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Foto: Francesco Brigida
Foto: Francesco Brigida| Foto:

No dia 25 de fevereiro, a organização do Salão do Móvel de Milão e o conselho de administração das indústrias do setor – Federlegno Arredo Eventi – anunciavam que a 59ª edição da mais importante feira de design no mundo seria adiada para o mês de junho devido à epidemia da Covid-19. Claudio Luti, presidente do iSaloni e proprietário da marca Kartell, jamais poderia imaginar que, apenas 32 dias depois, teria de comunicar o cancelamento da manifestação.

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“Nos deparamos com uma situação inimaginável”, relatou ele por telefone em entrevista exclusiva à HAUS. “A solução encontrada foi cancelar a edição 2020 e postergar para o ano que vem, entre os dias 13 e 18 de abril de 2021. Uma decisão dolorosa, mas inevitável. A prioridade, neste momento, é salvar as empresas até porque o Salão só existe porque existem essas empresas”.

No ano passado, a feira registrou números surpreendentes: mais de 386 mil visitantes vindos de 181 países. Sem contar os mais de 1.000 eventos paralelos do FuoriSalone espalhados por toda a metrópole. O que será do design e do evento mais importante do setor? Essas são algumas das perguntas que fizemos ao presidente do iSaloni que, apesar da quarentena imposta pelo governo italiano, desde o último dia 11 de março, não parou de trabalhar um minuto do seu home-office, que fica na cidade de Milão. A quarentena italiana, inclusive, terá o relaxamento gradual implementado a partir da próxima segunda-feira (4), sendo que algumas das principais marcas do setor, como Moroso e B&B Italia, já iniciaram a retomada das atividades. Confira a íntegra da entrevista!

Quando exatamente foi tomada a decisão de cancelar o Salão do Móvel 2020 e quais os fatores que mais pesaram nessa decisão?

Estamos vivendo um momento complexo e dramático. É preciso senso de responsabilidade. A organização do Salão do Móvel, desde os primeiros dias da chamada emergência Covid-19, adotou rigorosamente todas as providências estabelecidas pelas autoridades. Esse foi um dos motivos pelos quais, a princípio, resolvemos adiar a feira. Quando a situação se agravou e a epidemia se alastrou por todo o mundo, decidimos que era hora de cancelar o Salão deste ano. Pesaram, é claro, fatores como garantir o distanciamento social e o perigo do deslocamento geográfico - ações indispensáveis para conter o contágio. O que, porém, não significa que em um futuro próximo não possamos nos locomover.

Em 2021, o evento completa 60 anos. É ainda muito cedo para prever como será o Salão do Móvel do próximo ano?

O Salão do Móvel, de certa forma, se depara com uma nova realidade e demonstra que tem energia, paixão e obstinação de sobra para sobreviver. Já estamos trabalhando duro para a edição de 2021, que irá comemorar o aniversário de 60 anos. Será um acontecimento especial para todo o setor. Pela primeira vez, teremos concomitantemente o Salão Internacional do Móvel, a Work-place 3.0, o S.Project e Salão Satélite além da Euroluce, já prevista para 2021, e Eurocucina, com o FTK “Tecnologia para a Cozinha” e a Exposição Internacional de Banheiros.

 Feira, que é a mais importante do setor de móveis no mundo, já tem nova data: de 13 a 18 de abril de 2021. Foto: Divulgação
Feira, que é a mais importante do setor de móveis no mundo, já tem nova data: de 13 a 18 de abril de 2021. Foto: Divulgação

O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, disse que desde 2015 a cidade tem recebido, ao ano, cerca de 10 milhões de turistas. Em 2020, o número será de 1 milhão e,  em 2021, a previsão é de que sejam 3 milhões. Esses números podem afetar as comemorações do Salão 2021?

Atualmente, estamos muito preocupados com as pessoas e as empresas afetadas pela pandemia. Temos consciência que nada será como antes. Essa crise está nos ensinando quão importante é respeitar as regras e ao mesmo tempo sermos mais ágeis, criativos e inovadores. A 60ª edição do Salão do Móvel de Milão será uma manifestação única, um hino à beleza de modo geral.

Qual o prejuízo para o setor do design “Made in Italy”? É possível uma recuperação, em quanto tempo? 

Nesta fase é absolutamente fundamental que as empresas possam voltar a produzir para que os produtos cheguem às lojas e aos consumidores o mais rápido possível. Acredito ser necessário, também, um plano europeu de ajuda às empresas e à exportação, evitando que alguns países saiam perdendo em relação a outros.

Sustentabilidade é uma busca importante no design. As empresas estão, cada vez mais, investindo no uso de materiais recicláveis e de processos que impactem menos o ambiente. Depois do coronavírus, teremos um novo foco? 

Ratifico o que disse durante a coletiva de imprensa do Salão do Móvel, em fevereiro passado: o que necessitamos hoje é criar uma correlação entre a ética e o design e, desta forma, incrementar as pesquisas para encontrarmos soluções sustentáveis em um contexto global. Queremos um design que impulsione mudanças e que atenda à crescente exigência das novas gerações que, mais do que nunca, estão interessadas no valor intrínseco do produto. A constante busca pela beleza, que se traduz na combinação de vários fatores, será com certeza o conceito-chave do Salão do ano que vem e irá reforçar e consolidar a importância global da feira em antecipar as tendências no setor.

 Edição de 2021 irá comemorar o aniversário de 60 anos do Salão do Móvel de Milão. Foto: Divulgação
Edição de 2021 irá comemorar o aniversário de 60 anos do Salão do Móvel de Milão. Foto: Divulgação

A China se tornou um mercado imprescindível para o setor de design, tanto na produção quanto no consumo. Será o momento de rever isso e voltar a investir mais na produção local, mesmo que isso aumente os custos? 

A parceria com a China é estratégica para que possamos fortalecer a presença e o know-how do chamado “Made in Italy” em um dos mais promissores mercados no mundo. Continuaremos nesse caminho.

O design italiano como o conhecemos nasceu e ganhou relevância no pós-guerra. Guardadas as proporções, pode-se dizer que talvez vivemos um momento similar. Que uma “nova onda” do design deve surgir vencida a pandemia?

O design italiano saberá reagir a essa situação e sairá ainda mais forte como fonte de inspiração do cenário internacional da criatividade, seja ele ligado ao setor de mobiliário e da decoração. E não só. O Salone se uniu a outras instituições para a doação de máscaras e, ao redor do mundo, são incontáveis as iniciativas de empresas e designers em somar esforços para a contenção do coronavírus.

Acredita que isso pode jogar luz e mudar a percepção do público em relação ao papel do design e ao trabalho que os profissionais e marcas realizam?

Fizemos, como instituição, uma doação de mais de 500 mil máscaras para procedimento cirúrgico à Cruz Vermelha italiana. Solidariedade é algo que está no DNA dos italianos e do design “Made in Italy” e a demonstração está na enorme quantidade de doações feitas por cidadãos comuns e empresas que se uniram para ajudar principalmente o sistema único de saúde italiano. Em relação ao design, muitas marcas nacionais e internacionais e, principalmente, muitos profissionais do setor se colocaram à disposição para oferecer soluções criativas. Acho que isso pode ser um primeiro passo para que o público entenda a importância do design e de quem com ele trabalha. É um setor que dá respostas com o lançamento e criação de produtos que, inclusive, podem salvar vidas. Estamos dando a nossa contribuição com criatividade, inovação e precisão.

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