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Projeto de apartamento assinado por Luciana Gibaile mescla móveis contemporâneos com peças de decoração artesanais. Foto: Rodrigo Ramirez
Projeto de apartamento assinado por Luciana Gibaile mescla móveis contemporâneos com peças de decoração artesanais. Foto: Rodrigo Ramirez| Foto:

Conforto. Refúgio. Santuário. Estes são alguns dos substantivos que aparecem na extensa lista que define (ou que se passou a perseguir para que defina) a casa desde que a pandemia do novo coronavírus atingiu os quatro cantos do globo.

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Não que antes o significado deles não fosse relevante. Mas não é difícil admitir que a correria do dia a dia fazia com que muitos de nós, moradores, não nos atentássemos ao que eles representam e à influência que têm sobre a nossa sensação de bem-estar no ambiente doméstico.

E nesta busca, um dos aspectos que aparece como protagonista é o que trata da presença de itens relacionados ao artesanal e à memória afetiva na decoração. A justificativa? Eles têm o poder de nos conectar com quem somos, às nossas raízes, nossa história.

"Quando você tem um ambiente que retrata quem você é, você se sente livre, à vontade ali. Quando se pensa em conforto emocional, ele vai além [do simples] gostar ou não gostar [de algo]. Sabe quando, na moda, dizem que você está bem vestido quando está na sua pele? Uma casa bem projetada é uma casa que é você. O certo e o errado são relativos dentro daquilo que você é", aponta a arquiteta Luciana Gibaile.

Andrea Correa, especialista de produtos da Berneck, empresa especializada em painéis de MDF, MDP e HDF, acrescenta que a busca pelo afetivo dentro de casa também é uma espécie de resposta ao receio que temos da tecnologia. "Por um período [da história], a tecnologia parecia incrível, como o futuro pensado [nos moldes] dos Jetsons. E este futuro não aconteceu. As coisas estão [mudando] muito rápido e a gente mais de nunca tem se apegado às coisas que nos dão tranquilidade, como uma cestaria, um tricô feito pela tia-avó, uma manta no sofá. Ou seja, primeiro esta questão visual e, segundo, à relacionada ao toque. O ser humano é um ser sinestésico", lembra ela.

Apenas peças de acervo?

A primeira e mais simples solução quando se pensa em trazer a memória afetiva para a decoração de casa é destacar objetos de que já se dispõe e que remetem a viagens, à família, aos amigos e a bons momentos vividos. E aqui cabe uma lista deles (comprados, herdados ou com os quais se foi presenteado): fotografias, quadros, souvenirs, livros, discos, plantas, móveis, louças, artigos de cama e mesa, objetos de decoração e até mesmo cartas e bilhetes, por exemplo.

Projeto de escritório assinado por Luciana Gibaile destaca cômoda e anjos da guarda que acompanham a história da família e remetem à infância da cliente. Foto: Renata Salles
Projeto de escritório assinado por Luciana Gibaile destaca cômoda e anjos da guarda que acompanham a história da família e remetem à infância da cliente. Foto: Renata Salles

E se engana quem pensa que tê-los à mostra significa comprometer de alguma forma o projeto. O segredo está na harmonia da composição. "Os profissionais não devem desprezar objetos que a pessoa ganhou, colecionou, trouxe de viagens. Eles podem tratá-los montando uma espécie de galeria, melhorando a maneira como a pessoa vai conviver com estas peças, de forma que elas fiquem bem integradas ao projeto", sugere a designer de interiores Lia Strauss, vice-presidente da Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD).

 Sala de estar da designer de interiores Lia Strauss guarda a memória afetiva nas gravuras, livros e objetos que coleciona ao longo de sua história. Foto: arquivo pessoal
Sala de estar da designer de interiores Lia Strauss guarda a memória afetiva nas gravuras, livros e objetos que coleciona ao longo de sua história. Foto: arquivo pessoal

Reproduzir ou adquirir peças que acionem este link com o emocional por meio de materiais, cores ou formas é outra das alternativas a que se pode recorrer no momento de ambientar os espaços. "Fizemos um projeto no qual a cliente queria muito usar veludo no sofá, porque [o tecido] a lembrava da casa da avó. Outro cliente, para o qual estamos finalizando um espaço gourmet, não abriu mão fogão a lenha, mesmo que não tenha tanto tempo para cozinhar nele, porque também remete à casa da avó, à infância. É possível reproduzir ou trazer uma versão estilizada [desta memória para o projeto]", exemplifica a arquiteta Luciana.

Decoração do escritório de advocacia traz fotografias de lugares que fazem parte da história do cliente, como o alojamento estudantil e a igreja que frequentava. O projeto é de Luciana Gibaile. Foto: Fernando Zequinão.
Decoração do escritório de advocacia traz fotografias de lugares que fazem parte da história do cliente, como o alojamento estudantil e a igreja que frequentava. O projeto é de Luciana Gibaile. Foto: Fernando Zequinão. | Fernando Zequinao

Feito à mão

Para quem deseja ir mais fundo nesta busca pelas raízes, investir em peças artesanais é a sugestão das profissionais. Isso porque a arte popular extrapola a memória individual e se refere à história de lugares e pessoas enquanto povo.

E este artesanal aparece tanto em peças de design assinado, mas que exaltam as técnicas e saberes do feito à mão popular, quanto nas produzidas pelos artistas e artesãos dentro das comunidades e que remetem à cultura e às tradições locais, sejam elas relacionadas à cidade, ao estado ou ao país.

 Hall de entrada do Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória, destaca as raízes brasileiras e do Espírito Santo por meio do banco Marquesa, de Oscar Niemeyer, e da obra do artista capixaba Sandro Novaes. O projeto é de Lia Strauss. Foto: Divulgação
Hall de entrada do Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória, destaca as raízes brasileiras e do Espírito Santo por meio do banco Marquesa, de Oscar Niemeyer, e da obra do artista capixaba Sandro Novaes. O projeto é de Lia Strauss. Foto: Divulgação

"Temos uma história muito rica em todos os estados do Brasil, uma cultura de arte popular valiosíssima, em cestaria, cerâmica [e outras técnicas], que está sendo cada vez mais valorizada pelos profissionais", destaca Lia. A arquiteta Luciana, por sua vez, considera que ainda há muito o que se explorar e valorizar da produção artesanal nacional. Ela destaca ainda que o artesanal não é, necessariamente, sinônimo de algo rústico, como muitos acreditam, e que a inserção de elementos com estas características pode trazer personalidade a ambientes contemporâneos.

"A casa não é uma vitrine. Não existe uma regra. O interessante é perceber que o emocional está muito ligado à percepção do cliente", conclui.

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