Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE| Foto:

Cândido Ferreira de Abreu contava 40 anos, quando, acredita-se, começou a ser construído o Palacete Leão Jr. Entre um mandato e outro como prefeito de Curitiba (1892-1893 e 1913-1916), dedicou-se, a pedido da irmã, Maria Clara Abreu de Leão, ao projeto da residência em que ela viveria com o marido, Agostinho Ermelino de Leão Jr.

O momento não poderia ser mais propício: os negócios da família iam bem, a erva-mate vivia seu auge no Paraná e os Leão precisavam de uma nova residência, uma que refletisse o esplendor daquela fase. Também era um bom momento para o próprio Cândido de Abreu: reflexo da recente Revolução Industrial, na Europa, a demanda por arquitetos vinha sendo substituída pelo olhar dos engenheiros, profissão que ganhava projeção no país.

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Com pouco mais de uma década de formado, Cândido acumulava já uma vasta experiência, tendo participado da construção da icônica estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, da diretoria de obras públicas da província do Paraná e da construção de Belo Horizonte.

O ex-prefeito e engenheiro Cândido de Abreu em evento no Palacete dos Leões, projetado por ele. Foto: Acervo Cassiana Lacerda
O ex-prefeito e engenheiro Cândido de Abreu em evento no Palacete dos Leões, projetado por ele. Foto: Acervo Cassiana Lacerda

Foi na então novíssima capital mineira que o engenheiro foi exposto ao vocabulário do ecletismo, que trouxe para suas obras residenciais no Paraná, conforme explica a arquiteta Giceli Portela, professora de Patrimônio e Restauro da UTFPR.

“Cândido de Abreu foi o grande mestre que, imerso na arquitetura parisiense, transportou para Curitiba desenhos influenciados pela Escola de Beaux Arts de Paris. Formado na escola Politécnica no Rio de Janeiro, o engenheiro recebia todas as influências da escola francesa, pois era o momento em que a capital do Brasil também desejava os ares da arquitetura Haussmann, implantada em Paris”.

O ecletismo que marcou o país na virada do século 19 para o 20 reunia influências e características de diversas outros países e escolas, entre elas o barroco, o gótico e o neoclássico. “Não se trata de um estilo, mas uma maneira de construir que permite uma convivência entre estilos e desenhos de épocas e origens diferentes, como podemos verificar nas inúmeras obras do início do século em Curitiba, das singelas residências até monumentos históricos”, reforça a professora.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE

Essa convivência harmônica dos diferentes é característica essencial da arquitetura do Palacete dos Leões assinado pelo engenheiro. Pioneira, a construção, que há 15 anos abriga o Espaço Cultural BRDE, criou tendência entre as residências que vieram depois dela, contribuindo para uma verdadeira transformação na paisagem urbana da cidade. “Curitiba estava saindo da aparência colonial luso-brasileira, aquele casario branco, casa caiada uma do lado da outra, e começou a ter impulso na construção civil. Já havia construtores, alguns prédios já se destacavam, como a Santa Casa e alguns sobrados pelo centro”, conta o historiador e diretor de patrimônio da Prefeitura de Curitiba, Marcelo Sutil.

Novos modos de construir

A presença de engenheiros na construção de residências não é o único indício de que o Brasil vivia uma fase de forte mecanização. A estética, as funcionalidades e os materiais utilizados na época ajudam a evidenciar a grande transformação pela qual se passava naquele momento, muitas delas bastante evidentes na maneira como o Palacete Leão Jr. foi planejado.

“O palacete e a Mansão das Rosas, ou alguns palacetes do Batel, como os da família Miró nos fundos do Shopping Crystal, começaram a ser construídos aproveitando esse momento em que novas técnicas construtivas estavam começando a ser usadas - calhas, dutos e o ferro começou a ser empregado”, explica Marcelo.

Foto: Ascom/BRDE
Foto: Ascom/BRDE

Na arquitetura do palacete, os gradis de ferro que cercam as minissacadas em cada uma das nove janelas laterais, bem como as colunas de ferro que dão sustentação ao teto do saguão de entrada lateral, ilustram a presença forte desse elemento.

Na cobertura, as telhas de barro são escondidas por uma platibanda vazada, outro recurso bastante inovador para a época. Até então, as casas eram construídas de maneira a afastar a água da chuva das paredes, que eram de barro. Com a chegada dos tijolos, produzidos em maior escala, esse recurso já não era mais necessário, por isso a platibanda.

Foto: Adriano Mansur
Foto: Adriano Mansur

A possibilidade financeira de contratar os melhores profissionais, viajar e trazer projetos do exterior, segundo Marcelo, transformaram o ofício de construir. “Essa arquitetura era parte de um processo que vinha da Europa em que há uma ascensão econômica da burguesia que enriqueceu com o comércio e com as indústrias”.

Produzir em série e reproduzir modelos e padrões também eram uma inovação para a época, já que até então a decoração era bastante artesanal. A repetição caracterizava modernidade, que, no Palacete Leão Jr., aparecia nas sacadas e na decoração sob elas, com conchas e leões, na platibanda, nas compoteiras do telhado, e também nas belíssimas pinturas a estêncil nas paredes e no teto de estuque.

Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE
Foto: Guilherme Pupo/ Divulgação BRDE| Guilherme Pupo

Juntos, todos esses elementos compunham não apenas um retrato do ecletismo, mas também um retrato do momento de ouro vivido pela sociedade local da época: o ouro verde. “Esta obra em especial propõe uma composição harmônica, com simetrias e proporções elegantes, requintadas na medida certa. Vivíamos o esplendor do ciclo da erva-mate, não seria diferente se não houvesse uma obra que testemunhasse a vida da família ervateira”, complementa Giceli.

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