Depois de incêndio, prefeitura se precipita e derruba casa de madeira mais emblemática de Curitiba

Casa Erbo Stenzel no Parque São Lourenço pegou fogo na madrugada desta quarta-feira (14) e prefeitura decidiu demolir o que restava

Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

por HAUS

14/06/2017

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A construção mais emblemática de tábua e ripa de madeira de araucária de Curitiba foi destruída por um incêndio na madrugada desta quarta-feira (14). É a casa rosa do Parque São Lourenço batizada com o nome de seu ex-morador mais ilustre, o escultor paranaense Erbo Stenzel (1911-1980).

Ainda não há informações precisas sobre qual a origem do fogo, mas, de acordo com o Corpo de Bombeiros, as prováveis causas são curto-circuito ou agentes externos. O tenente Douglas de Araújo Trevisan, responsável pela ocorrência, afirma que em torno de 50% da casa foi queimada. 14 bombeiros trabalharam para controlar o fogo por cerca de uma hora e meia a partir das 3h50 da manhã. “Utilizamos 17 mil litros de água, porque a casa é de madeira e esse material requer que nós esgotemos todas as brasas e fagulhas para que o fogo não volte”, explica.

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Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

No início da tarde desta quarta-feira a prefeitura iniciou a demolição do que havia sobrado da residência histórica. “A indicação é de que ela tem que ser demolida porque o que restou da casa está oferecendo risco para os frequentadores do parque. Provavelmente decidiremos sobre a demolição de hoje para amanhã”, afirmou o diretor de patrimônio cultural da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), Marcelo Sutil. Essa discussão sobre o futuro da casa, no entanto, nem chegou a ser feita. Enquanto Sutil conversava com a reportagem por telefone, o fotógrafo de HAUS, Hugo Harada, registrou a derrubada do restante da casa.

Segundo o arquiteto José La Pastina Filho, sumidade em patrimônio e ex-superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Paraná, a justificativa da Prefeitura em derrubar a casa é infundada. “Era só isolar a área da casa. Não precisava demolir”, frisa La Pastina. “Outra alternativa era desmontar a casa para recuperá-la mais tarde. É um choque saber que fizeram isso com a casa.”

O arquiteto Cláudio Maiolino, especialista em patrimônio e que atuou na transferência da Casa Estrela, entre outras, concorda que a estrutura que não chegou a ser atingida pelo fogo poderia ter sido salva, especialmente por se tratar de um imóvel com valor histórico e arquitetônico.

“Poderia se fazer uma intervenção arquitetônica para a reconstrução da parte danificada, deixando claro no restauro o que foi reconstruído e o que remetia à construção original. Não vi o grau de comprometimento da casa após o incêndio, o que torna difícil o julgamento, mas mesmo as tábuas, dependendo do nível do dano, poderiam ter sido resgatadas”, avalia. “Apagar imediatamente a construção, que é um dos poucos exemplares da arquitetura da madeira da cidade, não seria a melhor solução”, completa.

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Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Questionado sobre a decisão, Sutil disse apenas que “provavelmente, a Comissão de Segurança de Edificações e Imóveis (Cosedi) tenha passado por lá e percebido que era mesmo necessário demolir“. De acordo com o diretor de patrimônio, a investigação não deve ser afetada pela destruição do restante da casa, uma vez que “a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros provavelmente já recolheram todos os dados necessários”.

Entretanto, o coordenador da Cosedi, Marcelo Solera, conta que quando chegou ao Parque São Lourenço a casa já estava sendo demolida. Ele não soube dizer qual foi o órgão que autorizou a demolição. “A gente tinha a informação do incêndio e foi dar uma olhada se seria necessário isolar a área. Mas realmente ela não tinha como ser reparada, mais de 70% do imóvel foi queimado. Ela corria sério risco de desabamento”, afirma.

A assessoria de comunicação da Prefeitura de Curitiba informou que a decisão pela demolição foi tomada em uma reunião entre o prefeito, Rafael Grecca (PMN), o secretário do Meio Ambiente, Sergio Galante Tocchio, o secretário da Defesa Social, Algacir Mikalovski, a superintendente da FCC, Ana Cristina de Castro e um representante da Cosedi.

Erguida originalmente em 1928 no bairro São Francisco por Germano Roessler, a casa foi transferida para o parque em 1998, e desde então estava abandonada e fechada há seis anos. O arquiteto Key Imaguire Junior, com a experiência de quem dedicou a vida à arquitetura de madeira, lamenta a perda e sentencia: o abandono a que a casa vinha sendo submetida é “a razão total para esse incêndio. Você restaura, preserva, traslada, mas é preciso dar um uso para ela. Não tinha uso, estava fechada, acabou”.

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Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

A Fundação Cultural de Curitiba (FCC) tinha um projeto de reutilização do espaço, mas nunca houve verba para tocá-lo. “Ela estava fechada, aguardando manutenção e restauro, mas é difícil prever um acontecimento como esse. Se o incêndio foi causado por vândalos ou usuários de drogas, ele teria acontecido mesmo que a casa estivesse aberta à visitação durante o dia”, afirma Sutil. Ele explica que, “por sorte”, não havia acervo dentro da residência no momento do incêndio.

Arquitetonicamente falando, a casa não se encaixa em nenhuma tipologia conhecida pelos almanaques. Key diz que “ela era um exemplar único, algumas soluções usadas ali não existem em nenhuma outra construção.” Sua exclusividade reside no pé direito externo, que foi aumentado para facilitar a habitabilidade do sótão. E a construção se torna ainda mais especial por guardar histórias da família Stenzel. “Não é possível restaurar essa casa. Você pode fazer uma réplica, uma vez que temos muita documentação sobre a casa, mas a réplica não é a original”, esclarece Key.

Foto: Fred Kendi/Gazeta do Povo

Foto: Fred Kendi/Gazeta do Povo

Com uma história construída sobre a prosperidade da erva-mate e da madeira, o Paraná não conseguiu preservar a grande reserva de araucária de que dispunha. “Essa economia que foi tão poderosa e importante não vai nos deixar nada. A única herança cultural que a gente tinha eram as casas de madeira”, afirma Key.

Agora, só dois exemplares desse tipo de construção ainda resistem em Curitiba. A Casa Estrela, utilizada como espaço de visitação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e a casa que abriga a sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

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Destaque para as réguas decorativas coloridas em estêncil, comuns na década de 1930

Descendente de alemães e austríacos, Stenzel foi artista, tradutor e professor da Escola de Belas Artes e Música do Paraná. Como um dos únicos detentores de prensas de gravura na época, Stenzel era o socorro de diversos artistas paranaenses, que recorriam a ele para imprimir seus trabalhos, como era o caso do pintor italiano Guido Viaro.

Stenzel nunca se casou. Ficou no imóvel até seus 60 e poucos anos e depois foi para o Lar Dona Ruth, uma casa de repouso particular  entre Curitiba e Almirante Tamandaré, onde veio a falecer em 1980.

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Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

*Carolina Werneck, Luan Galani e Sharon Abdalla

Confira mais fotos da Casa Stenzel

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A casa foi projetada e construída por Germano Roessler em 1928

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Sótão com bastante espaço e boa habitabilidade, características típicas das construções germânicas

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