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Sérgio J. Matos recebeu a HAUS em sua loja na Alameda Gabriel neste domingo (03) para entrevista exclusiva.| Foto: Thayse Gomes

O designer mato-grossense Sergio J. Matos é sinônimo de brasilidade. Daquela brasilidade assumida sem medo, sem pretensão de ter silhueta global, com ousadia de formas orgânicas e cores, verdadeiras esculturas cheias de significados, feitas à mão e fincadas na regionalidade. Na DW! Semana de Design de São Paulo deste ano, Matos criou uma instalação inspirada no Sertão na sua recém inaugurada loja na Alameda Gabriel Monteiro da Silva -- aberta em maio de 2020 -- para mostrar diversas de suas peças icônicas e quatro lançamentos para a paranaense Lovato. A saber, as poltronas Ereré, Cupuí, Oiapoque e Batinga.

Ele aproveitou e recebeu HAUS para um papo exclusivo, onde explicou melhor sua definição de brasilidade e de onde surgiu sua linguagem tão característica, criticou as empresas que copiam as obras de quem vive de design original e discutiu sobre a democracia no design e a necessidade brasileira de primeiro ver o exterior celebrar nossos designers para só depois "tirar o chapéu" para eles.

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A sustentabilidade social é um dos pontos fortes das criações de Sérgio Matos.| Luan Galani

A brasilidade que as suas peças carregam é diferente. Você não tenta igual a alguns de seus colegas ser obrigatoriamente neutro ou sóbrio. Quando pergunto de brasilidade para alguns deles, sinto até um preconceito da parte deles para com esse DNA tão particular do nosso país. Você não tem pretensão de fazer algo universal. Suas peças são ousadas e alegres. Por quê você acha que isso acontece e por quê você adotou essa linguagem?

Eu comecei a trabalhar com esse tema de Brasil e Nordeste quando me mudei para Campina Grande, na Paraíba. Fui lá para estudar design. Em 2000, quando comecei o curso, ia para a biblioteca e não encontrava nada de design brasileiro. Era só livro que tinha disponível. Não tinha internet na época. A gente conhecia Sérgio Rodrigues, os Irmãos Campana, alguns mais antigos, como o Alfio Lisi e só. Nos livros não tinha nada mais. Isso me incomodava bastante. A gente ia estudar design italiano, escandinavo, japonês, americano, e nada do brasileiro. E todo mundo começava a desenhar inspirado no design europeu. Os traços ficavam muito parecidos. Então não tinha identidade brasileira, tirando algumas referências.

E aí, quando fui para o Nordeste, parece que descobri um mundo novo. Coisas do dia a dia passavam despercebidas para as pessoas de lá. Mas para mim, não. Quando ia para a feira pública, era uma descoberta. Encontrava coisas de couro, artesanato, coisas que faziam há 100 anos e que continuam fazendo. É muita referência. O Nordeste é muito rico. Isso influenciou demais a minha produção. Comecei na universidade mesmo a desenhar com essa identidade, inspirado em temas do Nordeste e da natureza. Isso foi se consumando como identidade para mim também.

Eu pensava, quando me formei: como vou me diferenciar dos outros? Tendo identidade própria. A corda entrou por acaso, por exemplo. Na época não havia móveis com cordas como tem hoje. E eu não conseguia entrar na grande indústria. Então comecei a produzir com o que tinha em volta. E lá tem uma grande indústria de rede de dormir, e as cordas eram cordas de algodão utilizadas nos punhos das redes. Eu produzia com essa corda. E lá tem algodão especial que já nasce colorido. Usava esse nas minhas produções.

Depois, quando abri o estúdio em 2010, comecei a utilizar a corda náutica pela resistência do material. Muita coisa da identidade de hoje veio dessa mudança para o Nordeste, que me fez ver essa identidade brasileira. Isso é por causa dessa história. Tenho muito orgulho de mostrar isso porque também valoriza as pessoas que fazem, onde foi feito, de onde veio a referência. Todas as peças têm uma história para contar. E quando se conta, o olho do cliente brilha.

Poltrona Ereré foi criada sobre o tripé ancestralidade, conexão com a natureza e identidade. O traço imponente ganha envergadura na tradução da palavra de origem Tupi. Ereré constitui leveza no voo da ave “canoa-marreca”, típica do nordeste brasileiro. Sobrevoando a regionalidade, o desenho desdobra-se em referências simbólicas e de valor patrimonial. O protagonismo da trama elaborada em macramê fixa o olhar nos entrelaces e nós que recordam as redes de dormir, herança da cultura indígena. A estética escultural é também sedutora e enigmática como a devoção de alguns povos originários aos animais que simbolizam deuses em outras dimensões. Design atado ao sagrado da natureza, com a assinatura do Estúdio Sergio J. Matos e exclusividade da Lovato.
Poltrona Ereré foi criada sobre o tripé ancestralidade, conexão com a natureza e identidade. O traço imponente ganha envergadura na tradução da palavra de origem Tupi. Ereré constitui leveza no voo da ave “canoa-marreca”, típica do nordeste brasileiro. Sobrevoando a regionalidade, o desenho desdobra-se em referências simbólicas e de valor patrimonial. O protagonismo da trama elaborada em macramê fixa o olhar nos entrelaces e nós que recordam as redes de dormir, herança da cultura indígena. A estética escultural é também sedutora e enigmática como a devoção de alguns povos originários aos animais que simbolizam deuses em outras dimensões. Design atado ao sagrado da natureza, com a assinatura do Estúdio Sergio J. Matos e exclusividade da Lovato.| Luan Galani

Esses quatro lançamentos para a Lovato são sua primeira relação com a marca?

Não. Já trabalho com eles há dois anos. Temos uma linha grande e eles produzem algumas peças para o nosso estúdio. A gente tem para lançar 24 produtos. Eles sairão a cada três meses para lojas parceiras que a Lovato está selecionando por todo o Brasil.

E como você tem inserido a questão da sustentabilidade nas suas coleções?

Acho que a sustentabilidade que mais praticamos é a sustentabilidade social, com os projetos que faço nas comunidades pelo Brasil todo. Todo esse trabalho é feito com o Sebrae, o governo do estado, refugiados da Venezuela lá na fronteira de Roraima, por exemplo. E também com as comunidades indígenas. É uma identidade delicada em que a gente não pode chegar lá e modificar. Mantemos a técnica e o material que eles já utilizam, e o conceito é desenvolvido em cima de algo da identidade deles, da natureza ou da iconografia local.

Poltrona Cupuí para Lovato. A forma orgânica, a trama artesanal que elabora volume e textura, a cor natural que produz acolhimento. Com atmosfera de abrigo, a peça guarda uma intrincada conexão com a natureza e os fazeres artesanais. E celebra o fruto do cupuizeiro, onde o traço de movimento curvilíneo espelha o formato alongado da casca lenhosa sobre a polpa quase dourada.
Poltrona Cupuí para Lovato. A forma orgânica, a trama artesanal que elabora volume e textura, a cor natural que produz acolhimento. Com atmosfera de abrigo, a peça guarda uma intrincada conexão com a natureza e os fazeres artesanais. E celebra o fruto do cupuizeiro, onde o traço de movimento curvilíneo espelha o formato alongado da casca lenhosa sobre a polpa quase dourada.| Luan Galani

Por que você acredita que é tão difícil para os brasileiros valorizarem o que é realmente brasileiro?
Nosso maior mercado é São Paulo. Nossas peças são produzidas em outras partes do Brasil, porém, como Amazonas e Nordeste. E as pessoas adoram isso aqui. Tem apelo. Mas é difícil vender no próprio Nordeste ou no local e estado das comunidades que produzem. Isso acontece com o Brasil em relação ao móvel. Mas nos grandes centros isso já mudou. Antes de 2010 uma loja na Alameda Gabriel que trabalhasse só com design brasileiro quase não existia. Havia só lojas multimarcas. E hoje a maioria trabalha só com design brasileiro.

Qual a maior dificuldade ou desafio do setor de decoração e design brasileiros hoje, na sua opinião?

Um dos grandes problemas é a cópia. A gente continua com muitas indústrias sobrevivendo e vivendo de cópias. Tem muito problema com isso e vejo outros designers com esse mesmo problema. E agora, na Semana de Design de Milão, levaram um móvel, uma cópia para lá. É frustrante para quem trabalha com design autêntico. Aconteceu em uma mostra. Os designers estão de olho e enviaram uma carta para que não aconteça mais. Foi algo mais interno e não saiu na imprensa. Por isso precisa ter uma curadoria, para garantir a qualidade.

Poltrona Oiapoque para Lovato alberga um sopro retrô. De origem tupi-guarani, a palavra oiapoque deriva do termo ‘oiap-oca’ e abriga o significado de casa dos waiãpis ou casa dos guerreiros. Sob o mesmo teto inspirador estão reunidos memória e saberes ancestrais que celebram a arte milenar da cestaria. Forjado em alumínio, o desenho dá visibilidade à trama artesanal da corda náutica que remete ao entrelace das fibras naturais. A estrutura acolhedora ressoa a um abraço envolvente e caloroso.
Poltrona Oiapoque para Lovato alberga um sopro retrô. De origem tupi-guarani, a palavra oiapoque deriva do termo ‘oiap-oca’ e abriga o significado de casa dos waiãpis ou casa dos guerreiros. Sob o mesmo teto inspirador estão reunidos memória e saberes ancestrais que celebram a arte milenar da cestaria. Forjado em alumínio, o desenho dá visibilidade à trama artesanal da corda náutica que remete ao entrelace das fibras naturais. A estrutura acolhedora ressoa a um abraço envolvente e caloroso. | Estúdio Sergio Matos

E qual a sua opinião sobre a democracia no design. Acha que os designers brasileiros se dão ao trabalho de pensar sobre isso?

É o sonho de qualquer designer que suas peças cheguem para todo mundo. O grande problema é o preço da produção. Muitos materiais são importados, no nosso caso, e as peças ficaram mais caras pelo preço do dólar. Isso faz com que seja destinado a um certo público. Isso incomoda. Incomoda qualquer designer. É possível produzir para ficar mais barato, mas obrigaria a reduzir a qualidade, e isso não é legal. Esse é o problema. O mercado que é difícil.

Há quanto tempo atua como designer de mobiliário?
Me formei em 2005. E tive sorte porque fui selecionado para o Salão Satélite do Salão Internacional do Móvel de Milão pela Marva Griffin. Ela é minha madrinha. Se não fosse ela, eu não estaria aqui. Ela me lançou em 2010. Foi pura sorte. Fui morar em 2007 em Turim e mandei meu currículo e portfólio para trabalhar no Salão. Não consegui o trabalho, mas meu portfólio foi parar nas mãos dela. Não escrevi para ela nem nada. Um ano depois ela me escreve, dizendo que queria conversar comigo em São Paulo. Eu estava no Nordeste e não tinha condições financeiras de vir para São Paulo conversar com ela. Falei isso e atualizei ela sobre meus novos projetos. Então ela mandou uma carta convite para o Salão Satélite. Participei por três anos e foi aí que marcas e lojistas me chamaram para trabalhar aqui. Graças a Marva.

Poltrona Batinga para Lovato enraizada na exuberância e diversidade das florestas brasileiras. O nome originário da língua Tupi faz referência à árvore de tronco resistente e flores suavemente perfumadas. Equilíbrio entre força e delicadeza expresso no conceito que exala frescor. A base em alumínio curva-se à sinuosidade do espaldar recortado que reivindica originalidade. O traço cultiva similaridade com duas folhas em broto, sinalizando o verde que oxigena a vida.
Poltrona Batinga para Lovato enraizada na exuberância e diversidade das florestas brasileiras. O nome originário da língua Tupi faz referência à árvore de tronco resistente e flores suavemente perfumadas. Equilíbrio entre força e delicadeza expresso no conceito que exala frescor. A base em alumínio curva-se à sinuosidade do espaldar recortado que reivindica originalidade. O traço cultiva similaridade com duas folhas em broto, sinalizando o verde que oxigena a vida. | Estúdio Sergio Matos

Não acha isso muito estranho? Primeiro a Itália precisou te aceitar para só então o Brasil te ouvir?
Sim. Tem lojista que já tinha recebido a mesma peça que foi para Itália e nem tinha me respondido. Depois responderam. Mas isso mudou. O design brasileiro é muito mais aceito. É mais fácil hoje um estúdio iniciante desenhar para uma grande empresa ou vender para uma grande loja.

Conteúdo editado por:Sharon Abdalla
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