Inédito tecido de folhas é destaque em móveis criados por designers brasileiros

Coleção "Outono", assinada pela curitibana Furf Design Studio, é a primeira fabricada com o material natural

Foto: Ricardo Perini

por Sharon Abdalla

27/05/2019

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Ambientes estéreis e frios, nos quais a tecnologia e a robótica ganham campo em detrimento ao elemento natural e humano. Se este cenário, à lá “2001: uma Odisséia no Espaço” é o que vem à mente quando você pensa em futuro, saiba que está enganado.

Pelo menos é o que apontam Mauricio Noronha e Rodrigo Brenner, designers à frente da Furf, estúdio de design que levou o nome de Curitiba para o mundo ao assinar projetos que rompem o status quo e angariam os mais importantes (e cobiçados) prêmios internacionais do setor. O mais novo deles não foge à regra e apresenta algo que muitos poderiam ter como pouco provável: um material alternativo ao couro animal feito a partir de folhas de orelha de elefante, planta comum à flora e aos jardins brasileiros.

Folha curtida traz a estética da planta com a textura e a resistência do couro animal. Foto: Ricardo Perini

Batizado de beLEAF, o material foi desenvolvido pela empresa fluminense Nova Kaeru e reveste o estofamento das duas banquetas e do banco que compõem a coleção “Outono”, assinada pela Furf.

“Este material é fascinante, pois une o melhor da inteligência humana à inteligência ancestral da natureza. Desenhamos os móveis com a intenção de mostrar aos criadores e ao mundo o potencial dele”, explica Rodrigo. “Ele é poético, mais humano e mais acolhedor. E isso combina muito mais com o futuro do que uma coisa fria. Percebemos o futuro como uma mistura entre ele, o passado e o presente. O futuro é o natural-industrial. E é essa a combinação que está aí [na ‘Outono’ e na beLEAF]”, acrescenta Mauricio.

O material

Resultado de cerca de quatro anos de pesquisas, o tecido produzido a partir das folhas tem na figura de Eduardo Filgueiras, fundador da Nova Kaeru, seu idealizador. O material, inclusive, pode ser entendido como uma evolução natural do trabalho pioneiro de curtimento orgânico de peles exóticas, com destaque para o couro de pirarucu, realizado pela empresa há mais de 20 anos.

“Dentro desta perspectiva de trabalhar com produtos não convencionais, que agregam beleza, sofisticação e, principalmente, sustentabilidade, fomos buscando novos materiais e chegamos na transformação das folhas em um produto que tem  características similares a do couro animal”, conta Paulo Costa, diretor da Nova Kaeru.

Eduardo Filgueiras, o pai do beLEAF. Foto: Nova Kaeru/Divulgação

Entre elas, pode-se destacar a versatilidade de uso e a textura da folha curtida, que em nada deve ao couro de origem animal. Seu diferencial em relação a ele, no entanto, é escalonado devido à sustentabilidade que envolve seu processo produtivo, que vai do cultivo das folhas (matéria-prima renovável) em fazendas de reflorestamento — vizinhas ao curtume — aos produtos orgânicos utilizados em seu processamento.

“Não usamos metal pesado em nenhum tipo de processo de todos os produtos da empresa. Os agentes curtentes são todos orgânicos. Para o acabamento, há uma camada de proteção em poliuretano proveniente do petróleo, que estamos tentando mudar, já num futuro próximo, para um PU vegetal”, conta Eduardo.

Assim como o couro animal, as folhas podem ser tingidas de diversas tonalidades. Foto: Nova Kaeru/Divulgação

À isso acrescenta-se o apelo estético do biotecido, que mantém o desenho e veios das folhas com o objetivo de reforçar que se trata de um material vegetal. “Isso é o mais legal, pois é a folha. Não precisou triturar, estampar ou fingir que ela tem uma textura que não é a dela”, aponta Rodrigo.

Segundo Eduardo, o beLEAF também é tão resistente e hidrofugado (resistente à permeabilidade da água) quanto o couro bovino. A diferença, neste caso, é que para hidrofugar o couro geralmente é necessário o uso de metais pesados, o que não ocorre com a folha, que naturalmente tem um grau de permeabilidade muito baixo — fato que é potencializado em seu processo de transformação no biotecido.

“Ele não perde em nada para o couro animal”, avalia Eduardo. “É um material melhor, mais sustentável e mais poético do que o que temos hoje. Por isso é o material do futuro”, acrescenta Mauricio.

Etapa do processo de curtimento das folhas. Foto: Furf

Todas estas características renderam ao beLEAF o prêmio de Melhor Material Natural na Feira de Couro Ásia Pacífico, em Hong Kong, uma das mais importantes do setor, onde foi apresentado no formato da folha. A primeira manta do produto, no entanto, foi produzida especialmente para a coleção “Outono”, que trará os primeiros produtos de design fabricados com o material natural.

A coleção

“Desde o começo, ficou bem claro que iríamos desenhar móveis [com o beLEAF], pela visibilidade e o chamariz que o mobiliário tem no mundo do design”, lembra Rodrigo ao contar sobre o processo que levou ao desenvolvimento da “Outono”.

Coleção “Outono” une os modos de fazer artesanal e industrial. Foto: Ricardo Perini

Como o acabamento do biotecido, utilizado para o revestimento do estofado, é feito à mão, os designers da Furf optaram por uma base em aço reciclado para a estrutura (que não leva acabamento de tinta) como forma de representar a dualidade das peças, marcadas pela união das técnicas artesanais e industriais.

O desenho, que traz seis pernas (ao invés das tradicionais três ou quatro comuns aos bancos e banquetas), também surpreende e não está li por acaso. A intenção, segundo Mauricio e Rodrigo, é a de que ele remeta à uma espaçonave em processo de decolagem, ao mesmo tempo em que lembre o caminhar de um inseto.

Os designers da Furf, Mauricio Noronha e Rodrigo Brenner. Foto: Ricardo Perini

“Este projeto é sobre dualidades. Uma provocação para o início de uma nova era, de um novo olhar para os materiais [e processos] que realmente sejam tecnológicos e sustentáveis”, resumem.

*Apesar de muito similar ao couro de origem animal, o biotecido feito a partir de folhas não pode ser categorizado como couro. Isso porque, segundo a lei federal n° 4.888, de 1965, tal nomenclatura só pode ser atribuída a “produtos obtidos exclusivamente de pele animal”.

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