Hotel que já foi o mais luxuoso do Brasil e hospedou Walt Disney está aberto para visitação

Decoração ousada, dramática e exuberante foi criada pela estrela de Hollywood Dorothy Draper, considerada a primeira decoradora profissional da história

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

por Isabela Starepravo*

07/08/2019

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Dorothy Draper é considerada a primeira decoradora profissional da história, fundando em 1923 a primeira empresa de design de interiores (empresa que existe até hoje). Numa época que pouquíssimas mulheres trabalhavam, ela estava administrando sua própria companhia. Seu aprendiz Carleton Varney escreveu sua biografia “In the Pink” cunhando o termo “the Draper Touch”, algo como “o toque Draper”, ela inventou o estilo Barroco Moderno, combinando cores inusitadas, gessos ricamente ornamentados e outros elementos que formavam seu estilo dramático e exuberante.

Sua história no Brasil se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Quando todo o mundo estava em guerra, o empresário brasileiro Joaquim Rolla estava construindo o hotel mais luxuoso do Brasil em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Nessa época Dorothy já era famosa e trabalhava com cenografia nos musicais e filmes de Hollywood. A década de 40 foi marcada pelo cinza que refletia os sentimentos da Grande Guerra. Porém Draper não seguiu esse padrão e decorou o Hotel Casino Quitandinha com cores vibrantes, mármores cortados a mão, verdadeiras obras de arte em gesso, espelhos de cristais franceses e lustres de mais de meia tonelada.

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

O Quitandinha recebeu pessoas ilustres como Walt Disney e Esther Williams, a Sereia de Hollywood, e a decoração deveria estar a altura desses convidados. Cada ambiente foi cuidadosamente pensado para fazer os convidados e hóspedes se sentirem confortáveis e maravilhados com os espacços do hotel. Todos os ambientes foram pensados para celebrar a natureza brasileira com elementos de mar e florestas. Alguns espaços decorados pela designer merecem descrições mais detalhadas.

Hall monumental

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

O hall que precede o teatro e o Salão Mauá já exala toda a veia hollywoodiana de Draper. O piso em granito italiano preto tem desenhos florais feitos em mármore Carrara, candelabros com figuras que lembram cavalos marinhos, lustres com estrelas do mar e duas ondas gigantes, em gesso, em cada lado da escada que levava para o subsolo do hotel fazem um estilo rococó, mas com muito tropicalismo ao ambiente.

Teatro Quitandinha

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

Aqui o “Draper Touch” se torna bem evidente. As cadeiras feitas de jacarandá eram cor de rosa e com formas curvas trazendo leveza e ampliando o espaço. A capacidade é de 1000 espectadores e os elementos tropicais como luminárias em formatos de algas e cavalos marinhos, e uma imensa concha em cima do palco também estão presentes. Além disso o teatro possuía três palcos giratórios, mecanismo que só o Teatro de Manaus tinha no Brasil, sendo o cenário perfeito para peças e musicais extravagantes.

Salão Mauá

Era onde o casino estava instalado. O ambiente se destaca pela cúpula de 51 metros de circunferência, sendo um marco da engenharia na América do Sul. O ambiente é todo em tons de azul e originalmente o piso era de cortiça, com imensas cortinas de veludo vermelho e estrelas metálicas no teto. Tudo isso contribui para o incrível eco que o salão possui perfeito para um ambiente de jogo.

Galeria das Estrelas

Esse imenso corredor ligava o hall monumental ao café concerto, a piscina e ao jardim de inverno. O que mais chama atenção são os imensos lustres Moravian Star em forma de estrelas fabricados pela Tiffany. A galeria possui vitrines que nos tempos áureos do hotel exibiam joias para venda.

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

Café Concerto

Esse ambiente, também chamado de boate, foi planejado para receber festas menores. Getúlio Vargas chegou a fazer festas no café. O jogo de espelhos permite que se veja o que acontece no palco mesmo quando se está de costas para ele e a decoração do bar com folhagens e as cadeiras verdes dão o toque tropical ao ambiente.

Jardim de Inverno

No centro do espaço todo verde há um imenso viveiro que continha aves e plantas brasileiras para que os hóspedes estrangeiros pudessem se sentir na Mata Atlântica.

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

Piscina térmica

A piscina é ao lado do Jardim de Inverno. Feita para que o hóspede se sinta no fundo do mar contrastando com a floresta do cômodo adjacente. Foi a primeira piscina aquecida do Brasil, possibilitando que os hóspedes a desfrutassem mesmo nos dias mais frios da região serrana. As paredes tem pinturas de animais marinhos feitas pelo artista Santa Rosa que se inspirou no livro “20.000 léguas submarinas” de Julio Verne. A profundidade da piscina varia de 1,05 m a 4,05 m e foi inaugurada pela estrela do nado sincronizado e filmes de Hollywood, Esther Williams.

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

Galeria Brasil

A galeria ganhou esse nome pois era decorada por obras de arte que retratam o Rio de Janeiro. O mobiliário, estamparia e objetos de decoração foram desenvolvidos pela própria Dorothy Draper.

Com a proibição dos cassinos em 1946, o Quitandinha começou a encontrar dificuldades para sustentar todo o seu luxo. Passou a receber diversos eventos como bailes de formaturas, carnaval e alguns de mais destaque, como a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro, que viria a se tornar a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Fotos: Sesc Rio/Divulgação

Em 1963 Rolla vendeu o hotel para um grupo empresarial de São Paulo. Os quartos, que contam com cozinha, foram vendidos e hoje funcionam como studios e pertencem a particulares.

Em 2007 o Serviço Social do Comércio do Rio de Janeiro (Sesc Rio) adquiriu a parte comum do prédio (salões e área de lazer) e o transformou em ponto turístico de Petrópolis. Ainda ocorrem shows, concertos e montagens de peças no Teatro e no Café Concerto.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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