quatro patas. Mas, sobre um móvel, quem me olhava mais assustado do que eu, com sua máscara de Irmão Metralha, era um filhote de gambá. Enxotei-o para o quintal – e na noite seguinte, estava o sujeitinho de novo na lavanderia. Mais tarde, descobrimos que não era o mesmo, mas seu irmão – e que havia toda uma ninhada deles acomodada nas redes guardadas no depósito…

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Muitos anos depois, estávamos na calçada, nos despedindo de familiares que iam viajar – a menina olhou para cima, por acaso, e gritou:

– Olha, mamãe, macaquinhos!!!

Foto: Divulgação

Realmente, passeando calmamente nos fios de luz, toda uma família de sagüis nos olhava, admirada, talvez esperando que fôssemos buscar uma penca de bananas… Aqueles rabos enormes pendurados, aquelas carinhas engraçadas e meio assustadas – discretamente foram se afastando, nós cá com receio de vê-los despencar eletrocutados, mas felizmente nada aconteceu…

O jardineiro subiu agilmente à árvore, para podar uns galhos altos demais. Antes de começar a usar o serrote, exclamou:

– Uh, um porco-espinho!!! Quase que ponho a mão nele!!!

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Dali a pouco, o bicho – realmente, meio grande, alguns quilos de espinhos alinhados para trás como cabelos num vendaval – desceu com a facilidade de um gato pelo tronco e se escondeu numa das moitas de flores do quintal. Quando o jardineiro terminou o serviço e se foi, saiu e subiu de volta na sua árvore – não sabíamos que morava ali e nem por quanto tempo. Provavelmente ficou desgostoso com as alterações feitas sem seu acordo – desapareceu e nunca mais foi visto. No caso, felizmente, porque poderia entrar em disputa territorial com os cães do andar térreo, que sairiam feridos: já aconteceu na vizinhança.

A situação de todos os animais do planeta me causa uma vergonha muito grande de pertencer a essa espécie agressiva, insensível e prepotente dos humanos. Mas esses casos – cada vez mais freqüentes – de animais que vêm morar nessa coisa incompreensível até para nós que as fizemos, as cidades – é mais angustiante. Imagino os terrores, as privações e os sofrimentos dessa tentativa de adaptação.

Por quê não podemos ser mais cordiais, compreensivos, receptivos com esses seres indefesos, inocentes, tão interessantes?

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