É possível abrir mão do plástico de vez?

Encarar o plástico como um vício que precisa ser extirpado: é assim que um número cada vez maior de consumidores está mudando o estilo de vida

Dianna Cohen carrega as sacolas de pano em uma feira do produtor em Los Angeles. Fotos: Adam Amengual/The New York Times

por Steven Kurutz*

06/03/2019

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Para Beth Terry, a certeza veio quando ela leu um artigo sobre os filhotes de albatroz que estão morrendo por causa do plástico mal descartado: era hora de banir o material de sua vida.

Para começar, ela se concentrou na cozinha, jogando fora as sacolas de supermercado, as embalagens de macarrão com queijo pronto para o micro-ondas, as barrinhas de proteína e as saladas pré-higienizadas em recipientes fechados.

Então atacou o banheiro, trocando o xampu de frasco pelo em barra e passou a fazer o próprio condicionador com vinagre de maçã. A pasta de dente sem embalagem plástica foi excepcionalmente difícil de achar, por isso começou a fazer sua própria versão, caseira, com bicarbonato de sódio.

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Geladeira livre de embalagens de plástico. Fotos: Adam Amengual/The New York Times

Muitas vezes, em sua guerra pessoal contra o plástico, chegou a enfrentar momentos estranhos. De férias na Disneylândia, na Califórnia, onde disputaria uma meia maratona, Terry e o marido esqueceram as sacolas de pano no hotel, descobrindo tarde demais que o supermercado local só oferecia a versão plástica. Como carregar um monte de maçãs, laranjas, abacates e melões?

“Colocamos na frente da camiseta, na frente da barriga, levantamos a barra e pronto. Não quis ceder porque, se abrisse uma exceção uma vez, sabia que seria fácil fazer de novo, e de novo e de novo”, explica Terry, de 54 anos, revelando que voltou para o hotel meio que parecendo um caranguejo, andando de lado, mas pelo menos se manteve fiel à sua decisão.

Encarar o plástico como um vício que precisa ser extirpado: é assim que um número cada vez maior de consumidores está mudando o estilo de vida, horrorizados com os quase 300 milhões de toneladas rejeitadas por ano, sendo a maior parte na versão descartável, como os canudos, que acabam nos aterros ou no fundo do mar.

Como termo de marketing, o “sem plástico” desponta como o novo “sem carboidratos”. Lojas anunciando a novidade já funcionam no Brooklyn e em Londres, vendendo itens como garrafas de água de silicone, pazinhas de papelão para recolher fezes de cães e gatos, vibradores biodegradáveis e capas para iPhone feitas de linhaça.

Dianna Cohen carrega as sacolas de pano em uma feira do produtor em Los Angeles. Fotos: Adam Amengual/The New York Times

Tendência e desafio

Os designers encaram a nova tendência como um desafio, seja montando um corredor de supermercado ou criando roupas ecologicamente corretas que não envolvam plástico virgem. Várias celebridades, incluindo Jeff Bridges e SZA, se engajaram na campanha. E há muitos, mas muitos blogs e livros com dicas.

Até algumas empresas da Fortune 500, como Procter & Gamble e PepsiCo, resolveram se envolver: em meados deste ano, essas companhias vão testar a venda de produtos como o suco de laranja Tropicana em garrafas de vidro, o xampu Pantene em frasco de alumínio e outros produtos em recipientes feitos de materiais alternativos recicláveis.

“A conscientização explodiu, tanto que o movimento para acabar com o plástico tradicional já começou com tudo. Alcançamos a massa crítica”, comemora Susan Freinkel, jornalista de San Francisco e autora de “Plastic: A Toxic Love Story” (“Plástico: uma história de amor tóxica” em tradução livre).

Escova de dentes de bambu e pasta de dente feita em casa. Fotos: Adam Amengual/The New York Times

Só que, por mais nobre que seja o objetivo de viver no mundo moderno sem plástico, talvez isso não seja possível. Se você juntar todo o volume desse material que descarta em uma semana, como fez a Terry, acabará com uma pilha imensa. Por onde começar?

“O que sempre tento enfatizar para as pessoas é ir com calma, passo a passo. Nem tente fazer tudo de uma vez. Essa tem sido uma prática minha para não ficar sobrecarregada por tudo isso”, explica a contadora de Greenbelt, em Maryland, autora de “Plastic-Free: How I Kicked the Plastic Habit and How You Can Too” (“Livre de plástico: como eu me livrei do hábito do plástico e como você também pode” em tradução livre).

Kit sobrevivência

Como muita gente que quer uma vida livre de plásticos, Cohen nunca sai de casa sem seu kit de sobrevivência ecológica, que inclui um copo de aço inoxidável, um jogo de talheres de bambu ou “garfolher” de metal, dois canudos de aço inoxidável e uma sacola de tecido. Para ela, vale a pena gastar uns minutinhos a mais antes de sair. “O bom é se preparar com bastante antecedência”, ensina.

De fato, quem entra na cruzada antiplástico precisa reorganizar toda a rotina para evitar o material: se um restaurante só serve sua comida em pratos de plástico, por exemplo, você já não volta mais lá. Fast-food? A maioria das embalagens é de plástico. Smoothies daquela casa de sucos? A menos que coloquem a bebida em um copo de aço inoxidável, melhor procurar outra opção ou levar de casa. Pão? Compre na padaria perto de casa, que os acondiciona em sacos de papel.

Vida marinha é a mais afetada pelo lixo plástico. Foto: Bigstock

*The New York Times.

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