Dia da Árvore: as sete mais antigas e intocadas para conhecer em Curitiba

Beleza, raridade e importância histórica são alguns dos atributos das árvores de Curitiba que não podem ser cortadas

Cercada de lendas, a paineira do Bom Retiro é a matriarca das árvores curitibanas com mais de 300 anos. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Fotos: Jonathan Campos/Gazeta do Povo e André Rodrigues/Arquivo/Gazeta do Povo

por Diego Antonelli*

21/09/2018

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Quando Raphael Pires Pardinho, mais conhecido por Ouvidor Pardinho, plantou a paineira em um terreno do atual bairro Bom Retiro em 1721, ele jamais imaginaria que passados quase três séculos, a mesma árvore estaria em pleno vigor, embelezando a hoje Praça General Werner Gross e ainda tombada pelo Patrimônio Histórico do Paraná. Nesta quinta-feira (21), celebra-se o Dia da Árvore e HAUS mostra as sete mais antigas e tombadas para conhecer.

Foi Pardinho que, nomeado pela Coroa Lusitana em 1717, organizou a então “Villa” de Curitiba, estabelecendo as primeiras medidas para a urbanização da cidade. Segundo atas da Câmara e o Livro de Provimentos do Ouvidor Pardinho, a paineira foi plantada por ele com o intuito de demarcar o perímetro da vila curitibana. Era um marco territorial da cidade. Hoje, a paineira tornou-se um marco de preservação histórica.

A paineira tornou-se um marco de preservação histórica.

A paineira da  Praça General Werner Gross tornou-se um marco de preservação histórica

Embora o município não tenha um mapeamento das árvores das unidades de conservação, o que dificulta apontar o exemplar mais velho da cidade, toda a historiografia leva a crer que esta paineira de quase 30 metros de altura é a primogênita enraizada no solo do município.

Em setembro de 1974 a árvore foi tombada pelo governo do estado graças ao professor de biologia Siegfried Jabin, que liderou um movimento para que o exemplar não fosse derrubado. O resultado desta batalha pode ser avistado de longe.

No mesmo ano em que a paineira de Pardinho foi tombada, o governo estadual tombou outras três árvores da capital paranaense: um exemplar de angico branco, na Praça da França; uma tipuana, no Colégio Nossa Senhora de Sion; e uma corticeira na Rua Carmelo Rangel. Esta última, no entanto, teve o tombamento cancelado em 2009 após ser atacada por broca, o que levou à morte deste monumento histórico.

O exemplar de Angico Branco na Praça da França é tombado pelo município.

O exemplar de Angico Branco na Praça da França é tombado pelo município

O segundo e último processo de tombamento de árvores realizado pelo governo estadual ocorreu em 1990, com mais quatro tipuanas, situadas na Praça Santos Dumont, e um ceboleira na Rua Assis Gonçalves, que morreu em março deste ano. As quatro tipuanas, por sinal, resistem em pleno centro curitibano abafadas por meio-fios, calçadas e ponto de ônibus. Muita gente que passa pela Rua Ébano Pereira nem imagina que são patrimônios do Paraná. São os únicos exemplares que sobraram da época em que toda a rua era arborizada.

Imunes

Restam, hoje, na capital do estado sete árvores tombadas pelo Patrimônio Histórico. Elas são imunes ao corte. A proteção foi determinada pelo fato de serem árvores com beleza rara ou exótica e com importância histórica. “Além de feições notáveis, as mesmas podem possuir um valor histórico ligado ao patrimônio cultural, quer por sua temporalidade, porte, fatos a elas relacionados, raridade, afetividade”, explica a CPC. Quando decretadas imunes, as árvores não podem mais ser cortadas, a não ser por uma revogação do decreto, o que pode ocorrer em caso de risco de queda. Elas também ganham placas, identificando como imune de corte e também com o nome popular e científico da espécie. As podas são vistoriadas.

Aquele que se atrever a danificar uma dessas árvores tombadas terá de responder criminalmente pelo ato. O artigo 14 da Lei Estadual nº 1.211/1953 aponta que “as coisas tombadas não poderão em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem sem prévia autorização do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cinquenta por cento (50%) do dano causado”.

Tipuana no Colégio Nossa Senhora de Sion é tombada pelo município.

Tipuana no Colégio Nossa Senhora de Sion é tombada pelo município

Segundo o historiador Aimoré Índio do Brasil Arantes, que também atua no Conselho Estadual do Patrimônio Histórico, o processo de tombamento de árvores segue o mesmo ritmo de outro qualquer. “Ou seja, alguém do povo solicita o tombamento e, necessariamente fazemos uma pesquisa completa com todos os dados possíveis de serem coletados. Com certeza, o trabalho é bem maior do que outros casos e leva muito mais tempo”, explica.

Mas, enquanto o sol, a chuva, o solo e a população desejarem, certamente, essas árvores ainda poderão simbolizar parte da história da cidade e oferecer sombra a quem desejar.

 

 

Tipuana na Praça Santos Dumont.

Tipuana na Praça Santos Dumont

Entenda porque não se tomba mais árvores

Atualmente não se faz mais tombamentos isolados de árvores. As normas internacionais recomendam outros procedimentos. Há preferência ao tombamento de conjuntos de árvores como bosques, praças, parques e reservas naturais.

“Lembre-se que árvores são seres vivos e precisam conviver em um ambiente o mais próximo no natural. A qualidade fitossanitária de uma árvore solitária é menor do que se estivesse localizada em um ambiente adequado”, explica o historiador Aimoré Arantes.

Em Curitiba, atualmente, 58 árvores não podem ser cortadas. Além das sete tombadas pelo Patrimônio Histórico, outras 51 são protegidas por um decreto municipal. As árvores imunes estão distribuídas em 40 locais públicos e particulares da cidade. São ipês, araçás, araucárias, figueiras, entre outras espécies. Uma das árvores é uma ginko biloba trazida do Japão pelo avô da atual proprietária de um terreno situado à Rua Capitão Leônidas Marques, no Uberaba. Outro destaque é um Ipê Amarelo que fica dentro da Rodoferroviária de Curitiba. Quando floresce, a árvore chama a atenção pela imponente beleza.

Veja a lista das 7 árvores tombadas em Curitiba

-1 Angico Branco: Praça da França, Rua Teixeira Soares com Rua Silva Jardim, em Curitiba. Tombada em 10/09/1974;

CTB1-006F

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

-*1 Corticeira: Rua Carmelo Rangel, em Curitiba. Tombada em 10/09/1974. Inscrição cancelada em 22/01/2009 devido ao corte da árvore por questões de instabilidade;

CTB1-007F

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

-1 Paineira: Rua Cláudio Manoel da Costa com Rua Tenente João Gomes da Silva, em Curitiba. Tombada em 10/09/1974;

Cercada de lendas, a paineira do Bom Retiro é a matriarca das árvores curitibanas com mais de 300 anos. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

-1 Tipuana: Alameda Dom Pedro II com Alameda Presidente Taunay, no Colégio Nossa Senhora de Sion, em Curitiba. Tombada em 10/09/1974;

CTB1-009F

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

-4 Tipuanas: Praça Santos Dumont e Rua Ébano Pereira nº 240, em Curitiba. Tombadas em 04/01/1977;

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

-*1 Ceboleira: Rua Assis Gonçalves nº 650, Edifício Lagos Andinos, em Curitiba. Tombada em 24/01/1990. A árvore morreu em março de 2017;

CTB1-020F

Foto: Governo do Estado do Paraná/Divulgação

-*1 Carvalho do Unbenau: Rua Dom Pedro II nº 755, na sede da União Beneficente Náutica. Tombada em 24/01/1990. Inscrição cancelada em 26/08/2011 devido à morte da árvore.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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