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Lissa Carmona sentada em uma poltrona.
Lissa Carmona é embaixadora do design moderno e contemporâneo do Brasil, atuando como CEO e curadora da Etel.| Foto: Iara Morselli/Divulgação

Quando alguém se refere à Lissa Carmona como "embaixadora do design moderno e contemporâneo do Brasil", não é exagero. CEO e curadora daquela que pode ser considerada a maior coleção do tipo do país - a ETEL, criada por sua mãe, a designer Etel Carmona -, Lissa vem há mais de 25 anos trabalhando para levar o design brasileiro para diversas partes do mundo, como os Estados Unidos, Canadá, Europa, Líbano e Coreia do Sul.

Na semana em que participou da Expo Revestir 2022, a empresária respondeu por e-mail algumas perguntas enviadas pela HAUS. Na entrevista, ela fala sobre a Casa Zalszupin e a importância de conhecermos nosso passado, sobre a ETEL, seus planos e processos, sobre o design brasileiro no mundo e sobre os aprendizados obtidos com Patrícia Urquiola e a própria Etel Carmona.

Veja a cobertura completa da Expo Revestir 2022

A ítalo-brasileira Lissa Carmona é uma das principais responsáveis pelo boom do design brasileiro no exterior, especialmente na Europa e nos Estados Unidos.
A ítalo-brasileira Lissa Carmona é uma das principais responsáveis pelo boom do design brasileiro no exterior, especialmente na Europa e nos Estados Unidos.| Andres Otero/Divulgação

Por que é tão importante olhar para o passado para construir o futuro?

É importante olhar para o passado para entendermos as nossas referências e preservarmos a nossa identidade. Apenas com as memórias afetivas, a nossa memorabilia, teremos os alicerces para construirmos um futuro autêntico e verdadeiro. Quem não tem passado não tem futuro, porque não possui referência de quem se é e, portanto, não tem identidade.

Como você avalia a experiência com a Casa Zalszupin até agora?

Extremamente bem-sucedida em todos seus diferentes aspectos. Primeiro na preservação, dando um destino nobre à essa história e esse trabalho tão importante que foi a herança cultural e histórica deixada por Jorge Zalszupin. Considero que foi também vitorioso como provocação, de como o passado pode, sim, coexistir com o presente, o progresso e avanço das cidades - e que não deveríamos demolir, destruir um registro de um tempo e de um importante autor que foi Zalszupin. Também foi bem-sucedida como ponto de referência de arquitetura, design e arte, uma iniciativa não muito explorada na cidade de São Paulo, e que conecta a cidade, instiga o caminhar, o explorar, o descobrir.

Por que você acredita que levou tanto tempo para o Brasil aceitar suas produções modernas e contemporâneas de mobiliário?

Não sei se entendi bem, ou se concordo. Com todos os eventos históricos, acabamos perdendo as nossas referências, muita história foi abandonada. Não que não era aceito, mas demorou para ser redescoberto. Por conta da ruptura que tivemos no final da década de 1960, nós perdemos as nossas referências, abandonamos nossa história e o apogeu do design e arquitetura moderna brasileira. Na década de 1990, surgiu uma nova produção de mobiliário, e foi esse movimento e interesse que nos fez vasculhar e redescobrir a nossa história.

O móvel moderno virou um estilo. Dos valores iniciais do movimento, em que se pensava na necessidade de ser acessível a todos, por exemplo, não sobrou pedra sobre pedra. Você concorda? Por quê?

Não concordo. Houve diversas propostas, entre elas estava inicialmente criar uma identidade brasileira, liderada por uma elite vanguardista, mas não foi por um distanciamento dos valores iniciais, mas pelas condições de um tempo e um lugar, onde não existia um cenário favorável industrial que propiciasse esse tipo de produção, apesar da vontade dos designers.

Poltrona Dinamarquesa, por Jorge Zalszupin. Reedição original ETEL
Poltrona Dinamarquesa, por Jorge Zalszupin. Reedição original ETEL| Fernando Lazslo/Divulgação

Qual a quantidade média de peças que vocês comercializam ao mês no mundo todo?

É difícil quantificar porque temos peças de tipologias bastante distintas, que vão desde acessórios pequenos até coisas maiores. Mas temos uma boa produção e atendemos representantes no mundo todo, o que nos deixa bastante contentes com a receptividade do nosso design nos quatro cantos do mundo.

Quantas peças em catálogo vocês têm hoje?

Muitas, centenas. Mas mais do que a quantidade de peças, o que acredito ser ainda mais significativo é a quantidade de designers relevantes, que marcaram época, integrantes da constelação ETEL. Hoje no nosso corpo de designers temos nomes de gigantes que marcaram sua época. Desde os primeiros precursores, como Warchavchik, Segall ou o pai do móvel moderno brasileiro Joaquim Tenreiro, licenciado pelo Instituto Tenreiro, até grandes nomes posteriores como Lina Bo Bardi, Jorge Zalszupin, Zanine Caldas, e também grandes contemporâneos como Claudia Moreira Salles, a própria Etel, Isay Weinfeld, Arthur Casas. Ficamos orgulhosos de representar tantos grandes nomes.

Qual país mais consome os móveis brasileiros hoje? Por quê?

Hoje felizmente são vários. O movimento começou pelos Estados Unidos que exportamos e vendemos desde meados dos anos 1990. Na sequência a Europa passou a se interessar bastante, onde estamos bem consolidados, e com uma galeria sede em Milão, mas eu diria que tivemos algumas boas surpresas no caminho de países interessados no nosso design. Nos últimos anos experienciamos uma grande procura e entusiasmo dos países asiáticos, como China, Japão, Coréia, Austrália.

Poltrona Manta Solta, por Joaquim Tenreiro. Reedição ETEL autorizada pelo Instituto Tenreiro
Poltrona Manta Solta, por Joaquim Tenreiro. Reedição ETEL autorizada pelo Instituto Tenreiro| Fernando Lazslo/Divulgação

Como funciona o processo de seleção da curadoria da ETEL?

A curadoria é um processo criterioso baseado principalmente na relevância e atemporalidade. Tem que ser autêntico, funcional, ter um diferencial e, principalmente, ser uma peça atemporal, não fugaz, capaz de permear o tempo do passado para o futuro, ser um clássico.

Você passa bastante tempo na Itália também. A partir da sua vivência, em que consiste a diferença entre o gosto dos italianos e o gosto dos brasileiros no que tange a decoração e os móveis?

A principal diferença, ou a que me chamou mais a atenção é o uso da cor. Os italianos são mestres da cor. Eles até esperavam que usássemos mais cor aqui, por sermos uma país tropical, mas usamos menos - até pelo contraponto com a exuberância da natureza e a permeabilidade da natureza nos espaços internos, já que somos um país quente, temos essa tendência de usar cores mais sóbrias. Outra diferença marcante é que a Itália tem uma produção industrial muito forte.

Como foi trabalhar com a Patrícia Urquiola? Alguma lembrança, lição ou curiosidade da relação com ela que possa nos contar?

Foi fantástico. A Patricia é uma pessoa incrível que navega por diversas áreas de conhecimento, e está sempre preocupada com o propósito. Eu lembro muito de um dos encontros, em que ela me chamou para mostrar outras peças com nuances. Foi uma troca incrível que me inspirou na criação de um material totalmente novo para a nossa coleção. A Patricia é sensível, tem uma abrangência de pensamento incrível, atenta a tudo que acontece no mundo. Só posso dizer que foi um grande prazer trabalhar com ela.

Isso marca um desejo da ETEL de se dedicar também a profissionais de outros países?

No momento que a ETEL se estabeleceu na Itália, nós iniciamos uma relação muito interessante e frutífera com esse entorno. Nós carregamos os mesmos anseios modernistas, com a convicção de que temos total capacidade de participarmos dos grandes movimentos e pensamentos de design no mundo. Se no início do século passado os estrangeiros imigraram para o Brasil dispostos a entender e se relacionar com o Brasil com base nas suas vivências e suas origens, agora estamos com os estrangeiros para trabalharmos juntos em um novo movimento antropofágico, onde os grandes designers internacionais têm a oportunidade de dialogar com o nosso país, nossa produção e nossa história.

Carrinho Cascas, desenhado por Patricia Urquiola para a coleção ETEL
Carrinho Cascas, desenhado por Patricia Urquiola para a coleção ETEL| Fernando Lazslo/Divulgação

Você ainda está à frente da Fundação Niemeyer? Quais surpresas podemos esperar?

Gostaria de aproveitar essa pergunta para esclarecer que não estou à frente da Fundação e nunca estive, mas fui gentilmente convidada pelo diretor executivo, Ciro Pirondi, para ser a diretora internacional. Meu papel é justamente identificar as oportunidades e as ameaças para a preservação e difusão do grande mestre Oscar Niemeyer no mundo, onde eu estiver presente. Temos muitas surpresas incríveis ainda para este ano, mas não posso dar muitos detalhes por enquanto.

E sobre projetos novos da ETEL. Poderia nos contar o que está no horizonte?

A ETEL é uma design house, uma editora de design, e todos os anos temos geralmente de dois a três projetos e ou designers novos. Temos alguns lançamentos já programados, alguns em solo nacional durante a SP-Arte, onde apresentaremos exatamente esse diálogo do Brasil com o mundo, e também teremos em breve o lançamento de mais uma designer italiana.

Por último, mas não menos importante, qual a principal lição que você aprendeu com a sua mãe no mundo do design?

A principal lição é olhar para tudo. A Etel, minha mãe, sempre foi muito ligada à produção e à natureza, à beleza. Esse olhar atento e generoso, essa capacidade de olhar sempre para frente, onde quer que seja. Saber transformar essa percepção em design, olhando para a funcionalidade e a beleza.

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