Designer israelense desponta no cenário internacional valorizando a imperfeição dos materiais

Alon Dodo prioriza o uso de materiais como madeira, cimento e latão para criar peças orgânicas e originais em seu ateliê nos arredores de Tel-Aviv

O designer israelense Alon Dodo. Foto: Divulgação

por Fernanda Massarotto *

04/01/2020

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Autodidata. Designer. Carpinteiro. O israelense Alon Dodo é tudo isso e mais um pouco. O diploma de Ciências Políticas está na gaveta de um dos tantos móveis que ele vem fabricando com a ajuda de um time de artesãos. “A minha marca nasceu há 12 anos. Mas eu já nasci carpinteiro e virei designer”, brinca ele, que na infância chegou a construir brinquedos e até pranchas de surf. “Fui fascinado por design e arquitetura desde muito pequeno. Tinha muita curiosidade em aprender como os artistas faziam para combinar formas, materiais e cores e transformar tudo isso em objetos”, conta.

E o que era curiosidade e admiração em relação ao trabalho de profissionais como Sérgio Rodrigues e os Irmãos Campana virou profissão. Um banco de carvalho todo perfurado à mão marcou o debuto do carpinteiro no mundo do design. “Foi a primeira peça da minha primeira coleção”, lembra ele. Hoje, aos 43 anos, Alon Dodo ganhou reconhecimento internacional e do seu escritório-laboratório, localizado no distrito industrial de Emek Hefer, a 50 minutos do centro de Tel-Aviv, produz 120 peças anualmente. São mesas, cadeiras, aparadores, escrivaninhas, camas e acessórios, como espelhos. Tudo rigorosamente feito à mão.

Foto: Divulgação

O trabalho manual e a integridade da matéria-prima conferem caráter e alma às suas criações, nas quais emprega técnicas artesanais tradicionais. “A perfeição da imperfeição é minha filosofia. Abraço os defeitos dos materiais que, no fundo, contam uma história”, explica o artesão, que adotou um processo criativo muito simples: o de desenhar tudo no papel, indo contra grande parte de seus colegas, que usam programas de computadores ou protótipos. “Muitas vezes, eu tenho uma ideia à noite e no dia seguinte construo o móvel. Chego a passar onze horas fechado no meu galpão”, conta Dodo.

As fontes de inspiração, por sua vez, são variadas. Tudo ao seu redor pode acabar influenciando a criação de um novo objeto. Não há uma regra fixa. Na sua última coleção, Flying Carpet, as superfícies das peças, em especial das mesas e cadeiras, fazem alusão às ondas do mar. Confeccionados em carvalho em tons claros e escuros, os móveis apresentam um reconhecível detalhe decorativo, marca registrada do israelenses: tiras de metal (latão) que se transformam em um espécie de curativo, servindo para reparar fissuras naturais da madeira, impedindo que possa se expandir.

Detalhe em metal no banco da coleção Flying Carpet. Foto: Divulgação

“Gosto de fabricar peças que choquem à primeira vista. Sei que depois de observá-las e tocá-las, a sensação é de completa surpresa”, revela o artesão israelense que chega a levar até três semanas para produzir um único móvel, com preço médio entre US$ 3 mil e US$ 8 mil. “Acredito que meu design seja simples e sofisticado ao mesmo tempo”, avalia.

Madeira, mármore, concreto, cobre e couro

A combinação de materiais é significativa nas obras do israelense tanto quanto o senso lúdico. “Uso de tudo. Madeira, mármore, cimento, vidro, latão, bronze e até couro. E, em algumas peças, gosto de brincar com as formas”, diz ele que, há três anos, usou técnicas de artesanato local para dar vida a um aparador batizado de Concrete Credenza. A peça é impactante: a base e as pernas em madeira (carvalho), as portas de concreto e os puxadores em aço pintado.

Aparador Concrete Credenza. Foto: Divulgação

Outra criação de grande apelo é a escrivaninha Desk 53. Sofisticado, o móvel é um jogo de esconde-esconde artesanal. Toda em madeira, ela possui compartimentos embutidos na própria base para guardar todo o tipo de material de escritório. “Usei o couro para revestir as gavetas e também em uma parte do tampo. Usei ripas para criar um ziguezague entre os pés”, descreve o designer. “Também gosto de adicionar detalhes como, por exemplo, deixar cair tinta propositalmente na superfície. Um recurso ornamental que usei na coleção Stain [Mancha]. Ou também a pirografia, a arte de queimar a madeira, com a qual decorei com estampas e grafismos as peças da linha Scars [Cicatrizes]”, completa.

Único e original, o trabalho de Alan Dodo vem despertando grande interesse em todo o mundo, tanto que a produção tende a aumentar em 2020. “Além dos modelos padrões, tenho feito móveis sob medida e até customização de acordo com as exigências do cliente”, diz ele, que comercializa suas peças por meio do Pamono, uma plataforma online especializada em objetos de design exclusivos.

Disorder Bed. Foto: Divulgação

Para o futuro, os projetos envolvem continuar desenho e criando obras artesanais. “E, é claro, dormir um pouco mais”, comenta em tom de brincadeira o israelense.

*Especial para Haus, direto de Milão, na Itália.

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