Opinião: cidades históricas têm o poder de despertar sonhos e mistérios em nossa imaginação

Colunista Key Imaguire Jr. relata como as cidades antigas são riquíssimas nas evocações que apelam para a ideia de magia

Ouro Preto: cidades históricas e áreas antigas de cidades têm cenários e patrimônios que ensejam sonhos, magias, mistérios em nossa imaginação. Foto: Marialba RG Imaguire

por Key Imaguire Jr.

27/08/2019

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Ilhas do dia anterior

De todas as “Máquinas do Tempo” já inventadas para os gibis, para o cinema e para a literatura – nenhuma causa um desconforto de “coisa possível” como a de Bioy Casares, em “A invenção de Morel”.

Não há uma “porta do tempo”, nem um equipamento no qual as pessoas sentam sob um capacete cheio de conexões com o qual um cientista louco joga o personagem aos dinossauros ou às viagens interestelares, séculos à frente ou séculos para trás.

Na verdade, acho que o autor não se propunha a essa aventura temporal – mas foi lá que chegou. Morel inventou uma máquina capaz de repetir interminavelmente um mesmo período para quem está numa determinada ilha. Percebe-se as dificuldades narrativas para sincronizar todas as situações decorrentes – e ler a novela é um exercício para a capacidade de percorrer um labirinto mantendo a sanidade…

Mas o que impressiona é a inventividade do autor ao lidar com uma sensação recorrente e, parece-me que frequente: aquela que nos sussurra “conheço esse lugar, já estive aqui antes” – quando, racionalmente sabemos da impossibilidade de que isso tenha acontecido.

Acontece muito em cenários densos de vida – cidades antigas, áreas antigas de cidades comuns. Como que captamos a cultura, os acontecimentos, as vivências – que não são nossas, mas parecem ser. Deve haver algum fenômeno nas profundezas do nosso subconsciente que explica o fenômeno, aquela falada sensibilidade pouco conhecida dos nossos cinco sentidos. Não vamos entraraqui no que me parecem explicações fáceis e polêmicas – por mim se trata apenas de nossas antenas que, em determinados cenários, captam mais do que supõe nossa vã filosofia.

E os ambientes mais carregados de vivências, de História, de histórias, favorecem que nos sintamos envolvidos por essas sensações frequentemente melancólicas, porém mais românticas do que qualquer outra coisa. Nos pegam naquilo que faz de um indivíduo, refém de um inconsciente coletivo ou equivalente. Não é o que chamamos comumente de “Patrimônio Cultural”? Para além do plano material das restaurações, revitalizações e resgates, fica mais essa capacidade como cenário dos sonhos.

Nossas cidades antigas – das quais a Vila Rica do Ouro Preto é a mais impressionante – são riquíssimas nessas evocações que nos tentam fazer apelar para a ideia de “magia”. No que não há mal algum – é uma questão de agudeza na percepção ambiental…

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