Conheça três histórias de colecionadores e seus acervos incríveis

Coleções que crescem ao longo de uma vida ganham destaque na decoração de cantinhos especiais da casa

Fotos: Fred Kendi/Gazeta do Povo – Letícia Akemi/Gazeta do Povo

por Mariana Sanchez

24/12/2015

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Toda casa é uma espécie de museu particular, um espaço onde expomos objetos que contam nossa história e revelam quem somos. Mas há quem se dedique mais seriamente a reunir esses tesouros. Pode começar movida por diferentes situações, o gosto por um objeto, lembranças de família ou até um modismo. O mais interessante é poder expor essas coleções em casa de forma que passem a compor a decoração de forma singela e harmônica, revelando a alma do morador.

Promessa e devoção
O estilista paranaense Silmar Antonio Alves, 51 anos, conta que sua primeira coleção foi iniciada já no segundo dia de vida. Para conter uma febre alta que o deixou entre a vida e a morte, sua mãe fez uma promessa a Santo Antônio: se o bebê sobrevivesse, levaria seu nome. Desde então, Alves vem colecionando imagens, velas, estátuas, relicários e toda sorte de representações do santo “casamenteiro”. Já são mais de 50, todos dispostos em prateleiras na sala de casa. “Gosto de tê-los por perto. Quando preciso de paz espiritual, sinto-me protegido só de olhar para eles”, diz o também professor e consultor do Senai. Todo dia 13 de junho ele compra um novo na festa de Santo Antônio, “sempre de um material, modelo ou tamanho diferente”, mas as peças de maior valor afetivo são as que ganhou – a primeira da mãe, a segunda de uma amiga, pelo seu aniversário.

O estilista mantém outras coleções, de pinguins de geladeira a objetos holandeses. A mais numerosa, porém, é a de dedais de costura. São mais de 500 de vários cantos do mundo, expostos em nichos na parede da sala. “Sempre tive dedais, mas eram simplesinhos. Até eu ganhar um todo estampado trazido de Nova York por uma amiga, nos anos 1980”, lembra. O queridinho da coleção é um conjunto de cinco dedais comemorativos do casamento da princesa Diana, mas Silmar também adora os poloneses de madeira entalhada a mão, imitando bonecas “babushkas”. “Posso ser consumista, mas nunca um acumulador, pois quem coleciona consome pela necessidade de estar impregnado daquilo que o toca”, filosofa. Silmar também acredita que expor uma coleção – ao invés de guardá-la – é uma forma de mostrar sua história, referências e as escolhas que fez na vida. “Elas refletem o que sou e minha identidade. É como uma marca.”

O Santo Antônio feito de solda com restos de peças automotivas é um dos xodós da coleção de Silmar Alves. Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

O Santo Antônio feito de solda com restos de peças automotivas é um dos xodós da coleção de Silmar Alves. Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

Reflexos no espelho
A curitibana Alessandra Lange, 39 anos, conviveu intimamente com espelhos durante mais de 20 anos. Bailarina profissional, integrou o Balé Teatro Guaíra de 2002 até este ano, quando se tornou fisioterapeuta da companhia. “Um estúdio de dança é uma sala rodeada de espelhos, mas nunca fui muito vaidosa nem ligada a estes objetos. Em casa, mesmo, não tenho nenhum de corpo inteiro”, revela. A coleção de espelhinhos começou por acaso. “Mudei há dois anos para um apartamento novo, no Ahú, e ganhei de presente um trio de espelhos que coloquei na parede do corredor. Depois, comprei outro que achei bonito e passei a ganhar de todo mundo que vinha me visitar”, lembra. Hoje, são mais de 20 com formatos, cores e estilos diferentes, dos mais simples aos rebuscados, como os que as amigas trouxeram de presente quando voltaram da Espanha. “A ideia é colecionar aqueles que vou ganhando, mas isso não impede que eu compre um ou outro. A questão não é ficar procurando. Porém, se aparecerem por acaso, acho que faz sentido comprá-los para integrar a coleção. O importante é terem algo especial para mim”, define.

A parede de espelhinhos dá o charme da decoração na casa da bailarina Alessandra Lange. Fred Kendi/Gazeta do Povo.

A parede de espelhinhos dá o charme da decoração na casa da bailarina Alessandra Lange. Fred Kendi/Gazeta do Povo.

Ondas sonoras
Em seu apartamento no centro de Curitiba, Horácio Tomizawa De Bonis vive imerso à música. Ex-dono de uma loja de discos e hoje consultor musical, mantém um acervo de cerca de cinco mil títulos, entre CDs e vinis, organizados em ordem alfabética por nome de artista. A coleção teve início nos anos 1980 com um álbum da banda britânica King Crimson e outro dos holandeses da Focus, pagos com seu primeiro salário. “Todo sábado eu saía para comprar discos nas galerias de São Paulo, onde morava. Quando cheguei a mil títulos, senti que era um colecionador. Aí, larguei o emprego e abri uma loja de discos, mas fiz uma reserva técnica e salvei meus preferidos”, conta o paulistano, que recebe os clientes em casa, por agendamento.

Ainda que a música seja algo imaterial, Haorácio faz questão da sua presença física. “As capas dos vinis são uma plataforma para a arte. Mesmo que você não tenha uma obra original do Andy Warhol, pode ter um disco com uma capa criada por ele, como o Sticky Fingers dos Rolling Stones”, ilustra. Uma cortina com ilustrações de roqueiros, pôsteres e singles emoldurados, além de uma série de quadros com capas desenhadas nos anos 1950 pelo ilustrador Don Martin compõem o décor do apartamento-escritório, repleto de objetos e móveis vintage da marca Cimo. Hoje, Horácio garante que não faz mais loucuras para manter a coleção viva, já que a maioria das novas encomendas são destinadas à clientela. “Só fico com o que realmente gosto ou será difícil encontrar de novo. Mas tem coisas que a gente perde e depois recupera”, diz, tranquilo.

Música e artigos vintage compõem o cenário do apartamento de Horácio De Bonis. Fred Kendi/Gazeta do Povo.

Música e artigos vintage compõem o cenário do apartamento de Horácio De Bonis. Fred Kendi/Gazeta do Povo.

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