Em entrevista exclusiva, OSGEMEOS falam de arte e política

Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como a dupla de grafiteiros OSGEMEOS, concebem as artes como janelas de respiro da vida nas cidades. Confira a entrevista feita durante uma visita da dupla à redação de Haus

Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

por Luan Galani

17/06/2016

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Qual o Brasil que vocês retratam? Que linguagem é essa que vocês levam ao mundo?
A ideia não é retratar o Brasil lá fora. Como a gente tem essa bagagem de ser brasileiro e de ter crescido em São Paulo, é normal que leve o Brasil para os lugares. Mas não queremos representar personagens de determinada cultura ou determinado folclore. Temos referências que remetem tanto ao folclore daqui quanto ao folclore de Portugal ou da Lituânia, por exemplo. É algo que acontece naturalmente no nosso trabalho.

Em suas obras, que características brasileiras são mais evidentes e frequentes?
Improviso. Essa coisa do brasileiro se virar com pouco, sabe? A gente vem de um bairro simples de São Paulo e aprendeu a fazer o que faz com poucos recursos. Não tinha como comprar spray, como comprar nada. Mas a gente conseguiu fazer. No Norte e Nordeste, por exemplo, você vê as pessoas pintarem as casas de rosa com vermelho e porta verde, sem estudar combinação de cores. Como a gente. E a gente acredita que uma cor combina com qualquer outra cor.

Exposição da dupla no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Portugal. Fotos: Ricardo Amado/Flickr/Reprodução

Exposição da dupla no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Portugal. Fotos: Ricardo Amado/Flickr/Reprodução

O que vocês transmitem em suas obras?
Sempre tivemos vontade de voltar os olhos para as nossas raízes, que são brasileiras. Começamos no grafite na metade dos anos de 1980 por meio da cultura Hip Hop americana. Nos envolvemos muito com essa cultura. E naturalmente também buscamos outras referências, principalmente as que vêm da nossa família. O que nosso irmão mais velho escutava para desenhar, a ópera que nosso avô ouvia. Tudo que eles gostavam. E se olhamos nossos trabalhos mais antigos, lá de 1998, nas primeiras vezes que fomos para a Europa e Estados Unidos, essas referências são claras. Vemos até citações de coisas que só fomos presenciar mesmo anos depois na zona da mata do interior de Pernambuco, por exemplo.

Em 2014, um comitê político passou tinta sobre a única obra de vocês no centro de Curitiba. Vocês acham que as cidades brasileiras são despreparadas para lidar com as intervenções? Ou essa é a democracia das ruas mesmo e é bom que ninguém tenha monopólio sobre ela?
Não são nem as cidades. Nossos políticos é que são despreparados até para fazer política. As pessoas normalmente respeitam: o cara que teve a parede pintada e o mendigo. Elas sabem enxergar e valorizar.

Até o cara que teve de pintar a parede de azul talvez goste. Mas foi mandado. Não ligamos muito para isso. Gostem ou não, não vamos deixar de pintar. Mas é triste para todos os grafiteiros. As obras deveriam ficar nas ruas. Há tantos outros problemas e se preocupam com um cara que acredita no sonho e sai no fim de semana para fazer sua arte. Deveriam se preocupar com bilhões de outras coisas do nosso Brasil em vez de gastar nosso dinheiro pintando a cidade de cinza. A gente se acostumou em São Paulo com essa desordem. Não tem regra, não tem lei. No universo do grafite, há certas regras. Somos mais organizados que a política. De entender que cada um tem um estilo, de compreender a história de cada um, de respeitar quem chegou primeiro.

A rua dando lição de respeito e tolerância. Lembra aquela máxima de vocês: “Ou você usa a cidade, ou ela te usa”.

A gente fica muito vulnerável na cidade. Principalmente fazendo arte. Crescemos em outra época, nos anos de 1980 e 1990. Foi uma época supercriativa. Temos o mesmo processo criativo desde os quatro anos. Mas encontramos o Hip Hop, brincamos 24 horas na rua, no meio de prédios e paredes. Não tinha respiro. E encontramos por meio da dança, do desenho e da pintura uma forma de respirar e escapar daquilo tudo. Encontramos uma janela. Foi um universo tão lúdico e legal que quisemos mostrar para todo o mundo. É nisso que acreditamos.

Foto: Ricardo Amado/Flickr/Reprodução

Foto: Ricardo Amado/Flickr/Reprodução

Todo mundo procura essa janela. Inclusive existem tentativas de humanizar mais as cidades. Tanto em São Paulo quanto em Curitiba. O que vocês acham disso?
É, todo mundo tem essa janela dentro de si. Tem gente que prefere manter fechada, outros tem mais coragem, abrem e vão. Sabe o que é louco? A gente já se acostumou a viver no país do jeito que está. Não temos segurança, não temos transporte decente nem saúde pública de qualidade. E a maneira que conseguirmos sobreviver é sendo criativos. Para escapar ou para transformar. Usamos nossa arte para alertar, tirar um sorriso e incentivar. Nem imaginávamos o reconhecimento. Só esperávamos pintar. Aconteceu lá fora primeiro. Mas tem muito a ver com o lance da época. Hoje qualquer um pode ser artista, qualquer um pode ser músico. Antigamente era mais fechado.

E de onde vem essa preferência de vocês pela interface das ruas?
É o meio mais direto. Não depende de outras fontes para divulgar. A rua não tem dublê. É verdadeira. Daí a nossa paixão. É direto o contato. Você e a cidade. Você com quem convive ali. Você com quem passa ali. Foi a melhor escola que tivemos.

Vocês criam personagens que nos convidam a sair da realidade e sonhar com um mundo onírico. Mas vocês também fazem críticas em seus desenhos a problemas tipicamente brasileiros. Violência, abandono, corrupção, Mariana. Qual o papel do cotidiano, das coisas simples, dos problemas do dia a dia nos retratos de vocês?
É um detalhe pequenininho. A gente comenta milhões de problemas do dia a dia, contestando e falando. Sempre tentando transformar o negativo ao nosso redor em algo positivo. Por mais que seja impactante. Por mais que apaguem o que foi feito. A gente faz e a prefeitura vai lá e apaga. A gente faz de novo e eles apagam de novo. É uma censura. Mas tem um lado legal: a gente tá falando e eles estão lendo. Se estão gostando? Problema deles. Todo mundo precisa falar. Principalmente os brasileiros. Não é normal isso que a gente vive. Com o nosso trabalho, abrimos a janela para o lúdico, o universo da paz. Na nossa exposição, todo mundo vai se sentir bem. Por que lá fora está tudo meio chato.

A obra “O Gigante de Boston”, feita pelos irmãos na entrada de ar de um prédio nos Estados Unidos, denuncia as mazelas sociais. Foto: Tim Sackton/Flickr/Reprodução

A obra “O Gigante de Boston”, feita pelos irmãos na entrada de ar de um prédio nos Estados Unidos, denuncia as mazelas sociais. Foto: Tim Sackton/Flickr/Reprodução

Que barreiras a arte de vocês quebrou e ainda tem a quebrar?
A maior barreira foi viver do que a gente acredita. Era difícil e ainda é. Porque tudo parte do princípio da criação. Temos de criar. Amanhã temos de criar de novo. E, para sentar e desenhar, temos de estar concentrados. Um processo que parece simples, mas não é. Conhecemos muitos artistas que, se acordam mal, não conseguem desenhar e pintar. Somos o contrário. Independentemente do estado de espírito, a gente se fecha, liga o som e vai para outra dimensão. Barreiras a gente quebra a vida inteira se auto desafiando.

A próxima exposição de vocês será neste ano em Nova York. Podem adiantar algo?
A gente está desde 2014 trabalhando nesta exposição. Mas só criamos o tema quando a exibição termina. Tudo que a gente faz está conectado, como um livro. Serão todas obras inéditas. Vai ser bem legal.

PERFIL

OSGEMEOS são os artistas contemporâneos brasileiros mais reconhecidos de nosso tempo. Mesmo sem intenção de atuar como embaixadores do Brasil pelo mundo, os grafiteiros de 41 anos carregam o Brasil em suas criações coloridas, repletas de referências tipicamente brasileiras e urbanas. Nascidos e criados no bairro do Cambuci, em São Paulo, os garotos que um dia queriam ser bombeiros acharam sua válvula de escape da desordem e do cinza da cidade no desenho e na dança. Hoje dão vida ao seu universo de seres amarelos em diversas interfaces, de murais a fuselagem de aviões, e sempre nos surpreendem.

 

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