Opinião: “Com o pó em suspensão na atmosfera perdemos totalmente nosso referencial cósmico”

Arquiteto e professor Key Imaguire Jr. fala sobre como as partículas que pairam no ar mudaram com a evolução das cidades

Foto: Marialba Rg Imaguire / Acervo pessoal.

por Key Imaguire Jr.

23/10/2018

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“Quia pulvis es et in pulveris reverteris” (Genesis 3,19)

Não tratamos aqui do famoso rio do Norte da Itália, tão presente na vida e na literatura dos nascidos na região. Mas daquelas partículas insidiosas que entram pelas frestas das portas e das janelas e infelicitam nossa vida. Referência confiável – e de evidente credibilidade – diz que em porcentagem altíssima, são de borracha. É preciso pensar muito para saber de onde vêm?! Parece-me que seria preferível acumular nos móveis da casa e nos pulmões, aquela poeira das antigas ruas e estradas, das quais as donas de casa reclamavam:

– Quando chove é lama, quando o tempo está seco, é poeira!

Muitas doenças que são atribuídas a fatores diversos, nas nossas empoeiradas cidades, certamente vem por essa via. Vêm montadas no suporte – mais que voador, impossível de ser bloqueado. Não é por obra do acaso que o surgimento de um eletrodoméstico, o aspirador de pó, corresponde ao explosivo crescimento da indústria automobilística.

Por conta do pó em suspensão na atmosfera, perdemos quase totalmente nosso referencial cósmico: nosso céu, quase não tem mais estrelas, a não ser nos sertões, estes em vias de desaparição também…

Aquele céu de paisagem africana – vermelhaço, com o perfil do Kilimanjaro ao fundo, elefantes e girafas passando em primeiro plano – cor evidente que proporcionada pela suspensão de pó em atmosfera muito seca, constatei ser viável em regiões onde o deserto é ainda uma ameaça ambiental.

Foi no início da década de sessenta: chegando ao majestoso Planalto Central Brasileiro, para visitar a recentemente inaugurada Novacap, orgulho maior, entre tantos outros, de todos os bons brasileiros. Ali estava o famoso “céu africano”, só conhecido através dos filmes de aventuras hollywoodianos. Tempos em que a África era o Continente das Aventuras, não da acachapante miséria…

Mas o céu brasiliense era aquilo: vermelho-incêndio no horizonte, esbatendo para tons de laranja, amarelo ouro e azul progressivamente mais escuros, até o negro da noite – estrelada e próxima. Contra esse fundo, já por si extasiante, os volumes brancos impolutos das esculturas arquitetônicas de Niemeyer. Nas áreas ainda não construídas, a silhueta de algumas árvores de cerrado, só tronco e galhos.

Infelizmente, essa paisagem não está mais disponível para as atuais gerações: Brasília tornou-se uma cidade como outra qualquer, ressalvadas algumas áreas de paisagem urbana preservadas. Mas aquele visual, foi suficiente para motivar um adolescente a prestar o vestibular de Arquitetura…

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