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Casas incríveis em que o apreço pela arte se traduz nos espaços de morar

  • PorHAUS*
  • 17/12/2019 05:00
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Foto: Leticia Akemi

Inspiração. Contemplação. Relaxamento. Revolução. São muitos, e praticamente infinitos, os sentimentos que uma obra de arte é capaz de nos despertar. Ainda mais quando ela está próxima, a poucos passos de distância, e em um ambiente íntimo e acolhedor como a nossa casa. Não que isso desmereça o poder de uma visita a um museu ou galeria, mas são experiências distintas, temos de concordar.

Neste sentido, muito mais do que um objeto de decoração (e quem sabe até de ostentação), uma obra de arte é um reflexo, uma extensão de quem habita determinado espaço e faz dele seu refúgio. Por este motivo é difícil para muitos apreciadores das artes — seja na escultura, pintura, fotografia ou tapeçaria — justificar escolhas pelo trabalho de determinado artista ou pelo estilo que mais lhe toca a alma.

Mais do que adjetivos, a palavra que comumente aparece em qualquer tentativa de resposta é história. Da família, de uma viagem, de um artista. Não importa: ela é o fio condutor das coleções dos entrevistados que trazemos nas próximas páginas, e de muitos outros que costumam ser clientes assíduos de galerias e antiquários, do Brasil e do mundo.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

O significado dela e a mensagem que carrega, que é única para cada pessoa que a contempla, é outro ponto comum entre quem faz da arte uma constante no seu dia a dia, e o ponto de partida para quem quer se iniciar neste universo.

“Muitas pessoas chegam à galeria com certo receio, dizendo que não entendem nada, que não sabem falar sobre arte. Mas não é preciso entender da técnica, é preciso entender do que se gosta. Quando se olha para uma obra e se sente empatia ou repulsa, isso traz informações sobre o que ou quem a pessoa é. Ou seja, a arte também é uma forma de autoconhecimento”, explica a galerista Zilda Fraletti. “Brinco que obra de arte é igual parente: você vai ter que conviver com ela. Queira ou não queira, ela vai mexer de alguma forma com você. Então, esta tem que ser uma aquisição emocional, e não porque alguém indicou, um amigo tem peças assinadas por determinado artista ou você ouviu falar que ele está na moda”, sugere.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

Por isso, o ponto de partida para se aproximar da arte invariavelmente envolve um contato mais próximo com ela, no qual o gosto pessoal se desenvolve a partir da criação de referências. Malu Meyer, diretora da SOMA Galeria, sugere começar essa relação intuitivamente, através de visitas a museus, feiras, ateliês e galerias, percebendo, assim, estilos e técnicas que saltam aos olhos.

Ao gosto, pode-se aliar um investimento em um artista em ascensão. “É mais significativo investir em uma pintura ou escultura como primeira compra de sua coleção. [Apostar em] artistas jovens com carreira promissora é sempre estimulante”, ela recomenda. Informar-se se o autor já integra algum acervo, quantas exposições nacionais já fez e se participou de feiras de arte, são alguns dos caminhos que Meyer sugere para facilitar uma boa escolha.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Iniciante ou experiente, a relação entre o morador da casa, a obra e o ambiente em que ela se encontra é uma equação na qual os resultados são positivos. Nem sempre a ligação que se cria entre os três é racional ou justificável — é algo mais próximo de sentimentos do que de palavras. “A arte representa personalidade e transmite o pensamento e a intenção do artista. Colocando esse pensamento e trabalho dentro de casa, você cria um vínculo com esse artista, porque a obra transmite um sentimento”, ressalta Meyer.

Sentimento que dá vida à casa, que transforma ambientes através da presença de uma obra, seja ela pintura, gravura, fotografia ou escultura. “Arte é a alma da casa, é o que nos dá o sentido de pertencimento”, define Fraletti.

A seguir, conheça histórias de pessoas cuja relação com a arte é refletida em seus espaços de morar. Mais do que artistas ou estilos em comum, elas compartilham a curadoria afetiva de peças, e demonstram como esse relacionamento com a arte se torna natural e intrínseco.

Casa ou galeria?

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

Espaços amplos, paredes brancas e a densidade da arte. Tal descrição poderia facilmente representar o cenário de uma galeria, mas, na verdade, refere-se à morada do casal Fernanda Cassou e André Nacli. Apaixonados por arte desde sempre, eles colecionam pinturas, esculturas e fotografias que fazem com que seja impossível ao visitante encontrar uma só parede vazia no apartamento, com projeto dela, que é arquiteta, localizado no Batel, em Curitiba. São tantas que eles nem conseguem numerar a coleção, que começou antes mesmo da união do casal e vem crescendo e se transformando com o passar do tempo e o crescimento da família.

“Eu já tinha algumas obras e a Fernanda, outras. Quando nos casamos, unimos as coleções e fomos agregando outras obras que compramos, trocamos com amigos e artistas ou ganhamos de presente”, conta André. Há também uma obra, exposta em um grande quadro na sala de estar, assinada pelo próprio André, que além de empresário é artista quase que por acaso e traduz na fotografia sua forma de interpretar a arte presente na união entre natureza e cultura, entre o mundo natural e o construído.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

As demais reúnem nomes nacionais, como Artur Lescher e Marcelo Moscheta, com forte destaque aos artistas locais, entre os quais estão Willian Santos, Hugo Mendes e Washington Silvera. Não se trata de bairrismo, longe disso, mas sim da possibilidade que a proximidade geográfica traz de se conhecer e ir a fundo no conceito que deu origem ao trabalho segundo a ótica do artista, como pontua André. Fato este que está em linha com o que o casal acredita ser a presença da arte nos espaços onde vivem e trabalham – além da casa, eles também mantêm peças no escritório.

“Uma obra de arte tem por função comunicar não apenas uma, mas muitas coisas. Ela é uma linguagem, assim como um texto ou uma música, um meio de se transmitir mensagens. As obras estão aqui para comunicar algo que tem muito a ver com liberdade de expressão, de escolha, de vida. Elas têm uma relação de diálogo, de compaixão”, define André. “Dentro de casa, uma obra de arte é algo que marca a história de uma família. Nós lembramos em que ocasião compramos ou ganhamos as obras que estão aqui. Elas marcam datas comemorativas e acontecimentos da família, como o nascimento das meninas”, acrescenta Fernanda.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

E isto é perpetuado às pequenas filhas gêmeas, que convivem, com menos de dois anos, com as obras à altura das mãos – e das traquinagens que delas podem decorrer -, já têm aulas sobre grandes nomes do universo das artes, como Vincent van Gogh, na escola e têm nas brincadeiras com tintas e pinturas uma rotina (uma discreta manchinha azul na parede da sala é prova disso, e quem sabe um testemunho do nascimento de uma – ou duas – nova Tarsila do Amaral. Só o tempo dirá).

Tal proximidade e familiaridade ao tema retiram das obras expostas pela casa de Fernanda e André o peso e o distanciamento comum a muitos que têm na arte algo de inalcançável, e traz fluidez ao desfrutar do mundo que elas carregam em si. Tanto que é bastante comum vê-las sendo trocadas de parede e de cômodo. “Quem chega aqui muitas vezes fala: ‘é uma galeria?’ Porque tem muito quadro, muita obra. E nós sempre as mudamos de lugar”, brinca o casal. O desafio, agora, será o de abrigar todas elas – e as muitas outras que, com certeza, ainda virão – na nova casa, para onde a família irá se mudar em breve. “Lá tem mais vidro do que parede”, constata André.

Trajetória em técnicas mistas

Na casa de José Antonio e Myrian, as obras refletem a trajetória do artista e a história do casal. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Na casa de José Antonio e Myrian, as obras refletem a trajetória do artista e a história do casal. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Tinta acrílica, nanquim, carvão, tecido, bronze, pastas de papel. São de materiais como estes que nascem as pinturas e esculturas do artista plástico José Antonio de Lima. E, em sua casa, elas estão por toda parte. “Ele ia fazendo as coisas e espalhando pela casa inteira, sempre. Isso veio desde o começo”, relata a jornalista Myrian Del Vecchio, esposa de José Antonio e companheira da jornada artística desde que os dois se conheceram na faculdade de Jornalismo em Londrina, muito antes de ele ser “só artista”. Para ela, essa imersão em obras faz parte do papel da arte em sua casa. “A minha relação nasce em função do interesse dele pela arte, porque senão eu acho que teria uma relação mais intelectualizada e mais racional por uma decorrência da profissão — mas não teria essa intimidade toda. Ela nasce do fato dele ter se tornado artista”.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Mas, nessa história, a via é de mão dupla: o jornalismo também serviu de base para o que viria a ser o artista. Sua experiência plural na área de comunicação permitiu que ele tivesse contato com o cenário contemporâneo da arte. “Quando eu era jornalista, trabalhei em uma assessoria de comunicação que recebia os melhores jornais do país, com cadernos de cultura bons, muito amplos. Eu pegava tudo para ler, e isso me ajudou a suprir cursos de Belas Artes, por exemplo, sabendo o que estava acontecendo no mundo em termos de arte”, afirma José Antonio. Ao mesmo tempo, uma Londrina culturalmente ativa contava com cineclubes e fotoclubes que fomentavam essa formação.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Na sequência, moraram em Maringá, onde a arte entrou em cena com toda força, já com as primeiras exposições. Myrian conta que foi durante esse período que José Antonio “pediu um tempo para ficar só nas artes”. “Ele largou tudo na época. Ele nunca mais mexeu com jornalismo e investiu só em arte — e esse tempo nunca acabou”, comenta. Já em Curitiba, sua carreira atingiu patamares mais sólidos. Em 1988, participou do seu primeiro Salão Paranaense de Artes Plásticas. Em seu extenso currículo, constam exposições individuais na Finlândia, Suécia, Japão e Alemanha, além de ter obras que integram o acervo do Museu Oscar Niemeyer.

Nesse percurso, a permuta passou a ser uma marca da identidade do casal — bem como da casa, cujo projeto foi realizado pelo arquiteto Aldo Matsuda em troca de uma obra. Se o desenho eles já tinham, faltava a execução. “Era uma coisa muito louca: a gente trocava materiais com a construtora”, diz Myrian. “Mármore, torneira, madeira de demolição”, acrescenta o José Antonio. E, quanto à arte, não poderia ser diferente. Orlando Dasilva, Claudio Kambé e Renina Katz são alguns dos nomes que se vêem por lá, fruto da relação entre os artistas.

Via Sacra por Orlando Dasilva, artista próximo ao casal. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Via Sacra por Orlando Dasilva, artista próximo ao casal. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Já as obras de José Antonio invadem cada espaço da casa. Mas são itinerantes, pois ele gosta de trocar os trabalhos de lugar. Apesar de sua produção ter iniciado na década de 1980, só se vê pelas paredes quadros e esculturas de depois dos anos 2000. O que não está exposto — pela casa ou pelos museus e galerias — fica no ateliê, localizado nos fundos do terreno.

Ateliê de José Antonio ganha forma em espaço separado no terreno. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Ateliê de José Antonio ganha forma em espaço separado no terreno. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

É a partir dessa curadoria pessoal que a casa ganha um caráter orgânico, quase involuntário, de mostra autoral. “Catedrais” no mezanino. “Casulos” na sala de televisão. “Ferramentas e Armas” na sala de jantar. Um percurso pelas suas coleções que denota, enfim, uma intimidade sincera.

Arte protagonista

Hamilton é um amante
da arte contemporânea — especialmente da pintura e da escultura. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Hamilton é um amante da arte contemporânea — especialmente da pintura e da escultura. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

Hamilton Moreira e a arte se cruzaram em um mochilão pela Europa. Ele estava em seus vinte e poucos anos, estudante de Medicina. Foi daqueles encontros que, depois que acontecem, não há mais volta — e marcou o início de uma relação íntima. Desta viagem, só trouxe memórias. Mas foi tocado por museus, obras e artistas que criaram seu gosto pela coisa. “A arte pra mim se situa num limbo, em uma região de transição entre a imaginação e a loucura. O artista é emoção pura”.

Moreira não se considera um grande entendido do ramo. Sua relação com a arte é orgânica: nasce através do contato, da vivência da obra. Por isso, seu gosto tende à arte contemporânea — especialmente na pintura, na escultura e na zona híbrida entre os dois formatos. “A arte contemporânea tem muito mais emoção. Para você entender a obra, você precisa interagir”.

Quadro de Iberê Camargo é um dos destaques da casa. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Quadro de Iberê Camargo é um dos destaques da casa. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

É através dessa curadoria afetiva que, hoje, não há parede na casa de Moreira em que não se veja um quadro. Ele começou adquirindo pôsteres e reproduções durante seu doutorado em Los Angeles. Aos poucos, expandiu a coleção aproveitando oportunidades de conhecer novos artistas em museus e galerias do mundo todo, sem medir esforços para trazer para casa seus achados — o que muitas vezes resulta em operações complexas pela fragilidade das obras. Sua esposa, Marcia Caporrino Moreira, é aliada no processo. Apesar de sua relação com a arte ser impactada pela de Moreira, é ela quem passa mais tempo nos museus, “lendo todas as plaquinhas”.

Uma vez em casa, poucas obras ganham lugar fixo. O Iberê Camargo é um exemplo, assim como a escultura de Salvador Dalí e o lustre de Ingo Maurer. E uma escultura do paulista Sérgio Sister, logo na entrada, que Moreira arrisca dizer uma de suas preferidas pela capacidade de chamar atenção para o que nunca é o foco: a moldura. No mais, as poucas paredes ganham vida por sua efemeridade.

Obra de Sérgio Sister leva o olhar para a moldura, elemento que normalmente não se nota. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Obra de Sérgio Sister leva o olhar para a moldura, elemento que normalmente não se nota. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

Mas as paredes não são escassas por acaso. O projeto da casa foi desenhado por um amigo do casal, o arquiteto Fernando Iglesias, que tinha influências do mexicano Ricardo Legorreta, conhecido por grandes volumes que valorizavam a presença da água e da luz natural, e do americano Richard Meier, mestre do modernismo. A referência do movimento incluiu no projeto janelas que vão do chão ao teto, pés-direitos duplos e pilotis.

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo| Leticia Akemi

Apesar de imperativo, o protagonismo da arte não levou a família a testar seus dotes artísticos. “Meus filhos têm um pouco de ligação porque falo muito sobre isso. Mas eu não sei por que eu enveredei por esse caminho”, ele afirma. A releitura de uma escultura do italiano Marino Marini na entrada da residência ajuda a responder esse questionamento. A obra traz uma pessoa montada em um cavalo, de braços abertos para uma suposta brisa vinda do mar. “É mais difícil transmitir felicidade do que dor, tristeza. Ser tocado pela felicidade dá muito trabalho, e por isso que eu adoro aquilo: tem tudo pra ser feliz”. Ele afirma que, acima de tudo, os artistas são corajosos por exporem o que são através de seu trabalho. “Sou uma pessoa que é tocada por algumas obras e alguns artistas, e eu me encontro nesse lugar também. Eu tenho coragem na minha vida, sou uma pessoa que realiza coisas. Então tenho empatia”.

Caso de família

O casal Raphaella e Tica Sigel possui um acervo particular com mais de  mil obras de arte. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
O casal Raphaella e Tica Sigel possui um acervo particular com mais de mil obras de arte. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

A relação do casal Raphaella e Tica Sigel com a arte é algo que está no sangue. Ela, filha de Armando Carlos Cervi, cresceu vendo o pai frequentar semanalmente uma roda de amigos composta por nomes que fazem inveja a qualquer aspirante a conhecedor das artes, como Poty Lazzarotto, Fernando Calderari e Juarez Machado, além de ter no tio, Kiko Cervi, o artista plástico que levou o nome da família aos quatro ventos. Tica, por sua vez, não fica atrás e tem no primo, o artista plástico Harvey Schlenker, uma das figuras que contribuíram para formar sua relação com o tema. “Ele pintava ao ar livre. E também pintou com Miguel Bakun. Eu viajava frequentemente com ele para Paranaguá e para a Serra da Graciosa para ficar vendo ele pintar”, lembra.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Destas relações intensas, nasceu o que Raphaella descreve em tom de brincadeira como uma “compulsão” pela arte. O substantivo pode soar exagerado, mas parece adequado quando o casal de joalheiros conta que passa “facilmente” de mil peças as obras que mantém em seu acervo particular. São tantas que, além do apartamento onde moram com os dois filhos (que tem projeto de Cris Daros), a família mantém outros dois imóveis para abrigar e expor telas, tapeçarias, esculturas, móveis e luminárias de design — outra das paixões de Tica, também fruto da herança familiar vinda da tradicional fábrica de luminárias Sigel, mantida pelo seu pai e avô. A coleção do joalheiro, porém, enfatiza o design italiano, especialmente peças de Gae Aulenti.

Entre as assinaturas expostas nas paredes, estantes e onde mais se puder apoiar ou pendurar algo, além dos sobrenomes das famílias, como seria fácil imaginar, aparecem outros estelares, como Dale Chihuly, Juarez Machado, Genaro de Carvalho e Abraham Palatnik, além de itens herdados de família, como uma coleção de hipopótamos que foi de uma tia de Raphaella. A coleção de design do casal é igualmente representativa, trazendo peças de Dorothy Thorpe, Fetiche Design, Martin Eisler, Giuseppe Scapinelli, Sérgio Rodrigues e Oscar Niemeyer, para citar alguns. E eles, ou o número da coleção da família, com certeza não irão parar por aí.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

Além da assessoria quase familiar de antiquários e galerias curitibanas para localizar e validar peças, Tica e Raphaella não poupam sola de sapato nas viagens que fazem pelo mundo. Adoram uma feira de antiguidades, antiquários, vendas de garagem, leilões e tudo o mais onde puderem encontrar um item para acrescentar à coleção da família, que já é reconhecida e valorizada pelos filhos. Esse comichão é tamanho que já rendeu algumas boas histórias, como a de verdadeiros tesouros encontrados à venda sem o devido reconhecimento ou a de quando a família ficou “presa” em um aeroporto nos Estados Unidos depois que policiais suspeitaram que um inocente vaso de murano em formato cilíndrico era uma bomba transportada na mala de mão.

Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Fernando Zequinão

“O que bate no nosso coração nós trazemos para fazer parte da coleção. E é incrível como as peças, mesmo que de estilos diferentes, se comunicam. As pessoas que nos visitam falam que a nossa casa pulsa, que tem vida”, conta Raphaella. “A casa vai mudando conforme nosso espírito, a época do ano, quando guardamos algumas obras e expomos outras. Se você voltar aqui daqui a seis meses, vai ser outra casa”, acrescenta Tica.

*Aléxia Saraiva e Sharon Abdalla.

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