Opinião: nossas cidades perderam as referências sonoras mais agradáveis

Colunista Key Imaguire Jr. observa o quanto os sons das antigas fábricas faz falta para o referencial de cidade

por Key Imaguire Jr.

29/04/2019

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Os sons do silêncio

“Quando o apito

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos…”

Para além da genialidade de Noel Rosa, restam poucas referências sonoras agradáveis na nossa vida urbana: aquelas que nos lembram, o mais das vezes e até inconscientemente, do correr desvairado do tempo nas cidades.

E é certo que esses sinais, tanto quanto relógios, calendários e agendas, ajudam a conviver e administrar a presença da impiedosa, implacável entidade Cronos. Houve um escritor – com certeza mineiro – que poetou sobre como, nas antigas e pacatas cidadezinhas, com poucos relógios de pulso ou parede, os sinos das igrejas e casas da câmara ajudavam a administrar a vida em seus compromissos cotidianos: hora de acordar, de alimentar as criações, de almoçar, de preparar a casa para a noite…

O “apito da fábrica de tecidos” com certeza era produzido pelas caldeiras a vapor que movimentavam os teares, e foi substituído pelas desagradáveis sirenas elétricas – alarmantes, assustadoras – e por fim eliminadas pela tirania muda dos relógios ponto… Mas as também chamadas “cigarras” podiam ser um alívio anunciando o fim de uma aula chata no colégio, marcando o início de um rumor muito característico em toda a vizinhança, aquela das crianças brincando num recreio ou intervalo.

>>> A história por trás do moinho que acordava o Bacacheri

Na verdade, nossa vida urbana está sobrecarregada de ruídos agressivos e desagradáveis. A evocação de algumas sinalizações sonoras chega a ter conotação nostálgica. Como Orhan Pamuk mencionando os apitos dos navios trafegando pelo Bósforo na madrugada – ou para nós, talvez a saída da Maria Fumaça das pequenas estações de cidades interioranas, era um referencial para a pontualidade.

Convivemos até mesmo com boas intenções que resultam em tormento, como a música ambiente da qual não se consegue escapar, em elevadores, restaurantes, ônibus, e principalmente, botecos de balada. Pode levar a evitar os ambientes onde essa obrigatoriedade é incontornável.

Perdemos essa referência em nossas existências da pior maneira: submersos no caos sonoro das cidades onde uma legislação pusilânime permite as infernais maquitas, batedores de estacas, tubos sopradores, motosserras, caminhões caçamba que estremecem nossas casas, alarmes disparados e, o pior de tudo, escapamentos de motos e de carros, em tempo integral e intencionalmente anti-sociais, agressivos, infernizantes …

Há quem chame de “arqueologia da era industrial”: os apitos desapareceram, restaram alguns galpões de interessante arquitetura. Custaram investimentos, foram sustentáculos da economia urbana. Raramente sobrevive uma portentosa chaminé, mas mereceriam uma refuncionalização para inserção em novas atividades. Nem tudo o que é sólido, tem que desaparecer no ar…

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