Uma das maiores especialistas brasileiras revela o “poderoso efeito comunicador” das cores

Em entrevista exclusiva à HAUS, Blanca Lliahnne comenta sobre o significado das cores e explica como e por que a Pantone elege uma cor do ano desde a virada do milênio

Foto: Alex Rosa/Divulgação

por Sharon Abdalla

18/12/2018

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Trazer para o mundo físico aquilo que a mente imagina nem sempre é tarefa fácil. No que se refere às cores, por exemplo, por mais simples que possa soar para os leigos, definir o tom exato de uma cor ou harmonizar uma paleta exige olhar treinado e uma expertise comum a poucos. Isso porque qualquer porcentual a mais ou a menos de determinado tom na fórmula que materializa as cores nos objetos pode criar ruído na mensagem que se deseja transmitir, uma vez que a cor tem um “poderoso efeito comunicador”.

Quem afirma é Blanca Lliahnne, especialista em cores e CEO da Lexus Groupe, distribuidor master da Pantone no Brasil há mais de vinte anos. Responsável por editar a cor do ano desde 2000, a marca é uma das principais referências mundiais quando o assunto são as tendências e as técnicas referentes às cores.

Fotos: Pantone/Divulgação

Depois do Ultraviolet, que trouxe o ar místico e de contracultura para o mundo da moda e da decoração, a aposta da marca-guru das cores é no Living Coral, anunciado no último dia 06 de dezembro como a cor do ano para 2019. A tonalidade remete à necessidade de experiências autênticas e imersivas no cotidiano dos indivíduos modernos, em contrapartida “às investidas devastadoras da tecnologia digital, simbolizando nossa necessidade inata de otimismo e atividades alegres”, como descreve a marca em comunicado oficial.

Conte-nos sobre a trajetória que fez da Lexus a distribuidora master da Pantone no Brasil.

No final dos anos 1980 eu já trabalhava com tendências, já tinha diversos sucessos na minha carreira como estilista de moda, além de ser formada em Administração de Empresas. Então, quis abrir uma empresa dedicada aos designers e estilistas, trazendo as informações que são importantes para eles, principalmente porque já tinha tido esta experiência.

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Em 1986 eu ajudei a introduzir o lançamento da linha têxtil da Pantone. Em 1994, estive com os dirigentes da marca em New Jersey, nos Estados Unidos, e pedi para fazermos um contrato de distribuição, pois já trabalhava com os produtos e queria ser o distribuidor direto no Brasil. Isso em uma época em que [a Pantone] ainda não era tão conhecida, como ocorre hoje. Nosso grande trabalho foi transformar a Pantone em um produto necessário. [Ele] contribuiu para que a marca passasse a ter valor e fosse reconhecida no Brasil.

O que levou a Pantone a eleger uma cor do ano a partir do ano 2000?

Isso ocorreu muito por causa do bug do milênio, que foi uma grande ameaça de perda de todos os dados digitalizados que existiam no mundo. Esse grande medo criou uma preocupação que só iria terminar com a virada do ano. Somente no momento em que o ‘99’ virasse ‘00’ como data nós teríamos certeza sobre o [impacto que] o bug do milênio [causaria]. Muitas ações foram tomadas, mas ninguém tinha certeza [sobre o que iria acontecer].

Essa foi uma comoção mundial, o que é uma das prerrogativas para uma cor do ano ser selecionada, ou seja, que ela tenha uma ressonância mundial. Neste caso, a Pantone Color Institute lançou a Cerulean, a primeira cor do ano, chamada de “Cor do Milênio’, que é um azul clarinho, como a cor do céu. Ela trazia a mensagem de que as pessoas se tranquilizassem porque tudo iria sair da melhor forma e o resultado final seria muito positivo, como realmente foi. A Cerulean também tem essa mensagem de que todos nós, em desespero, olhamos para o céu, buscando em seu azul a tranquilidade, a paz, a proteção e a serenidade necessárias para se ultrapassar tempos difíceis.

A partir de então, a Pantone nunca mais deixou de editar uma cor do ano. Aqui no Brasil, foi a partir da edição da cor Marsala, em 2015, que as pessoas começaram a identificá-la como um poderoso efeito comunicador.

Como foi recebida esta primeira cor do ano?

Naquela época a Pantone não era uma marca reconhecida por todos. Ainda não havia produtos de consumo com a marca Pantone. Então, foram principalmente as comunidades de designers e de fashionistas que adotaram imediatamente esta cor pelo símbolo e pelo grande alívio de que nada aconteceu. Hoje, todo mundo que trabalha [no universo da moda, design e decoração] sabe qual é a cor do ano.

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E o que ela significa, exatamente? Como é escolhida?

A cor do ano não tem um objetivo comercial. Ela tem o objetivo de inspirar, e por isso ela tem que ressoar o momento da humanidade como um todo, o mundo todo naquele ano. As pessoas sempre me perguntam: “mas como [a Pantone] consegue isso?”. Através de muitos observadores, coolhunters que tem pelo mundo, que vão em busca desses sinais que mostram o momento, o que é importante para todo o mundo. A mobilidade urbana, sustentabilidade, segurança, liberdade dos gêneros, direitos humanos. Todos esses são exemplos de questões que ressoam para todos. Essas questões são levantadas pelos nossos estudiosos que percorrem o mundo analisando as tendências macro. Então, a base de inteligência da Pantone se reúne e define um caminho. Todas as avaliações que eles fazem são consideradas pela equipe central do Pantone Color Institute, que toma as decisões baseadas nelas. O único critério é que ressoe no mundo todo.

Certa vez você disse que, ao mesmo tempo, as cores afetam emocionalmente e racionalmente as pessoas. Pode comentar esta afirmação?

Há mais de 30 anos eu trabalho no mundo da cor e acabei percebendo que as pessoas escolhem cores de forma aleatória. A parte da escolha é emocional. Mas no momento em que eu, profissional, tenho que aplicar esta cor no meu mundo físico, passo a racionalizar esta escolha. Ou seja, nenhuma escolha é somente emocional. Quando um profissional que lida com o campo decisório das cores precisa aplicar aquela escolha emocional a qual ele também está sujeito, ele precisa e vai usar suas ferramentas racionais para implantar aquela escolha no seu mercado ou no seu mundo.

Por que, mesmo as cores sendo algo orgânico, elas são tão complexas e não é tarefa fácil compreendê-las ou usá-las no dia a dia?

A cor tem uma complexidade humana muito grande porque nós somos afetados por elas de uma forma que eu chamo de orgânica, por ser sutil e incontrolável. Somos afetados pelas cores até mesmo devido a como nosso organismo funciona. Pessoas que têm problemas digestivos costumam não gostar do amarelo. Pessoas muito irritáveis não deveriam usar vermelho. Pessoas depressivas, por sua vez, não deveriam usar ou estar em ambientes azuis. E isso são estudos, há um protocolo confirmado. Se soubermos a química das cores podemos usá-las a nosso favor.

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Em suas palestras, você costuma falar sobre a democratização das cores em temas referentes a gênero e luxo, por exemplo, tão caros à vida contemporânea. Pode comentar?

Isso é uma macrotendência nova, que vemos efetivada para 2019, e que já começou com algumas marcas de automóveis que estão usando a mesma cor para carros populares e de luxo com grande aceitação para ambos os lados. Ou seja, as pessoas não se incomodam mais de dividir as atenções de uma cor entre públicos muito diferentes, [como ocorria antigamente], quando a cor era muito mais uma ferramenta de distinção do que de democratização. Isso é muito bacana e tem a ver com este movimento mundial de haver menos diferenças, porque, afinal, somos todos semelhantes. É um movimento macro no sentido de saber lidar e diminuir as diferenças, e de alertar para que a cor seja essa ferramenta de democratização.

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