Artista paranaense explora ícones da arquitetura de Curitiba e cultura indígena

Conheça a história do artista paranaense Eleutherio Neto, que explora pigmentos naturais, texturas craqueladas e fotos de casas e prédios antigos de Curitiba para criar suas obras

Artista plástico e fotógrafo Eleuthério Netto usa referências da arquitetura, cultura popular e indígena para criar suas obras. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

por Luan Galani

12/08/2019

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Há 700 anos Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, realizou um experimento para determinar que língua as crianças falariam quando crescessem, se jamais tivessem ouvido alguém. Falariam hebraico? Grego? A língua de seu país? Instruiu amas e mães para que cuidassem dos pequenos, mas que sob hipótese alguma falassem com eles. Resultado? Todas as crianças morreram. Isso prova que diversas formas de interação são decisivas para a sobrevivência da nossa espécie.

Da mesma forma é a arte para o paranaense Eleutherio Netto, 48 anos, que acaba de lançar seu primeiro livro, “Reminiscências”, pela editora iD Books. Ele é como uma dessas crianças. Sem reinterpretar o mundo, sem fazer arte, cairia estatelado. Como ele mesmo brinca, “Deus te deu esse dom, agora se vire com isso”. Ele deu seu jeito.

Desde pequeno, na fazenda da família na minúscula Ribeirão do Pinhal, de apenas 13 mil habitantes, pegou gosto em observar casas e edifícios. Gastava horas vendo portas, janelas, paredes, telhados. Freud explica: Eleutherio nunca conheceu a casa em que nasceu. Foi demolida. Seria grande ou singela? Amarela ou rosa? De portas quadradas ou arredondadas? Para ele faz diferença. Sente-se órfão do primeiro abrigo da sua história pessoal. Talvez daí venha essa fixação pela arquitetura, como sugeriu certa vez uma amiga psicóloga. Pode ser.

Patrimônio da cidade como matéria-prima

Tudo isso levou o artista plástico – formado pela Faculdade de Música e Belas Artes do Paraná e graduado em desenho industrial pela Universidade do Norte do Paraná, com especializações em institutos do Brasil e da Itália – a explorar as texturas craqueladas desenhadas pelo tempo nos casarões e prédios antigos, principalmente de Curitiba. Por meio da técnica chamada decalque, que consiste em capturar a camada de tinta da parede em um papel vegetal adesivo especial e depois aplicá-lo em outra superfície, Eleutherio embalsamou fragmentos únicos de ícones da arquitetura da cidade e fez obras primorosas. Alguns desses edifícios nem existem mais.

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo.

Quem primeiro lhe deu uma chance no mercado das artes foi o prestigiado arquiteto Julio Pechmann, uma das referências na arquitetura paranaense, com mais de 200 casas e grandes obras projetadas. “Levei um quadro meu para emoldurar. Ele chegou logo depois na loja, gostou do que viu e pediu para me conhecer e ver meu portfólio. De cara encomendou 640 gravuras para o flat Pamplona, em São Paulo”, relembra.

Nasceu de novo

Mas Eleutherio renasceu por completo há 15 anos, quando passou uma semana entre os índios Pataxós de Caraíva, na Bahia. Evitou aquelas apresentações superfolclóricas feitas para turista ver e viveu como um deles. Reencontrou-se como pessoa e artista. Virou adepto da simplicidade, que dizem ser o último grau de sofisticação. Percebeu que precisa do mínimo para ser feliz. A cobertura em que vive com o companheiro Eliseu Portugal e seus quatro cachorros — Theo, Francisco, Antonio e Enzo — no Bigorrilho começa a perder o sentido.

Como artista, redescobriu o mundo. Aprendeu técnicas raras passadas de pai para filho dentro da tribo, dominou a alquimia da pigmentação natural. Apaixonou-se pelo azul ultramarino, uma cor extraída da pedra preciosa lápis-lazúli. E hoje uma de suas marcas. Logo em seguida assinou a coleção ‘Primitivo’ para a gigante da cerâmica artesanal Zanatta, com peças brancas imbuídas pelas texturas naturais da seringueira, da palmeira, da peroba e do coqueiro.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Ano passado foi ainda mais radical. Deu uma de Irmãos Villas Bôas, conseguiu autorização de caciques e da Funai e visitou o Parque Indígena do Xingu durante a festividade do Kuarup, uma das mais importantes para as tribos da região. Esteve com os Waurá, Yawalapiti, Kalapalo, Camayura, Ikepeng, Trumai e Kuikuros. A aldeia mais próxima de um centro urbano estava a seis horas de carro. Essa intimidade com a natureza em estado bruto foi essencial para Eleutherio.

Hoje as criações do artista são um caldeirão de todas essas influências. Ele recupera as próprias imagens de casas e prédios antigos da cidade, leva apenas a geometria dos volumes dos edifícios para a tela – sem excessos – e pinta com uma paleta própria de cores gastas, usadas, queimadas ou lavadas. O resultado é poesia pura.

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