De 2016 a 2020, Maurício Arruda criou, executou e apresentou as transformações feitas no programa Decora, do canal GNT.
De 2016 a 2020, Maurício Arruda criou, executou e apresentou as transformações feitas no programa Decora, do canal GNT.| Foto: GNT/Divulgação

Uma das falas mais surpreendentes de toda a Expo Revestir 2021 e seus eventos paralelos foi a palestra do arquiteto Maurício Arruda durante o Archtrends Portobello 2021. O arquiteto paranaense, radicado em São Paulo, reconhecido pelas transformações que liderou ao longo de cinco anos à frente do programa Decora, do canal GNT, destacou logo no início: "O cliente é mais importante do que eu. O morador, e não o arquiteto, é a estrela do projeto."

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E a partir dessa constatação pessoal, Arruda compartilhou de forma bastante transparente a metodologia de desenvolvimento de projeto de seu escritório, que tem como peça central a questão do colaborativo e uma maior participação do cliente nas tomadas de decisões.

"Isso mudou a nossa maneira de projetar, transformou e otimizou processos, colhemos frutos econômicos, potencializou a maneira de criar e permitiu que lançássemos um novo produto dentro do escritório", resume o arquiteto.

Mas essa visão foi surgindo e foi amadurecendo, segundo Arruda, com o programa de TV que ele comandou no GNT. Para dar conta de apresentar sempre ideias e soluções novas todas semanas ao longo de cinco anos, ele percebeu que deveria escutar mais o morador, focar mais nas histórias do cliente do que no repertório pessoal do arquiteto.

"E ao mesmo tempo, meus sócios Fábio e Laís sugeriram para a nossa equipe do escritório fazer mais entregas e entregas menores, do que fazer menos entregas e entregas maiores", conta. Qual a diferença? De acordo com Arruda, convencionalmente, o escritório reunia todas as informações, desenhava a planta, interpretava do ponto de vista deles e entregava as melhores soluções para o contratante. "Eram entregas grandes, em que o cliente tinha acesso a plantas e perspectivas renderizadas, que, na maioria das vezes, tinham que ser refeitas, reajustadas a pedido do morador. E isso dá trabalho. A remodelagem precisava ser toda refeita", explica Arruda.

Foi assim que ele percebeu que seria mais produtivo e mais interessante colocar o cliente em todas as etapas e ir entregando o projeto por partes. "Logo no início existe algo que a gente chama de reunião de decisões, e o cliente era chamado para colaborar com o projeto, ter poder de decisão", relata.

"Confesso que eu fui o mais resistente em mudar a metodologia. Porque eu venho de uma escola em que o arquiteto é o protagonista e o solucionador de problemas. Eu achava que, se dividisse isso com o cliente antes da apresentação do projeto executivo, meu poder de venda seria menor. Achava que eu estragaria a surpresa do final. E fui percebendo, que o contrário acontecia", confidencia, falando que se preocupava muito com a assinatura do profissional, com o projeto ter a sua cara, do Instagram ter fotos com uma única linguagem, uma mesma linha estética condutora. Hoje ele pensa diferente.

"Hoje penso que o projeto tem que ficar com a cara do cliente, e uma heterogeneidade nas criações prova esse ponto". E para isso o cliente precisa de opções. Arruda diz que atualmente primeiro o seu escritório faz plantas baixas, bidimensionais, e entrega junto ao cliente um caderno de referências. "E é bom deixar claro que a gente faz o que o cliente gosta, e não o que ele quer. É bem diferente", frisa. Os arquitetos e Arruda leem as informações, filtram tudo e mostram sempre dois projetos com soluções diferentes, cortinas diferentes, camas diferentes. "De cara chamamos o cliente para decidir junto. Ele pode escolher um mix desses dois, um item de um e o resto de outro, enfim. Isso já é muita informação, porque passa pelo entendimento de quem ele é, de como se vê, de como vê a casa dele".

"O cliente entende que essa é a fase para tomar decisões. Porque durante a obra não é o momento mais para isso, com exceções de surpresas que podem acontecer nos canteiros", diz, lembrando que no passado muitos clientes queriam mudar muitas coisas na obra justamente porque não tiveram espaço para decidir durante o projeto.

Depois dessa configuração, eles fazem as maquetes 3D, sem cor, só volumétrica, de todos os ambientes. E não renderizam. Mostram imagens renderizadas de outros projetos que tenham soluções parecidas. "A gente explica para o cliente que renderizar é trabalhoso e que isso sairá mais caro para o escritório e para ele", destaca. "Então, a gente deixa isso para o final, uma vez que vários detalhes ainda podem mudar". É nesse momento da maquete que o cliente escolhe peças de gosto pessoal, e o escritório oferece um caderno de opções com peças que cabem no bolso e no orçamento do cliente. E tudo isso, segundo Arruda, ajuda com que cada vez menos seja necessário refazer etapas, o que torna os processos mais lucrativos e assertivos.

"Quando o arquiteto é protagonista, ele gosta de fazer surpresa com o projeto executivo. Ele chega e diz: 'Vai ser assim"'. E espera que o cliente faça um Uau. Mas o uau nem sempre vem, e o arquiteto fica boiando. Por que não consegui seduzir? Meu projeto é tão maravilhoso e impecável!", brinca Maurício. "Isso acontece porque o cliente não se viu ali, não participou o suficiente. Quando participa, o uau vem muito mais", garante.

Outro detalhe que eles mudaram é o moodboard. Muitos escritórios utilizam a ferramenta no início do processo, na fase inspiracional. Mas Arruda passou a fazer o moodboard em uma fase mais madura do processo, depois que o cliente já validou vários elementos. E no final, entrega-se o projeto executivo.

"Outra modalidade que surgiu é o projeto a distância, de um cômodo geralmente. São bem mais simples, tem um número de encontros menor com o cliente e a gente tenta enxugar ao máximo o custo do projeto", compartilha. O escritório pede fotografias do espaço, ensina a própria pessoa a tirar medidas, e, a partir dessas informações, faz a planta. Depois há uma reunião de briefing e, após 10 dias, aproximadamente, o escritório apresenta uma maquete com projeto executivo. "Lembrando que nunca apresentamos uma proposta só. Damos opções e oportunidade de escolha no processo. O cliente faz a colagem que quiser".

E como garantir que a execução desse projeto mais simples será boa? Arruda diz que essa não é uma preocupação nesses casos porque, em geral, eles vão sendo feitos aos poucos, paulatinamente pelos moradores.

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