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Cidade Criativa da Unesco desde 2014, Curitiba não cria ações para honrar com o título

Ao lado de Buenos Aires, na Argentina, e Puebla, no México, Curitiba é uma das três únicas Cidades Criativas de Design da América Latina, mas ainda não conseguiu estabelecer vínculos com outros membros da rede

Curitiba tem longo histórico na produção de design. Na foto, murais dos artistas curitibanos Potty Lazzarotto e Rimon Guimarães e bancos do designer Gustavo Engelhardt. Fotos: Henry Milleo/Arquivo Gazeta do Povo; Mel Gabardo/Arquivo Gazeta do Povo e Hugo Harada/Gazeta do Povo

por Carolina Werneck*

08/06/2017

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Curitiba é membro da Rede de Cidades Criativas coordenada pela Unesco desde 2014, mas as ações de integração com as outras cidades do grupo ainda são precárias. De acordo com a organização de design local ProDesign>pr, a mudança na gestão municipal atrasou o desenvolvimento de atividades voltadas à rede.

A ideia de que Curitiba fosse membro da rede coordenada pela Unesco partiu de entidades de design da cidade, como o Centro Brasil Design e a própria ProDesign>pr. À época, a Prefeitura Municipal abraçou a ideia e oficializou a candidatura por meio do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). A rede de Cidades Criativas se divide em sete categorias: artesanato e arte popular, design, filmes, gastronomia, literatura, música e artes midiáticas.

De acordo com o site da Unesco, como uma Cidade Criativa de Design, Curitiba deveria “cooperar e trocar experiências com outros membros da rede a fim de encontrar soluções criativas e inovadoras para os muitos desafios encarados pelas cidades”. Também precisaria “receber eventos da rede envolvendo todos os membros e fortalecer os programas ‘Viva mais Curitiba’ e ‘Curitiba Criativa’“. Por fim, a cidade teria de “aumentar a comunicação e a conscientização sobre as ações da rede, bem como sobre a participação de Curitiba na rede”.

Mas, na prática, a capital paranaense ainda não está integrada às outras cidades que participam desse movimento. Segundo o Ippuc, os dois programas mencionados no site da Unesco eram projetos do governo anterior e, portanto, provavelmente tenham sido descontinuados. O Ippuc também afirma que “as ações dentro dos convênios já existentes continuam sendo realizadas. A cidade mantém esse compromisso e não vai abrir mão do design”.

As várias faces de Curitiba

Fotos: Gazeta do Povo

Para o presidente da ProDesign>pr, Aulio Zambenedetti, a lentidão no engajamento da cidade está mais acentuada desde que o governo do prefeito Rafael Greca (PMN) assumiu a administração municipal, em janeiro. “A gente fez uma série de ações por meio do Ippuc na gestão anterior. Eu entendo que as coisas ainda estão se ajeitando [na Prefeitura], mas desta vez está um pouco mais enrolado.”

Na avaliação de Zambenedetti, o problema pode estar no o fato de que, desde que a gestão foi trocada, o Ippuc ainda não indicou um nome para assumir as questões que envolvem a rede. “Eu continuo achando que o Ippuc é o órgão correto para lidar com essas questões, só falta saber quem lá dentro vai abraçar a causa. Tem que definir quem vai responder por isso.”

Silvana Vicelli Gioppo, da Assessoria de Relações Externas (Arex) do Ippuc, explica que, como a mudança na gestão municipal “ainda está completando seis meses”, o instituto segue “fazendo um realinhamento das várias cooperações existentes que seja condizente com os planos da nova gestão”.

Na próxima semana, representantes das cidades de Detroit, nos Estados Unidos, e Saint Etienne, na França, virão a Curitiba para tentar estabelecer um primeiro contato. Elas têm reunião agendada na segunda-feira (12) com o presidente do Ippuc, Reginaldo Reinert. A visita foi uma iniciativa das duas cidades estrangeiras e está sendo bancada por elas.

Foto: Gazeta do Povo/Arquivo

Foto: Gazeta do Povo/Arquivo

O que são cidades criativas?

Os conceitos são os mais variados. E, desde que o termo virou moda, perdeu profundidade. Mas uma cidade que diz ser criativa deve ter três características principais.

Inovações: a cidade deve produzir inovação. Mas não só científica, porque a inovação deve ir muito além do aspecto econômico. É preciso que o local se reinvente constantemente, tornando propício o desenvolvimento da economia criativa, criando novas saídas para problemas sociais e fazendo da cidade cada vez mais sensorial.

Conexões: não podem haver “arquipélagos”. A cidade não se resume somente às áreas onde você trabalha e mora. É necessária uma conexão entre as diferentes regiões. Para isso, deve haver atrativos capazes de levar as pessoas a se render também a outras áreas, como eventos, feiras e encontros culturais, universidades, entre outros. A ocupação dos espaços públicos deve ser incentivada e a locomoção das pessoas deve ser facilitada.

Cultura: não entendida apenas como arte, mas também como identidade e alma da cidade. São a gastronomia, as particularidades idiomáticas, o patrimônio, a miscigenação da população e os festivais locais, por exemplo. Ninguém quer morar em um lugar estéril e letárgico. Assim, a cidade criativa é aquela que ferve de manifestações culturais.

*especial para a Gazeta do Povo

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