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Poltrona de Sabão, por Furf Design Studio.
Poltrona de Sabão, por Furf Design Studio.| Foto: Divulgação

Há pouco mais de trinta anos, os Irmãos Campana lançaram a linha"Descorfortáveis" e sua funcionalidade como cadeiras, como o próprio nome da coleção sugere, levanta discussões até hoje.

Em fevereiro de 2021, Andrés Reisinger vendeu uma coleção de dez móveis por mais de dois milhões e trezentos mil reais. Assim como a dos Campanas, sua polêmica deu gás aos questionamentos entre Design e Arte.

Apesar das semelhanças, a mais notável diferença entre as duas coleções é que a primeira é produzida em metal e a segunda, em pixels. A coleção The Shipping é apenas um dos casos em que obras NFT são comercializadas por milhares de dólares, um mercado baseado em blockchain e criptomoedas, aonde é possível criar (e vender) digitalmente, com muito menos limitações do que no mundo tangível.

Tá, mas porque alguém compraria um móvel assim? Ou você “usa” ele virtualmente através de jogos como Minecraft ou traz ele para o mundo tangível. Uma maneira que faz cada vez mais sentido, já que aglomerações na sua casa virtual podem ser muito maiores e mais pessoas poderão admirar seu projeto de interiores, dentro do seu jogo favorito, claro. Já grandes marcas como a Moooi colocaram em prática outro jeito de usar NFT, lançando no mercado a poltrona Hortensia, do Andrés, em abril — e sim, nesta você pode sentar.

Obra Immaterial Existence A2, por Umloboh (Antonio Wolff).
Obra Immaterial Existence A2, por Umloboh (Antonio Wolff).| Divulgação

Imagine uma membrana que separa o mundo físico do mundo virtual. De um lado, tudo aquilo que podemos tocar, sentir o sabor, o perfume. Do outro, é onde pixels desenham um universo fantasioso, onde não se aplicam muitas leis da Física. Estes mundos virtuais ampliam e provocam as possibilidades da criatividade. Sem as limitações do mundo físico, até aonde vai a sua criatividade?

Antonio Wolff, artista visual radicado em Curitiba, trabalha com formatos digitais desde o início de sua carreira, e muitas vezes questionou a necessidade de transformar em produto “físico” uma obra que era nativamente digital. Em 2014, ele passou a usar o nome Umloboh para assinar a parte totalmente digital de sua produção.

Na outra ponta, o boom da criptoarte (ou NFT arte) confirma que a posse digital já é uma realidade. Um exemplo disso, conta Antonio, é o caso de seu filho, que sente praticamente a mesma satisfação em ganhar uma roupa de verdade ou uma “skin”, espécie de figurino virtual para personagens de jogos online, pois suas interações sociais se dão em grande parte dentro dessas plataformas.

Essas mudanças nas formas de convívio se acentuaram com a pandemia, que aumentou o tempo gasto em redes sociais e ambientes virtuais como os jogos online onde, inclusive, já são realizadas exposições. A Covid-19 teve ainda um grande impacto no mercado de arte, com o cancelamento de eventos como salões e mostras.

Para além da pandemia, as relações entre o artista e o consumidor de arte foram significativamente alteradas pelos NFTs, conta André Mendes, artista visual que divide um atelier com Wolff.

André, que trabalha com técnicas “analógicas” como a pintura e a escultura, considera positivo o impacto das novas tecnologias na arte, e já pensa em maneiras de conciliar esses dois universos.

Entre as mudanças que já estão ocorrendo, André tece elogios para as novas formas de comercialização, que incluem certificados de autenticidade que tornam mais intensos os diálogos contratuais entre quem produz, quem vende e quem consome arte.

Além do atelier, os dois artistas compartilham algumas visões sobre a criptoarte, e veem nela pontos positivos como a descentralização, a diminuição de barreiras de entrada, tanto para artistas quanto para consumidores, e a renovação dos agentes e players do mercado.

A busca por identidade e inovação se abre para novos caminhos que os NFTs propõem. Mais e mais criadores, não apenas designers e artistas, estão seduzidos pela possibilidade. Aquela membrana se dissolve ainda mais e fica cada vez mais difícil responder ao meme do garotinho que sai do dentista sob efeito de anestesia e pergunta ao pai: “Isto é a vida real?”

*Mauricio Noronha e Rodrigo Brenner, designers da Furf Design Studio, André Mendes e Antonio Wolff, artistas plásticos e visuais

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