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Cores fortes e luminárias gigantes marcaram a presença de Laura Gonzalez no Maison&Objet 2019. Foto: Divulgação
Cores fortes e luminárias gigantes marcaram a presença de Laura Gonzalez no Maison&Objet 2019. Foto: Divulgação| Foto:

A estética do excesso sempre esteve por aí. Desde os anos 70, vários segmentos das artes adotaram o maximalismo como um estilo pautado pela heterogeneidade, complexidade e justaposição, celebrando a riqueza de detalhes.

Há alguns anos, porém, o estilo ficou em segundo plano, com a ascensão do minimalismo e dos demais conceitos do morar que prezam por linhas retas, cores suaves e ambientes clean. Mas ele nunca deixou de existir: lado a lado, as duas propostas persistiram ao longo do tempo, com foco em públicos distintos.

“O maximalismo não é uma tendência, uma coisa genérica e geral. Ele é para um perfil de pessoa: quem tem coleções, gosta de cor, é para quem não tem medo ou problemas em misturar peças”, explica Sig Bergamin, arquiteto e decorador brasileiro referência no estilo.

Para ilustrar, ele conta que seu escritório, por exemplo, é mais minimalista, posto que o foco está na atenção plena ao trabalho: paredes brancas, acessórios pontuais e poucos toques de cor. Mas em casa (na sua e naquelas que decora) a proposta é outra — em cada detalhe, a vontade de imprimir sua personalidade e contar histórias é o que pauta suas decisões criativas, que correm soltas, sem limites.

A mistura de estampas e cores é uma marca dos projetos de Sig Bergamin, arquiteto e designer brasileiro ícone do estilo maximalista. Foto: Cris Edwards/ Divulgação
A mistura de estampas e cores é uma marca dos projetos de Sig Bergamin, arquiteto e designer brasileiro ícone do estilo maximalista. Foto: Cris Edwards/ Divulgação

De volta à cena

Em 2019, as feiras de design mais importantes do mundo, como a Casa Decór, em Madrid, a Maison & Objet, em Paris, e a Semana de Design de Milão, deixaram uma clara mensagem: o maximalismo ganhou força e hoje ressurge com um novo olhar que preza, sobretudo, por trazer mais personalidade em contraponto a certa homogeneização dos ambientes.

A expert em tendências e mercado Juliana Giamberardino Zaruch destaca que o estilo vem despontando há cerca de quatro anos, impulsionado principalmente pelo que ela chama de “volta às origens”.

Em um processo pós-globalização, o resgate de histórias pessoais e únicas por meio de objetos — que elevou o termo “afetivo” para definir parte das tendências de consumo — faz com que busquemos na mobília da família, nos garimpos e nos produtos artesanais os objetos que vão, com apelo à memória, ornamentar os cômodos.

Na constituição desse ambiente, em que há espaço para o antigo conviver com o novo, quem já tem uma predisposição para a ousadia enxerga a oportunidade de potencializar esse conceito. “Eu acho que quando você chega ao maximalismo é porque já foi minimalista. Você já provou que misturou tudo e deu certo”, comenta Sig.

Coroada como designer do ano da Maison & Objet 2019, a francesa Laura Gonzalez destacou-se justamente por conta do seu olhar eclético, excessivo e ousado: a cara do maximalismo. Com ascendência espanhola, italiana e alemã, ela define seu estilo como uma extensão dessa mistura de culturas que representa sua família. Para ela, o discurso
do maximalismo está alinhado às ideias do rococó, estilo parisiense de 1720. “Você tem que ousar e assumir as misturas, reencontrar o ‘decorativo’, conceito herdado do universo do século XVII”, comenta.

Assim como o rococó, que já foi considerado “excessivo e degenerado” pelo historiador de arte Winckelmann, o maximalismo também habita a sutil fronteira entre o bom e o mau gosto, o excêntrico e o kitsch. Como encontrar o equilíbrio? Laura responde: “É uma questão de estado de espírito, sensibilidade e bom gosto.” Já para Sig Bergamin, a fórmula é mais democrática — basta não ter medo de arriscar.

Maximalismo sustentável

Embalado por um contexto de sustentabilidade, o excesso parece não ter vez. Como resultado, a ascensão do minimalismo ditou tendência, e a estética trouxe junto a si as pautas ambientais e o discurso do movimento slow: menos é mais. Mas, repaginada, a filosofia maximalista não se opõe à base sustentável levantada pelo minimalismo.

Quando pensada a partir do garimpo de peças usadas, da reforma de móveis antigos e das ideias do do it yourself (“faça você mesmo”, em inglês), o maximalismo se porta, na prática, tão amigável quanto o minimalismo — com a diferença de que, ao invés de estimular o desapego, você vai lançar um novo olhar sobre seus objetos, de forma a construir um ambiente rico em significado.

“Embora o minimalismo seja admirável na forma como detém o consumismo, acho que o maximalismo permite que a personalidade e a ousadia brilhem. Incentiva um verdadeiro senso de si, orgulhando-se dele e permitindo que isso permeie sua casa”, defende a designer de interiores norte-americana Charlotte Lucas, conhecida pelo estilo notadamente maximalista em projetos residenciais.

“O maximalismo de bom gosto requer intenção. Trata-se de emparelhar decoração, padrões e cores significativas para dar vida à sala e contar uma história. Excesso para mim é quando há uma abundância de itens e muita coisa acontecendo, mas que não parecem coeso ou intencional”, explica em entrevista
para HAUS.

O mesmo vale para quem deseja economia financeira: minimalismo não é sinônimo de menos gastos, assim como maximalismo não significa exuberância de custos. Sig costuma dar várias dicas que vão desde o reaproveitamento de embalagens metálicas, o uso de garrafas de vinho, cestas e muitos outros objetos que geralmente já existem em casa ou podem ser facilmente encontrados em feiras de artesanato, antiquários ou, ainda, feitos à mão, como sugere Charlotte.

“Uma coisa que aprendi é que, se você não consegue encontrar a peça que deseja, quase sempre pode criá-la. Ao encontrar tecidos crus, reaproveitar móveis antigos e simplesmente usar sua imaginação, você pode criar algo especial e bonito por um preço muito melhor”, diz a designer.

Combinar?

Entre as perguntas que Sig, Laura e Charlotte mais recebem está: como fazer um ambiente maximalista em que as coisas combinem entre si? Para Bergamin, essa pergunta não cabe ao estilo. “No maximalismo não existe a frase ‘vamos combinar’. Você mistura tudo”, comenta. A proposta é justamente se aventurar em uma decoração que subverta qualquer limitação estilística: o único comprometimento é com sua personalidade e com a geografia do local, conceito importante nos trabalhos do arquiteto. “Uma casa que está na praia, na Bahia, é diferente de uma casa de São Paulo. E as pessoas ultimamente têm feito coisas todas iguais: ficou uma febre meio que de showroom. Todo mundo tem uma casa crua, cinza, independente do lugar”, lembra Sig.

A perspectiva é encarar a paisagem como parte da casa — em uma cidade cinza, as cores são muito bem-vindas; na praia, onde o mar ajuda a preencher a decoração, os elementos podem ser mais neutros — além da temperatura. É ela que definirá os materiais e texturas utilizados na decoração. “A geografia pede. No interior ou no exterior, ela é a coisa mais importante”, pontua Bergamin.

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