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Casa Zalszupin recebe exposição que resgata trabalho do Estúdio Branco & Preto
| Foto: Ruy Teixeira

A Etel, uma das marcas mais influentes de mobiliário do mundo que reedita principalmente móveis modernos brasileiros, traz uma série de eventos digitais e presenciais na DW! 2021 para celebrar a última semana da exposição da Branco & Preto na Casa Zalszupin.

A casa, a 200 metros da loja, idealizada por Lissa Carmona e gerida pela Etel, foi projetada pelo designer polonês Jorge Zalszupin (1922-2020) e onde viveu até seu falecimento ano passado. Depois da DW será a vez das obras do português Joaquim Tenreiro (1906-1992) assumir o espaço de gala. As visitas precisam ser agendadas.

Confira a cobertura em tempo real da DW!

Fachada da Casa Zalszupin é 'escondida' por uma falsa seringueira gigante.
Fachada da Casa Zalszupin é 'escondida' por uma falsa seringueira gigante. | Luan Galani

A Casa Zalszupin não tem fachada aparente. É escondida e abraçada por uma falsa seringueira gigante. Quando se ingressa na residência histórica que não é reconhecida formalmente como patrimônio cultural pelo município ou pelo estado, sente-se a atmosfera de útero, de caverna que te leva para outra dimensão. A estrutura é de alvenaria, mas conta com diversos troncos de madeira aparentes.

"O piso às vezes é de lajota cerâmica terracota, as vezes um assoalho de jacarandá nas partes sociais. Nas partes molhadas, são pastilhas coloridas. Nas áreas intimas, tacos de madeira cobertos de carpete em sua maior extensão", explica com exclusividade para HAUS o arquiteto Luiz Lopes, da Etel. O forro curvo de diferentes alturas é um lambri de pinho de riga, e a altura do forro na casa está em constante mudança, em um sobe e desce pela edificação inteira.

Projeto da casa, assinado pelo arquiteto, mescla diferentes acabamentos para o piso e alturas de pé-direito.
Projeto da casa, assinado pelo arquiteto, mescla diferentes acabamentos para o piso e alturas de pé-direito. | Luan Galani

A moradia tem dois jardins no térreo, que foram requalificados pelo escritório Daniel Nunes Paisagismo. "Eles fizeram uma pesquisa sobre as plantas usadas na época da construção da casa (anos 1960) e inseriram apenas as plantas de porte médio e baixo que eram habituais da época", conta Lopes.

As janelas seguem padrões: sempre uma folha de madeira seguida de uma de vidro e, por fim, uma pantográfica. "Sempre três camadas", destaca o arquiteto da Etel. "As de serviço são finos basculantes, as sociais de giro, e as íntimas de correr."

HAUS também conversou com Lissa Carmona, que, ao lado da mãe designer Etel, comanda a marca. Confira a entrevista!

Como surgiu essa ideia da Casa Zalszupin como ponto cultural e a exibição da Branco & Preto?

Coloquei como objetivo e missão o resgate da história do design e arquitetura brasileira. Para dar valor se precisa entender. A Casa Zalszupin foi um ato de preservação, um pouco até de angústia, de inconformismo. Uma casa dessa. Ele construiu pra ele, viveu lá por 60 anos, o arquivo estava lá, iria se transformar sem ter cumprido ainda seu papel de compartilhar sua história. Então, ao longo da minha vida e especialmente este ano, buscamos ampliá-la de outra maneira. Em junho inauguramos a primeira exposição na casa, um tributo ao próprio Jorge - seu aniversário seria em 1° de junho. Foi muito bem sucedido. Então a gente assumiu a casa. Estamos com ela por um ano e meio para ser um centro de referência para a arquitetura, o design e a arte.

A cada 60 dias muda a exposição, muda o tema. Eu convidei a galeria Almeida & Dale para trazer a parte de arte, eu me concentro na arquitetura e no design. Eu pesquiso muito essa área e as vertentes da arte. Todos os grandes navegaram pelas três. Depois do Zalszupin, quis trazer um pouco de luz à escola Branco & Preto. Porque tem algumas semelhanças e várias diferenças com o Zalszupin.

Mostra destaca trabalhos dos nomes que estão entre os gigantes do design nacional.
Mostra destaca trabalhos dos nomes que estão entre os gigantes do design nacional.| Ruy Teixeira

De novo, mobiliários de arquiteto, prática dos anos 1950. Um grupo de arquitetos muito bem sucedidos e intelectuais do Mackenzie que se uniram para criar uma loja, para produzir mobiliário moderno. Eles tinham um pensamento de que o design é pensamento crítico, diferenciando-o do que é decoração e arquitetura de interiores. E não seguiam o padrão da escola carioca do [Oscar] Niemeyer nem do [Vilanova] Artigas. Tinham um caminho muito próprio, focada na arquitetura de dentro para e fora e, em algum momento, conversando com arquitetura mediterrânea, que busca conforto e aconchego. Isso se vê muito na casa do Zalszupin.

E há essa questão das formas puras das peças, não?

Isso. Em paralelo, é muito claro o pensamento deles em termos de ritmo, de rigor, de produção, de sofisticação de limpeza, de retirar os excessos. Eles tinham um método e se aproximavam da arte concreta. Por isso chamamos o Wisnik (professor na Escola da Cidade e em outras instituições) para fazer a curadoria da mostra. Ele tinha todas as pesquisas e o arquivo, e veio com título "Ritmo, Rigor e Razão". É uma potência o diálogo daquelas obras, de Lygia Pape, Lygia Clark, Ascânio, Anna Maria Maiolino. Essa é a última semana da exposição. E no digital temos oportunidades incríveis com a Marlene Alcayaba, autora do livro sobre o Branco & Preto, para falar como foi tudo isso. Um bate papo em formato de live (gravado nos canais), vai ser uma aula. Ela irá nos presentear com sua visão sobre o Branco & Preto. A gente precisa entender para valorizar o design. Aí a gente consegue o respeito. Sou uma intelectual do design, especialista em Design. E várias iniciativas nos anos 1950 não deram certo por questão de cópia. Por falta de respeito. E até hoje tem esse mesmo problema, todo dia Zalszupin sendo copiado.

Tem também conversa nos mesmos moldes com Marcelo Aflalo, filho do roberto Aflalo, herdeiro do estúdio e do pensamento. Ele um arquiteto, editor, designer, escritor, grande cabeça. A iniciativa de reedição veio dele. Ele nos procurou com A poltrona autêntica e de época. Tecido de 58, original. Vamos fazer um teste em 2000. Vamos deixar aqui e ver o que falam? Adoraram. Vamos trazer de volta. Precisa trazer todos os herdeiros. Eles se reorganizarmos, foi o segundo contrato nosso e tinha 11 herdeiros. Temos metodologia pioneira. Vejo na Itália, todas as casas italiana estão seguindo minha metodologia. A gente começou nos anos 90 fazendo isso.

Em que consiste essa metodologia?

É muito importante e rápido falar disso. Primeiro, fontes primárias. Familiares, filhos, esposas. Se não tiver reorganizado, em ordem, pode ser o maior designer que for, a gente não começa. A família precisa estar organizada. É normal não ter material, mas eles vão validar, vão contar detalhes. Esse é o primeiro ponto.

Mostra resgata o trabalho do Estúdio Branco & Preto. Visitas precisam ser agendadas previamente.
Mostra resgata o trabalho do Estúdio Branco & Preto. Visitas precisam ser agendadas previamente.| Ruy Teixeira

Depois, respeito pelas peças originais de época com atualização aos dias de hoje. Não é reprodução, é reedição incorporando os dias de hoje, os materiais, soluções mais tecnológicas para a produção de hoje. Qualidade de produção que é igual ou melhor ao original. Todas as peças são numeradas, carregam DNA próprio, contam história. Para nós é muito mais importante a história, o autor, o contexto do que a peça em si. Às vezes reeditamos peças que não são para terem sucesso comercial, mas para preencherem uma lacuna na história, como como a peça do Bratke e da Lina, mas elas não foram feitas para serem reproduzidas em milhares. Com controle de rastreabilidade, pelos números, você vai saber a coleção, número da reedição, número da peça, em qual dia, mês e ano ela foi produzida.

Qual a importância das reedições, então?

A reedição cumpre um papel importante: preservar a memória e promover o legado. Se não, é valor cultural que se perde. Naquela época, o Branco & Preto era esquecido. Se a gente não se respeitar internamente, quem vai nos respeitar?

Quando entramos com essa programação, abrimos essa audiência com estudantes, arquitetos etc, para criar essa cultura, reverberar essa vontade. Nós somos os originais de hoje e os vintage de amanhã.

Últimos dias da exposição "Ritmo, Rigor e Razão" na Casa Zalszupin
Últimos dias da exposição "Ritmo, Rigor e Razão" na Casa Zalszupin | Ruy Teixeira

Quantas peças da Branco & Preto vocês reeditam?

Hoje temos cerca de 15 reedições. A maioria lá na casa e três objetos do Zalszupin que eram da casa original. A casa do projeto que idealizei é a casa museu temporário. Com programação por 60 dias. A próxima será sobre o Tenreiro.

Vamos falar dele. Ele é considerado pai do [mobiliário] moderno brasileiro e é um dos últimos grandes que não estava na nossa coleção. Esperamos a família se organizar, por isso demorou [para lançarmos]. [A mostra terá] peças inéditas, desenhos autênticos, pinturas. Uma casa viva!

Até quando a Etel cuidará da Casa Zalszupin?

Até o final do ano que vem, com certeza. São iniciativas que tem que se pensar temporariamente. Podem ter outras casas, foi algo que aconteceu. Ele faleceu em agosto do ano passado. Minha ideia era [gerar] essa provocação, por isso a não permanência. Vamos voltar a trazer cultura. Trazer respeito.

Conteúdo editado por:Sharon Abdalla
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