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Bruno Pugioli mantém uma caixa de abelhas sem ferrão na sala de casa. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Bruno Pugioli mantém uma caixa de abelhas sem ferrão na sala de casa. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo| Foto: Gazeta do Povo

Ao chegar no apartamento do programador Bruno Pugioli, no Batel, a caixa de madeira rústica sobre um banco, próximo à janela chama atenção, pelo menos daquele visitante curioso. O objeto poderia ser confundido com qualquer elemento decorativo que compõe o apartamento, se não fosse o entra e sai de abelhas por um orifício da caixa, estrategicamente posicionada próximo à janela.

Bruno queria ter um animal de estimação, mas como passa muitas horas do dia fora de casa, resolveu pesquisar por animais mais autônomos. Entre cobras, formigas e outros animais excêntricos, ele chegou até às abelhas nativas sem ferrão. “Eu escolhi a abelha mandaçaia porque ela é mais robusta, tem a asa menor e o tórax forte, importante já que eu moro em um apartamento e o vento pode atrapalhar o voo, e elas também resistem mais ao frio”, conta Bruno.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

A caixa suporta uma colônia com 300 a 500 abelhas nativas, que toda manhã saem pelos arredores do prédio de Bruno para buscar pólen, resina e água. O parque em frente favorece a estadia. O movimento delas é facilmente observado, chega a ser terapêutico, segundo o programador. “É um objeto decorativo, é rústico, às vezes chama a atenção, mas ninguém sabe o que é exatamente. É uma decoração com vida bem intrigante e uma rotina própria bem regrada”, diz.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

Bruno toda manhã aprecia o trabalho das operárias que começa por volta das 6h. Entre as atividades da rotina, elas saem para tirar o lixo do ninho, como barro e resíduos, e também para buscar alimento. O mel é produzido em pequenos potes de cera, mel e pólen no interior do ninho, onde fica a rainha. É possível observar também o trabalho da abelha vigilante, que permanece a maior parte do tempo espiando a entrada da colmeia, liberando espaço para as operárias.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

A arquiteta Barbara Becker, namorada de Bruno, o ajudou no processo de pesquisa e compra da colmeia. Ela conta que a caixa de madeira tem um cheiro de mel e própolis, e torna o espaço bonito e diferente.

“É um objeto de decoração, a caixa é toda artesanal, toda feita de madeira. Ela é muito verdadeira em termos de objeto, ela não foi criada para ser bonita, isso faz dela autêntica, combinando com diferentes ambientes, sendo tão compatível com a proposta dela, não gera conflito”, diz Barbara. “A gente fez um experimento, não sabíamos se daria certo. E deu super certo! Se a moda pegasse, seria legal pelo viés ambiental. Ajudaria a natureza, fomentaria mais abelhas nativas, enriquecendo o nosso ecossistema”, complementa.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

Eco pet

Bruno procurou o casal de meliponicultores – nome dado ao criador de abelhas nativas sem ferrão – Salete Perin Uczai e Benedito Antônio Uczai. O casal vive na cidade de Mandirituba – vocábulo indígena que significa “lugar onde há muitas abelhas” –, na região metropolitana de Curitiba, onde criam, multiplicam e conservam dez espécies de abelhas nativas.

“O Paraná tem catalogado 38 espécies de nativas sem ferrão, cada uma com seus comportamentos. Ainda hoje, boa parte delas está ameaçada de extinção, por incidência de agrotóxicos, por não existirem muitas árvores velhas e ocas – onde fazem o ninho –, e pelo desfloramento. Nós fazemos um trabalho de salvaguarda, além de criadores, com objetivo de vender mel e pólen”, explica Benedito.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

O casal cria espécies compatíveis com o bioma da região. Dessa mesma forma, quem adquire uma caixa de abelhas precisa seguir alguns critérios em respeito a natureza da espécie. O local, por exemplo, não pode ser muito alto, pois o vento prejudica o voo das abelhas. É essencial que haja uma boa reserva de verde em um raio de 500 metros, pois ela circulam por até 2 km em busca do alimento, além de outros cuidados como incidência de luz, frio e barulho, de acordo com a espécie.

Bruno conta que precisou fazer pequenas adaptações na sala para receber as mandaçaias. Ele mantém as janelas sempre abertas para que elas possam sair e entrar sempre que quiserem e para evitar que elas se batam na janela, ele forrou o vidro. Além disso, mantém um cuidado mínimo de manutenção para garantir que elas possam fazer seu trabalho de polinização e multiplicação.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

Conscientização e respeito

Benedito e Salete fazem um trabalho “humanizado” com as abelhas, estudam os tipos de caixa adequadas para cada espécie, trabalhando sempre em colaboração com elas. Benedito explica que ter abelhas sem ferrão em casa traz inúmeras vantagens. “Primeiro porque a pessoa está ajudando na polinização das árvores ao redor, é um eco pet; segundo, porque não existe acidentes, já que é uma abelha sem ferrão; terceiro, é desestressante, uma vez que a pessoa pode sentar próximo e observar o movimento delas, uma forma de terapia indireta; além de poder consumir seu próprio mel e própolis, mas claro, na época certa”, ensina.

Algumas espécies de abelhas se adaptaram ao meio urbano, como a jataí, mandaçaia, guaraipo e manduri. Elas vivem em ninhos, com uma rainha, as operárias e um zangão, sendo responsáveis por cerca de 90% da polinização das plantas brasileiras. Sua sobrevivência é essencial para a manutenção do ecossistema. É possível encontrar ninhos das abelhas nativas em muros, árvores de casco oco e mesmo entre tijolos.

mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa
mel - Bruno Pugioli é personagem da nossa reportagem e mantém uma caixa de abelhas sem ferrão em casa| Gazeta do Povo

A conscientização do papel da abelha no ecossistema é parte fundamental do trabalho de Salete e Benedito. “É todo um movimento positivo, que só vai auxiliar o ecossistema e o meio ambiente”, diz Benedito. Esse movimento que ele se refere são ações como o do Jardim do Mel, projeto promovido pela prefeitura de Curitiba. Pequenas casinhas de abelhas nativas sem ferrão, de diferentes espécies, foram espalhadas pelos parques da cidade para conscientização da população e perpetuação de espécies de vegetais.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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