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Em louvor dos baixos
| Foto: Bigstock

Tamanho não é documento – mas altura sim – pelo menos no mercado imobiliário. É quase um truísmo no setor que andares altos são mais caros. Em média, os valores dos apartamentos variam entre 8% até 15%, do primeiro ao último andar, com poucas e explicáveis exceções. Mas nem sempre foi assim. Nos prédios da Roma antiga, em que Cícero e outros patrícios exploravam o aluguel, no primeiro andar ficavam os mais ricos, os comerciantes; e à medida que o prédio subia, hospedavam-se os mais pobres, e os parasitas de estimação. Na cobertura? Os escravos, é claro. Esse costume persistiu, e mesmo vários séculos depois, na Paris de Napoleão III, os Goncourt chegam a escrever no seu diário que, nas famílias burguesas, nenhum parentesco poderia resistir acima do quarto andar de um prédio (eles acabavam de visitar uma prima no quinto). Era preciso subir as escadas.

É claro que o elevador mudou tudo isso, e ficou chique e rico morar no alto, e quanto mais alto, melhor. Cantou-se os louvores da vista, a distância das ruas. Propalou-se a metáfora do alto, a hierarquia dos preços e andares refletindo a hierarquia social hipotética. Sem contar as metáforas vienenses que aqui não é preciso declinar.

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Isso gerou o seguinte efeito simétrico: preços altos ao alto, e preços baixos embaixo. Tinha uma lógica natural, por assim dizer. Segundo corretores, seria difícil vender andar baixo, já que estes “não pegariam preço”. Daí a corrida para o alto e além.

Incorporadores lutam pela verticalização, como se sabe. E algumas cidades brigam pelo título de mais altas do mundo. Balneário Camboriú, a praia paranaense, digo catarinense, afirma estar construindo ou já possuir 7 dos 10 mais altos prédios do Brasil – e daqui a pouco terá as areias mais largas também (essas estatísticas flutuam). Já é a segunda cidade mais verticalizada do Brasil, perdendo para Santos, outra praia.

Mas após todo esse arrivismo dos prédios mais altos, percebe-se agora uma maior apreciação de novas construções mais baixas, menores, mais, digamos, horizontalizadas. Isso já ocorria em produtos econômicos, mas a novidade é que agora acontece também dentro dos segmentos mais altos. Em várias cidades do Brasil, muitos projetos estão surgindo, com propostas arquitetônicas que procuram aproximar-se da ideia de casa.

E assim, como a cobertura antes “vendia rápido”, agora o queridinho é o Garden, o antigo térreo que ninguém queria. Vendem-se as plantas amplas, arejadas, com janelões, e jeitão de casa. O que aconteceu para essa transformação de perspectivas?

Depois do sucesso das altas torres, consumidor está de olho em construções mais horizontais e próximas da rua e dos espaços comuns.
Depois do sucesso das altas torres, consumidor está de olho em construções mais horizontais e próximas da rua e dos espaços comuns. | Bigstock

Um pouco de tudo, como sempre. Desde mudanças de legislação e novos zoneamentos, quanto o próprio fato da descoberta de um público que prefere andares mais baixos – e não porque são mais baratos – mas porque são mais próximos. Além é claro da maior disponibilidade de terrenos bem localizados.

Prédios altos e baixos: esse é um campo de amplo debate entre os urbanistas, sem qualquer chance de consenso. Há os que defendem a elevada verticalização, o aumento de densidade para o alto, com uma cidade mais compacta. Enquanto há aqueles que entendem o contrário: menos altura, uma escala mais humana, densidade sem necessariamente altura elevada. Possivelmente qualquer resposta essencialista estará errada, por não considerar pressupostos concretos de cada cidade em particular: sua história, cultura, formação, economia urbana e geografia física e política. Hong Kong nunca será Los Angeles, por óbvio.

Mas já era hora de louvar os andares baixos. Há vantagens para quem os escolhe como, por exemplo, poder usar diariamente escadas e se exercitar; não depender de espera em elevador (ótimo quando falta luz); sensação de proximidade com a rua, com as árvores, com os passantes. E por último: rapidez de deslocamento para entrar e sair, inclusive para áreas comuns do empreendimento. Proximidade, eis a palavra síntese.

A lista de preferências sempre será pessoal, é claro. Mas os prédios baixos, mais próximos, em terrenos maiores, vieram para ficar. E o preço?

Este será agora o preço de um andar alto, isto é, vai subir.

*Marcos Kahtalian é sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica

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